Tal como o PS, o seu porta-voz, o deputado Vitalino Canas, fez tantas coisas boas que não sei se devíamos perder tempo a falar das más. Mas aqui vai. Quando há um ano se discutiu no Parlamento a lei do trabalho temporário, o deputado fez uma declaração de voto. Que a lei do PS era ainda demasiado restritiva. Ia em 'contraciclo'. Que o PS estava a assustar esses beneméritos que arranjam às empresas, sem aborrecimentos contratuais, jovens trabalhadores à jorna, fazendo-se pagar com parte dos seus já magros salários.
Recentemente ficámos a saber a razão de tanto empenhamento: Vitalino Canas é provedor do trabalho temporário. Pago por quem? Pela associação do ramo. E aparece a dar a cara por ela. Vitalino Canas é deputado e faz declarações de voto em defesa das empresas que lhe pagam. É socialista e representa aqueles que de forma mais evidente contrariam qualquer ideia de socialismo. Uns dias é porta-voz do PS, nos outros fala em nome de empresas. Em nada disto vê qualquer incompatibilidade.
Espero que as empresas de trabalho temporário tenham recorrido aos seus próprios serviços para contratar o deputado. Com estes assalariados nunca se sabe. Podem, de repente, querer entrar no quadro. E um deputado com emprego seguro começa logo a desleixar-se. Não é, como se vê, o caso de Vitalino Canas. Nem quando está sentado no hemiciclo se esquece para quem trabalha. Assim é que deve ser. O melhor socialista é o socialista precário.
Bufo nubente
Quem casa contrata serviços. É normal que pague impostos por isso. E é normal que se fiscalize se os paga. Mas já se sabe que o Governo está empenhado em fazer de cada português um fiscal. Quer que os nubentes, entre o lançamento do buquê e o calor da noite de núpcias, controlem se todos os outros estão a cumprir as suas obrigações tributárias. Tenho ouvido muitas críticas. Injustas. Para mim, o Governo peca por defeito. E o defeito resulta de uma fraca integração dos vários serviços do Estado, que podiam aproveitar estes excelentes olheiros.
Proponho mais funções para os noivos. Informação a recolher: Na despedida de solteiro as convidadas pediram factura aos "strippers"? O bolo da boda foi preparado com colher de pau? No grupo de baile que animou o copo de água havia algum imigrante brasileiro ilegal? Algum dos convidados fumou em zona não autorizada? Na noite de núpcias verificou se o parceiro usava "piercing" nos genitais? Este é problema do Governo de Sócrates: as suas reformas são boas, mas, por desorganização ou falta de coragem, ficam sempre a meio.
'SHOTS'
O Governo fez as contas e falta um ano para as eleições. O Governo decidiu baixar os impostos. A agenda fiscal continua a ser um relógio eleitoral: primeiro sacrifícios, depois campanha, depois sacrifícios de novo. E querem ser levados a sério.
Com tantos tiroteios no seu currículo, baralhou-se. Para mostrar a sua experiência em política internacional, Hillary Clinton contou várias vezes aos jornalistas que numa visita à Bósnia, em 1996, teve de se esconder de um tiroteio. Revistas as imagens da altura, era tudo falso.
Daniel Oliveira