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Ferro Rodrigues, Camarate e o nevoeiro português

8:00 Quinta-feira, 27 de Dez de 2007
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A justiça terrena, pelos vistos, também é democrática: há muitas, variadas e de todos os preços. É por isso que, uns dias antes do Natal, Ferro Rodrigues desceu do seu posto diplomático à simplicidade campestre de Monsanto para depor em tribunal. Ao tentar explicar a razão do seu envolvimento no Processo Casa Pia, Ferro Rodrigues disse que tudo se ficou a dever ao facto de ter sido líder de uma oposição considerada "demasiado à esquerda". Por outro lado, para o ex-secretário-geral do PS, a "cabala" podia também ser explicada com base numa pura manobra de diversão (tendo com base a "instrumentalização" de alguém "preso" ou que "pudesse vir a ser preso").

Ambas as conjecturas parecem algo viciadas. Vício de interpretação, é claro. A primeira explicação, mais defensiva, refugia-se nas referências direita-esquerda, quando todos sabemos que a complexidade do mundo actual requer bem mais do que o simplismo esquemático e binário dessas referências. A segunda explicação imagina o combate político à imagem das grandes ficções de espionagem, recheadas de álibis tenebrosos e amputações políticas perpetradas em laboratório (uma espécie de super-Watergate português com Nixons imaculados).

Perguntar-se-á: quem ousaria tramar uma conjura monumental a Ferro Rodrigues e a Paulo Pedroso por encarnarem, um e outro, um perigosíssimo desvio de esquerda nos idos de 2002/3? A ser verdade tal paradoxo, o que teria acontecido a Sampaio, Soares, Alegre e Roseta, de então para cá? Por outro lado, quem teria capacidade, no Portugal de hoje, para "instrumentalizar" tudo e todos - com excepção para o agora intérprete dos factos - nas barbas de uma presumível e delicada operação judicial?

O facto é que, após cinco anos de enigma, Ferro Rodrigues desceu do seu posto diplomático a Monsanto para adensar ainda mais o enigma. E não é menos verdade que uma aura de desconfiança domina a espessa névoa portuguesa, de que o caso Casa Pia é um dos mais recentes sinais. A névoa de Ferro Rodrigues, como a do acidente de Camarate, é uma névoa de natureza completamente diferente da que muitos desenharam à volta do D. Sebastião regressado, invicto e salvador. É uma névoa que apenas encobre e não promete, que apenas cobre e não dá qualquer esperança.

Passa o tempo e a desconfiança permanece. Não tenhamos dúvidas disso. A voz corrente decidiu há muito dar vida ao triste rei do final de quinhentos. A voz corrente decidiu há muito reconhecer dedo de assassino na queda de avião que vitimou Sá Carneiro e Amaro da Costa. Fica por saber o que a voz corrente irá ditar no caso Casa Pia. O mito acabará sempre por falar mais alto. Sabe-se que assim é, quando o tempo passa e a desconfiança permanece. Independentemente da inocência e do que venham a decidir os tribunais, Ferro Rodrigues terá que arranjar melhores conjecturas. A "esquerda-direita" e as chamadas "manobras de diversão" não são particularmente felizes. Convenhamos.

Bom Ano Novo!

Luís Carmelo

Professor universitário e autor

4 comentários
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SIM? NÂO? TALVEZ?
lord byron (seguir utilizador), 1 ponto , 15:01 | Sexta-feira, 28 de Dez de 2007
Aponta-me uma pessoa sobre quem tenha caído a nódoa de uma acusação destas e ela de lá tenha saido impoluta?
E com investigações destas ainda menos isso é possivel(conversas amigaveis entre o director da PJ e um jornalista do correio da manhã)?
Na biblia a primeira pedra deve ser atirada por quem nunca pecou, eu neste caso fico satisfeito que ela seja atirada por aquele que não tem sombra de duvida, para além do fundamentalismo do julgamento popular.
PS. claro que és o autor e o professor universitário é para te dar mais ou menos credibilidade? Ou és apenas naturalmente pomposo
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    Re: SIM? NÂO? TALVEZ?    Ver comentário
Luís Carmelo (seguir utilizador), 1 ponto , 16:13 | Sexta-feira, 28 de Dez de 2007
    Re: SIM? NÂO? TALVEZ?    Ver comentário
lord byron (seguir utilizador), 1 ponto , 20:57 | Sexta-feira, 28 de Dez de 2007
    Bom ano 2008 se for possível....    Ver comentário
userEX60551 (seguir utilizador), 1 ponto , 2:31 | Quarta-feira, 2 de Jan de 2008
4 comentários
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