O congestionamento de Luanda é já um clássico. Não é apenas no sentido mais tradicional do termo: o trânsito é caótico, desesperantemente lento, e os custos económicos e de saúde associados são incomensuráveis. Mas o congestionamento é também populacional.
As estatísticas variam, quer sejam dois milhões ou três ou quatro. Mas o congestionamento é também predial. A continuar assim, qualquer moradia ou prédio de dois andares será uma relíquia dentro de alguns anos. E a bem da modernidade augura-se congestionamento na baía de Luanda com o empreendimento para ali previsto. No meio disto tudo, coitada da mabanga, que a quiteta já foi... Mas ainda há o congestionamento burocrático e empresarial. Tudo está concentrado neste pólo e quem não está aqui não existe pura e simplesmente. Até o congestionamento político está bem vivo na capital. Por via de tudo isto os custos da actividade diária, empresarial e individual, são elevados. Por tudo isto é penoso viver em Luanda, os constrangimentos ao nível do regular abastecimento de electricidade e água mantêm-se, persistente e inexplicavelmente!
Que fazer? Sair de Luanda. Por razões do trabalho que me levou novamente a Angola, estive em Benguela-Lobito, onde mais regularmente vou, e no Huambo. A viagem fez-se de carro, mais de 1500 quilómetros. E bendita a hora em que assim foi. É um paraíso, se se pode usar tal palavra. Ao descuido de Luanda encontramos, em contrapartida, aquelas cidades, no mínimo, varridas, o que em termos comparativos locais significa limpas. Com um trânsito dentro de limites completamente toleráveis, quer de viaturas quer de pessoas. É certo que questões ligadas à energia eléctrica e água apoquentam ainda. Mas respira-se outro ar. A vontade de fazer negócio, isto é, de se tornar empresário é grande. Mas, e era esta a questão central que me levou ali, o empreendedorismo está presente em dezenas de potenciais empresários. Pequenos. Os seus problemas não são menores e o exercício de jogo de cintura e as 'idiossincrasias' locais não podem deixar de ser tomadas em conta. O realismo e o pragmatismo vão de mãos dadas. Mas luta-se e faz-se alguma coisa. É um raio de esperança muito interessante para o futuro do país. As estradas principais ligando as capitais estão recuperadas e circula-se muito bem. Lá se vão vendo os letreiros das construtoras, sejam portuguesas, brasileiras ou chinesas. A recuperação do caminho-de-ferro de Benguela dá alguns ares embora se constate a paralisação em diversos troços. Mas até as pequenas vilas que fui atravessando apresentam-se varridas, com calma e a ensaiar a recuperação. A partir de Benguela, à volta do Huambo, no Wako Kungo, etc., é uma paisagem diferente com lavras em cultivo. Não há dúvidas. Se fosse possível, e não fosse a centralidade de Luanda, o melhor mesmo era ir para fora de Luanda e aproveitar as oportunidades que por ali existem potencialmente. Potencialmente, digo bem, porque a realidade é madrasta.
Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010