Um dos aspectos mais inquietantes da agressão israelita contra Gaza é a forma como parece esquecer-se - e sistematicamente se ilude - o gigantesco acumular de inevitáveis problemas futuros, a sementeira de ódios e violências que os tanques e bombardeamentos estão a realizar.
Está praticamente tudo dito sobre a completa ausência de razões para o sistemático massacre a que se assiste em Gaza, mas um dos mais notáveis aspectos é que Israel ainda não tenha compreendido que nenhuma das suas aventuras militares lhe proporcionou um grama mais de segurança - pelo contrário.
Pode alguém de bom senso supor que pelo facto de matar ou aprisionar dirigentes do Hamas e bombardear túneis, o povo israelita conquistará alguma tranquilidade ou, pelo contrário, desencadeará o inevitável empenho palestiniano numa vingança que ganha a dimensão de mais de um milhar de mortos?
O que é impressionante e dramático é que as acções israelitas jamais constituam uma criação de condições para resolver o problema da sua existência, mas antes um sistemático encerrar de portas e a libertação de mais e mais demónios impedindo qualquer avanço pacífico. As decisões assumem frequentemente um carácter tão absurdo, tão evidentemente errado, que se justificam as interrogações sobre se o objectivo é caminhar no sentido da resolução do conflito com o povo palestiniano ou, pelo contrário, impedir que a mais pequena possibilidade ou esforço fracassem e tudo volte a ficar pior do que antes.
Construir o muro da Cisjordânia, destruir casas, roubar água à população árabe pode ser considerada uma medida susceptível de resolver seja o que for, ou é forma certa de assegurar o crescimento de justos protestos? Apoiar o crescimento do Hamas e entregar-lhe a Faixa de Gaza no quadro de um esforço de enfraquecimento da Fatah conduziria a qualquer coisa de mais estável ou acabaria por gerar a tragédia a que assistimos?
É casual que o brutal ataque se tenha realizado exactamente em períodos politicamente relevantes, como eleições em Israel e a posse de novo presidente nos EUA? Face ao sangue em Gaza, que se esperava da reacção dos partidos árabes de Israel? Que aplaudissem a agressão ou, como seria inteiramente previsível, que expressassem o seu protesto, de resto no pleno exercício dos seus direitos democráticos? O seu afastamento das próprias eleições contribui de alguma forma para mútua busca de soluções? Ou trata-se pelo contrário não de um 'dano colateral' mas de uma 'vantagem colateral' para a direita israelita, que chega já ao ponto de falar abertamente na arma atómica?
A mais trágica dimensão da agressão a Gaza não é apenas o presente: é sobretudo o futuro. Em Gaza, em Israel - e não só.