O acto de comer carne humana - ritual praticado por culturas ancestrais e durante o período de extrema escassez - pode também representar a concretização de fantasias sexuais sádicas, associado a indivíduos de alguma forma deslocados na sociedade e quase sempre portadores de transtornos psíquicos, afirma a médica Nahlah Saimed, especialista em medicina legal, directora do Centro de Psiquiatria Forense da Vestfália, Alemanha.
Alguns dos homicídios mais famosos da história estão associados ao canibalismo patológico. Um dos casos mais antigos remonta ao século XVIII. Paulo Reisinger, que assassinou seis mulheres entre 1779 e 1786, comeu-lhes o coração. Estava convencido de que se comesse o coração - ainda a bater - das vítimas, obtinha sorte no jogo e o dom de se tornar invisível.
Outro caso famoso é o do japonês Issei Sagawa,, que em 1981, em França, matou e comeu a sua professora de alemão, a holandesa Renée Hartevelt, de 25 anos. A polícia ainda encontrou pedaços do corpo, cuidadosamente embrulhados, no seu frigorífico. O assassino, então com 33 anos e estudante de Literatura, tinha um fetiche por mulheres loiras, tendo feito um relato escrito do acto de canibalismo: "Corto o seu corpo e levo a carne assada à boca (...)", admitindo ter praticado sexo com o cadáver mutilado.
Sagawa foi internado numa clínica psiquiátrica francesa, onde foi diagnosticado como "psicótico intratável". Em 1985, graças às pressões do pai, um rico empresário japonês, acabou por ter alta, tendo regressado ao Japão onde, ainda hoje, é considerado uma espécie de ídolo pop bizarro.
O mais recente caso de canibalismo patológico conhecido é o do alemão Armin Wives, 'O Canibal de Rotenburg', que em 2006 foi condenado a prisão perpétua por um tribunal de Frankfurt por ter assassinado, esquartejado e comido parcialmente outro homem. Nascido em 1962, Weives, que se tornou conhecido também como 'Der Metzgermeister' (O Talhante Mestre), era um usuário da Internet.
O crime remonta a Março de 2001, tendo tido o acordo da própria vítima, Bernd Jurgen Brandes, que leu um anúncio divulgado pelo assassino na Internet. O homicídio foi praticado na casa de Armin Wives, local marcado para o encontro, onde o assassino começou por amputar o pénis de Brandes, como haviam combinado previamente.
A ideia era os dois comerem o órgão sexual da vítima, depois de temperado e frito (não se tem a certeza se a vítima comeu a sua parte, embora o assassino assegure que ele o fez). Em seguida, após Brandes desfalecer, Wives esquartejou-o, enterrou parte do corpo no jardim, e pôs o resto no freezer, de onde foi retirando a carne que iria comer nos meses seguintes.
Armin Weives somente veio a ser detido em Dezembro de 2002, quando um estudante austríaco alertou a polícia para um anúncio na Internet, posto por Wives, que mais uma vez solicitava um candidato para ser morto e comido. Os médicos que o examinaram deduziram que o assassino sofre de uma grave perturbação mental incurável, e é um perigo para a sociedade.
Nas buscas, as autoridades ainda encontraram pedaços de carne e ossos congelados, pertencentes a Brandes, bem como o macabro vídeo feito por Armin Wives, que mostra o assassino a matar, a desmembrar e a comer Brandes.
Segundo a imprensa alemã, o assassino terá dito à polícia que Brandes estava "obcecado" com a ideia de ser devorado vivo, desde que viu o filme 'O Silêncio dos Inocentes', de 1988, cujo personagem principal, o canibal Hannibal Lecter, é interpretado pelo actor Anthony Hopkins.