Dirigente metalúrgico e militante do PCP desde 1975, Florival Lança foi eleito em 1980 para o órgão máximo da CGTP. Em 1993, assumiu o pelouro das relações internacionais, tendo defendido a adesão da central à Confederação Sindical Internacional (CSI). Esta posição, contrariada pelo seu partido, ditou a sua saída da direcção da central no último congresso, de 2008. Com 64 anos, a alguns meses de passar à reforma, escreveu o livro "Inter Nacional" (da Profedições), lançado no dia 9.
Deixou de pertencer à direcção da CGTP. Foi afastado?
É o termo correcto.
O motivo formal foi uma norma que impedia quem tivesse mais de 60 anos de ser eleito dirigente.
Essa norma não existia. Tal como tive a ocasião de dizer nas reuniões em que participei, foi uma norma para vigorar apenas naquele congresso. Disseram que não, mas as evidências estão a demonstrar que foi uma norma pontual, ad hoc, e para mim, e que levou por arrasto mais alguns dirigentes que não tinham cometido delitos de opinião.
O seu "crime" foi um delito de opinião?
Nítido, claro e evidente. Tinha uma opinião contrária à da maioria. Defendi e argumentei com o conhecimento que tinha relativamente à estratégia que a CGTP devia seguir face ao movimento sindical internacional. Foi a partir dessa opinião, considerada quase uma blasfémia pela maioria, que se desenvolveu o processo do meu afastamento. Sempre estive de acordo que a CGTP deveria ter um processo de rejuvenescimento planificado e continuado. Se o problema fosse esse, compreenderia e seria o primeiro a dar o exemplo, afastando-me. Mas o problema nunca foi este. Foi a opinião que formei, elaborei e manifestei sobre a necessidade da CGTP se incorporar no movimento sindical internacional.
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| António Pedro Ferreira |
Isto é: aderir à CSI.
Aderir à CSI, porque esta surgiu com um espírito diferente e uma vez que a CGTP, em todos os espaços onde age, trabalha com gente da CSI. Teríamos toda a vantagem em não criar nenhum anti-corpo na nossa participação regular em diversas instituições.
Saí do PCP depois do congresso da CGTP
Ao defender essa posição esteve em minoria, apesar de pertencer à maioria, na medida em que é militante do PCP.
Não, eu neste momento já não sou militante do PCP.
Mas na altura era.
Sim, mas saí mais de um ano depois do congresso. Na altura fazia parte da maioria e nesse campo era minoritário.
O que o fez sair do PCP?
Não gostaria muito de falar nisso. A única diferença que existe em mim, neste momento, é que não pago quotas, nem reúno, nem estou sujeito á disciplina partidária.
Na altura, já se sentia um corpo a mais?
Não era bem essa a questão. Eu tenho a ideia que a CGTP deveria acompanhar o movimento sindical internacional. Penso que esse é o caminho correcto, e não posso continuar a defender isso como militante do PCP. Porque o PCP tem outra orientação.
Que é?
Pelo menos a não adesão à CSI. Mas parece ser mais que isso. Mas isso é especulativo.
Recomendação secreta dos PC's aprovada em Lisboa
Acha que é especulativo, depois de publicar no seu livro uma recomendação aprovada em 2006 pelos partidos comunistas, numa reunião em Lisboa, no sentido de reforçar a outra central internacional, a Federação Sindical Mundial (FSM)?
É sempre de carácter especulativo, porque eles só dizem que se comprometem a defender e reforçar a FSM. E isso pode ser feito de muita maneira e não necessariamente através da incorporação orgânica na central.
Há outras formas de alinhar com a FSM?
Há várias vias, como a filiação de federações e até mesmo de sindicatos, e da participação em iniciativas da FSM.
Já há estruturas da CGTP filiadas na FSM?
Neste momento, creio que há duas: uma, já concretizada, é a federação da Construção, Mármores e Madeiras; outra, seria a da Hotelaria. Mas não tenho a certeza, não vi o termo de adesão.
Quando teve conhecimento daquela recomendação aprovada pelos PC's?
Já depois do congresso.
Mais de dois anos depois da sua aprovação.
Exactamente. Foi até no estrangeiro - não quero mencionar o país, porque isso poderia conduzir à identificação da pessoa que mo deu - que me confrontaram com o documento e de que pedi uma cópia.
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| António Pedro Ferreira |
Os sindicatos árabes e Alá
Trata-se de uma orientação estratégica no sentido de reforçar a FSM, a velha central sindical mundial - sindical entre aspas, porque nunca houve sindicalismo nos países comunistas.
A actual FSM não tem nada a ver com a velha FSM. A velha FSM tinha a função de transportar para o campo sindical internacional a orientação da referência central do socialismo que era a União Soviética. Esta FSM, embora seguindo a mesma linha, é diferente.
Porque já não existe bloco soviético!
Não é só por isso. Podia continuar a ter a mesma "pureza ideológica", mas não tem. Não tem porque não pode. Para não desaparecer, a FSM teve que se ancorar, sobretudo no plano financeiro, às organizações árabes: Síria, Sudão, Irão...
Há sindicatos nesses países? Sindicatos como a gente os conhece!
Não. Na maior parte desses países não há contratação colectiva, direito de greve ou liberdade sindical. Na maior parte deles há uma concepção em que a religião é determinante: Alá está lá por cima e todos nós trabalhamos para o seu engrandecimento, sejam trabalhadores, sejam patrões.
Uma sociedade corporativa-religiosa.
Exactamente. A única motivação que os árabes têm para estar na FSM é que a CSI não os aceita, por causa da falta de liberdade sindical. Mas eles não querem o sindicalismo como nós o conhecemos. Isto acaba por produzir um conjunto de slogans anti-americanos (com razões, acrescente-se) como único cimento que une tudo o que está dentro da FSM. Mas isso, do ponto de vista sindical, não é nada. Até pode ter importância do ponto de vista político, mas essa não é a função dos sindicatos.
É o que você designa no livro como retórica "panfletária e pseudo-revolucionária".
Exactamente. Porque não tem tradução rigorosamente nenhuma na prática.
O debate foi subvertido
A recomendação, aprovada pelo PCP às escondidas - no sentido em que não foi revelada -, é para ser levada à prática pelos sindicatos. É a velha correia de transmissão?
Exactamente. É essa a concepção.
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| António Pedro Ferreira |
Foi uma das razões que o levou a afastar-se do partido?
Quero ter a liberdade, até do ponto de vista ético, para continuar a defender uma ideia em que acredito. E como sou e sempre fui sério, não queria estar dentro de um partido que tem uma orientação contrária àquilo que quero fazer - e situo aí a minha saída.
O Manuel Carvalho da Silva conhecia esse papel?
Não. Tanto quanto sei - e eu acredito nele -, não conhecia.
Quem o conhecia?
Atrevo-me a dizer uma coisa que até pode ser ofensiva para alguns antigos camaradas meus: acho que ninguém sabia. Falo dos dirigentes. Porque admito que noutros espaços alguém soubesse, porque há muitos membros do Comité Central.
Há um centro de decisão exterior à CGTP?
Como recomendação, não se pode fazer essa afirmação de forma tão taxativa. Mas que há um esforço muito grande para encaminhar a CGTP naquela direcção, e que isso é um factor de subversão do debate, é uma evidência.
Subversão?
Claro! O debate não foi aberto e foi boicotado por muitas organizações da CGTP.
Só fui à federação têxtil
Está a fazer uma acusação que vai ter que concretizar.
Houve muitas organizações que se recusaram a cumprir uma orientação do Conselho Nacional da CGTP, que era promover o debate em todas as estruturas. Das mais de 30 organizações sectoriais e regionais, estive em meia dúzia: em várias uniões e numa federação.
Só numa federação? Qual?
A federação têxtil.
Desde sempre a mais unitária de todas as federações da CGTP.
Mais unitária e que tem acompanhado de mais perto a evolução do sindicalismo internacional.
Onde a presença das correntes minoritárias é...
...mais viva, presente e activa.
E em que uniões distritais?
Aveiro, Setúbal, Évora, Lisboa, Algarve.
Na União do Sindicatos do Porto?
Não estive.
O caso do António Chora foi mal tratado
Falou em boicote. No entanto, a dimensão internacional faz parte da própria génese do sindicalismo.
Desde que existe CGTP que ela sempre foi uma das suas preocupações e linhas estratégicas. Estamos a falar do princípio das coisas: a internacionalização da luta. Perante os mesmos problemas, as mesmas respostas, dadas pelo conjunto dos trabalhadores. Há pouco tempo houve uma conferência promovida pelo sector minoritário...
Que foi boicotada!
Não foi boicotada. Teve 400 participantes - mas não teve a participação da CGTP e deveria ter tido. Apareceu um sindicalista de base, da Autoeuropa, que exemplificou com uma clareza meridiana que se não fosse a conjugação de esforços dos trabalhadores da AE de toda a Europa não se teria conseguido manter aqui a AE.
Foi o António Chora?
Sim.
Porque é que o António Chora nunca pertenceu à direcção da CGTP?
Não faço a mínima ideia,
Por pertencer ao BE?
Não faço ideia. Também não compreendo. Essas coisas é preciso conhecê-las em profundidade e em pormenor. Acho que foi um problema mal tratado, mas não o conheço.
O dossiê que foi metido na gaveta
O livro é editado por dois sindicatos de professores, que pertencem às correntes minoritárias. Porque não foi editado pela CGTP?
Não sei se a CGTP tem uma editora...
Alguém dos órgãos confederais, a que pertenceu durante quase trinta anos, soube deste livro?
Não. Do que a Comissão Executiva tomou conhecimento foi de um embrião deste livro: um dossiê que elaborei sobre a situação sindical internacional.
Que foi metido na gaveta.
Claro. E foi metido porque afrontava a ideia maioritária, que era exactamente a contrária da que eu sugeria.
Não mostrou isto ao Carvalho da Silva?
Não. Este livro é do conhecimento de algumas pessoas, poucas. Não quero enumerar nomes, para não ferir susceptibilidades. Não nasce de uma concertação de ideias. Nasce exclusivamente da necessidade que tive de dar a conhecer o meu pensamento sobre o problema. Porque acho que o problema não está encerrado e que vale a pena continuar a discutir.
Você pode vir a ser acusado de não ter aceite a posição maioritária, votada no congresso.
Aceitei a decisão da maioria até ao momento em que tive responsabilidades. A partir desse momento, fiquei livre para defender a opinião que muito bem entendesse. Aceitei sempre as decisões tomadas democraticamente nos órgãos da CGTP. Mesmo quando não concordava com elas.
"Era violar a minha consciência individual"
Porque não falou no congresso?
Porque não quis. Insistiram para que falasse, mas cheguei a dizer que não queria ter o microfone à frente. Uma coisa era não agir e até votar de acordo com a maioria - a isso, sujeitava-me. Mas não me pusessem a dizer aquilo que não sentia.
Mas votou?
Votei, a favor daquilo a que estava amarrado.
Contra as suas convicções?
Exactamente. Fui até esse ponto. Sempre preservei a disciplina. Tem a ver provavelmente com a minha formação, até um bocado militar.
Disciplina leninista?
Não é nesse aspecto. A disciplina, para mim, é uma questão essencial. Há regras.
Mas há também a liberdade individual.
Quando a disciplina asfixia a minha liberdade individual, então só tenho que sair desse espaço. Foi o que aconteceu. Não podia estar amarrado a uma disciplina que me impedia de defender aquilo que defendo neste livro. Acabei por privilegiar a minha liberdade individual. Aí, rompo com as tradições leninistas.
Recusou-se a defender publicamente posições...
... que não eram as minhas. Era demais! Era uma violência e uma violação da minha própria consciência.
Mas o Carvalho da Silva não votou.
Foi uma opção dele. Eu nem sabia disso. O que revela que não houve concertação de posições.
Militante do PCP mais de trinta anos
Foi militante do PCP durante quantos anos?
32 ou 33 anos.
Alguma vez foi convidado para o Comité Central?
Fui e não aceitei.
Porquê?
Na altura era coordenador da União de Lisboa, nos anos oitenta. Não aceitei, porque não achava bem misturar as duas coisas, ser coordenador da USL e, ao mesmo tempo, membro do CC. Não sei explicar, mas não acho bem. Penso que na altura esta razão foi compreendida, porque nunca mais me convidaram.
Continua a ser comunista?
Continuo. Não tenho dúvida nenhuma. Este sistema já mostrou à saciedade - basta olhar para as desigualdades e injustiças que existem no mundo inteiro - que é incapaz de dar resposta às necessidades das pessoas.
E o comunismo é capaz?
É. É por isso que se deve criticar a experiência histórica que conduziu ao colapso que conhecemos.
Aquilo não era comunismo?
Não. Se fosse, não teria sido o descalabro que foi. Eu acredito numa sociedade de justiça - ia dizer igualitária, mas é um termo passível de várias interpretações. Deve ser igualitária em termos de oportunidades, de participação, de colher os resultados do esforço colectivo.
Não falou em liberdade...
A liberdade é a primeira condição para que tudo o resto seja materializável e possível.
"No Comité Económico e Social Europeu sou dos mais jovens"
Vai continuar a votar no PCP?
Como sempre votei. Não vejo que o meu voto possa ser útil noutro espaço. Não tenho nenhuma opção melhor.
Mesmo depois de tudo que aconteceu consigo?
Não podemos ter ressentimentos a esse nível. Devemos ser coerentes.
No CES você é um "velhinho"?
Não. Se exceptuarmos os novos países que aderiram, à EU, sou dos mais jovens. Há um italiano, que é altamente considerado no CES e que é um dos relatores, que tem 82 anos. A maioria é gente altamente qualificada e que lecciona nas universidades - e não é da terceira idade.
Aos 60 anos, um sindicalista ainda tem muito para dar?
Muito. Até para enquadrar e formar os que chegam. Não vejo razão nenhuma para descartar quadros que deram uma vida inteira ao movimento sindical. E não falo por mim.
"Já me chamaram traidor!"
Sente-se magoado?
Não. Foi um combate político.
Em que as armas foram...
... desiguais e pouco transparentes, é verdade. Mas não guardo mágoa de ninguém, a não ser de um ou outro amigo que de repente se esqueceram de 20 ou 30 anos de relacionamento profundo. Mas isso é secundário.
Não teme vir a ser classificado de traidor?
Já fui.
Preto no branco?
Sim. Soube isso no estrangeiro, ainda era dirigente da CGTP. Sei que não deixaram de dizer que me vendi ao imperialismo...
Não teme que esses labéus sejam ressuscitados, com a publicação deste livro?
Não temo, mas sei que vai ser assim. Porque isso é o mais fácil: evita a argumentação sobre o tema em si mesmo. Para se dizer isso, nem é preciso ler o livro, que para muita gente é uma trabalheira ... A forma mais simples é o "vendeu-se!", ou "quem havia de dizer?", "tínhamos uma confiança tão grande"... Ainda por cima um metalúrgico, da velha classe operária e vanguarda da revolução. Sei porque conheço as pessoas e o meio - e é a arma mais simples.
O que vai fazer na reforma?
Vou continuar a intervir. Onde, não sei: no bairro ou numa ONG. No debate de ideias, das velhas e das novas.
Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010