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Fórmula para um novo ciclo político

Há imensas razões para se ganhar ou perder eleições: os lindos olhos dos líderes, a escolha dos temas de campanha, o design dos cartazes, os escândalos de última hora, etc. Mas se dermos um passo atrás, constataremos que a adequação do posicionamento ideológico ao ciclo político longo sobressai como o principal factor condicionante do resultado.

Vasco Campilho
18:38 Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
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Nos últimos 25 anos, o PSD ganhou quando soube protagonizar a mudança no modelo económico, e ao mesmo tempo representar o ponto de equilíbrio da sociedade portuguesa no que concerne aos valores morais. E o PS ganhou quando soube protagonizar a mudança  nos valores sociais, e ao mesmo tempo colocar-se no ponto de equilíbrio da sociedade portuguesa relativamente ao modelo económico.

As maiorias absolutas do PSD foram conquistadas num período em que Portugal precisava desesperadamente de mudança na economia: a herança do 11 de Março era ainda de uma brutal actualidade. Por via da nacionalização da banca, mais de metade da economia portuguesa era detida pelo Estado. Estamos a falar não só de empresas industriais e agrícolas, mas inclusivamente de empresas comerciais e até da quase totalidade dos órgãos de comunicação social. Ora essas nacionalizações estavam gravadas no mármore constitucional. o PSD cavaquista é hoje sobretudo recordado pela sua aposta na modernização da infraestrutura e pelo contributo que deu para a construção do Estado Social tal como o conhecemos. Mas aquilo que diferenciou essencialmente a mensagem política do PSD nessa época foi a recusa em conformar-se com a herança económica do PREC. E foi o sucesso desse inconformismo que lhe garantiu um lugar na história.

A vitória do PS em 1995 deu-se mais por esgotamento do cavaquismo enquanto paradigma de mudança do que pela iniciativa do PS. Ainda assim, esta vitória só foi possível após um aggiornamento ideológico que deixou bem claro que o PS não voltaria atrás, antes prosseguiria, o modelo económico herdado de Cavaco. Foi a terceira via guterrista. A nova hegemonia socialista consolidou-se à medida que a descompressão social foi substituída pelo assumir de uma agenda progressista nos valores - uniões de facto, IVG, reforma do divórcio e casamento homossexual são apenas os traços mais salientes dessa agenda.

Mas é também evidente para o observador distanciado que a hegemonia socialista se começou já a esboroar. Em 2009 PS obteve o seu pior resultado desde 1991 - inferior mesmo à derrota de 2002. A causa deste desgaste não foi o progressismo de valores, mas sim o esgotamento do modelo económico prosseguido pelo PS. O desequilíbrio externo e o endividamento de um  Estado cada vez maior e apenas marginalmente mais eficiente condenaram a economia portuguesa a um crescimento residual, eliminaram a margem de manobra redistributiva e ameaçam mesmo a sustentabilidade dos compromissos fundadores do Estado Social.

O PSD não soube aproveitar a ocasião para reproduzir a sua fórmula vitoriosa - mudança na economia e equilíbrio social. Ao invés, propôs continuidade na economia e polarização nos valores morais, o que afastou qualquer hipótese de alargar a sua base de apoio. Portugal precisa de uma agenda de mudança económica que permita resolver os desequilíbrios estruturais e reencontrar o caminho do crescimento, e só o PSD a pode protagonizar. Mas o PSD não a poderá tornar vitoriosa enquanto não fizer um aggiornamento ideológico que o compatibilize com aquilo que é o ponto de equilíbrio da sociedade portuguesa hoje, em matéria de valores. Não se trata de pôr o PSD a promover causas fracturantes: trata-se de desfracturar as causas de valores, promovendo a coesão de uma sociedade cada vez mais plural. Sem essa abordagem, bem pode o PSD ter carradas de razão no seu programa económico: nunca conseguirá agregar apoios suficientes para o concretizar.

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