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França e África do Sul

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 3 de setembro de 2010

Em bairros pobres da África do Sul recomeçou a caça aos comerciantes estrangeiros, sobretudo do Zimbabwe, que atingira o seu auge de violência em Maio de 2008 deixando mais de 60 mortos e pondo em fuga, de bairro de lata para bairro de lata, cerca de 100 mil pessoas; acabara por ser reprimida pelas autoridades, de entrada lenta a acudir, mas estivera quase esquecida durante o campeonato do mundo de futebol. Quase, porque continuara sempre a haver ataques esporádicos a lojistas estrangeiros e agora, aumentando a pouco e pouco, manifesta-se de novo. O Governo está mais atento - em vez de ajudar à festa como fizera nalguns lugares em 2008, a polícia ganhou coragem para intervir em bairros negros, prendendo agressores e colocando reforços profilácticos em pontos sensíveis - mas, em vastos subúrbios pobres, da Cidade do Cabo a Joanesburgo, de Port Elizabeth a Pretória, autoridades e imigrantes estão com o credo na boca. Há na África do Sul pelo menos 25% de desempregados (número oficial) e quase 4% da população do país é constituída por estrangeiros, vindos por haver ainda menos trabalho nos seus países de origem (três quartos deles do Zimbabwe). Sobre este palco combustível, políticos sem escrúpulos associam imigrantes a crime, caricatura falsa com que querem dar ideia de que combatem a criminalidade - tarefa difícil, lenta e pouco espectacular - quando se limitam a expulsar brutalmente um grupo de gente inocente e indefesa. (Em 2008, aproveitando o limbo legal de muitos dos subúrbios, alguns deram mesmo propriedades abandonadas pelas vítimas em fuga aos seus apaniguados).

O tratamento pouco edificante dos ciganos romenos (os 'roma', acampados aqui e além em França) pelo Governo de Sarkozy parece obedecer ao mesmo expediente. A perseguição foi instaurada a pretexto de tumultos populares tendo por alvo a polícia; o Governo fez imediata e deliberadamente a 'amálgama' (termo muito utilizado em França) de crime e estrangeiros (neste caso, um grupo particular de imigrantes em situação irregular com tradição europeia antiga de bode expiatório); de entrada, sondagens de opinião revelaram uma maioria de franceses contentes com o que viam. Para ganhar votos (há presidenciais em França daqui a dois anos), Sarkozy apelara directamente aos instintos do povo, por cima das élites, como sempre havia feito - mas talvez agora o tiro lhe saia pela culatra. A indignação (hipócrita) internacional está a ser acompanhada por protestos veementes não só da oposição mas também de barões influentes do seu próprio partido e, pior do que tudo para o cálculo eleitoral do Presidente, da Igreja católica.

Na África do Sul, com o horror do apartheid ainda na cabeça, nem sempre é fácil impor a vontade legítima do Estado à maioria negra e pobre do povo. A França carrega um outro fardo: inventou os Direitos do Homem mas inventara antes a razão de Estado. Conciliar ambos, sem guilhotinas de permeio, exige artista consumado no Eliseu.

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010

jpc@ias.edu

José Cutileiro escreve de acordo com a antiga ortografia

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