Júlia Seixas: 'É saudável um escrutínio público do que a ciência e os cientistas fazem e publicam'
Desde a Cimeira de Copenhaga, em Dezembro de 2009, têm-se sucedido vários episódios que colocam em causa a informação compilada pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, sobretudo no seu último relatório, o Fourth Assessment Report (AR4), publicado em 2007.
Surgiram dúvidas sobre o tipo de tratamento feito a dados de clima e sobre afirmações contidas no documento, em especial as que dizem respeito ao provável fim dos glaciares dos Himalaias em 2035 e ao risco do desaparecimento de mais de 40% da floresta amazónica devido a pequenas reduções na pluviosidade.
O Expresso entrevistou Júlia Seixas, investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, que foi a primeira cientista portuguesa a fazer parte do IPCC, entre 1998 e 2001.
Quais são os procedimentos do IPCC?
O IPCC tem um quadro de conduta e de procedimentos, público no seu site da Internet, que contempla a obrigatoriedade de fazer suportar qualquer afirmação por publicações científicas, com peritagem por pares. Para estas afirmações, e é aqui que reside o busílis da questão, as publicações usadas no caso da floresta da Amazónia foram de uma organização não governamental de ambiente (WWF) e não de natureza científica. O IPCC não procedeu bem, e sobre isso há uma nota pública a reconhecer que os procedimentos não foram aplicados de forma correcta.
Quantos cientistas trabalham para a instituição?
A instituição é uma rede de cientistas de todo o mundo. São 450 cientistas de 130 países servindo como autores líder (de textos dos relatórios), cerca de 800 servindo como autores com contribuições, e mais de 2.500 actuando como revisores, tendo gerado mais de 90.000 comentários de revisão no último relatório da organização, de 2007. E colaboram de forma voluntária, não paga, a que os procedimentos de produção e publicação científica não são estranhos.
Como funciona a investigação sobre o clima?
O trabalho do IPCC não é realizar investigação mas compilar e sistematizar resultados publicados da investigação, num quadro coerente e compreensível de transmissão de informação. Assim, e dando como exemplo a minha experiência pessoal, a escrita de um parágrafo é debatida, por vezes palavra a palavra, em grupo que reúne os autores líder do tema, os autores com contribuições, e o editor do capítulo respectivo, ou seja, todos têm de estar de acordo com a edição final. O editor tem a responsabilidade de validar o resultado final do seu capítulo, sendo um dos pontos mais críticos a existência de suporte científico em todas as afirmações que dele careçam. A edição dos relatórios do IPCC é um exercício ímpar no mundo e, como em tudo o que fazemos, não é um processo perfeito e cometem-se erros. E quando se comete erros só há um caminho a seguir: reconhecê-los e melhorar o processo para que sejam evitados.
O que acha das notícias sobre os erros sucessivos dos estudos do IPCC?
Uma apreciação global sobre a imprensa pública e publicada relativa aos "IPCCgates" leva-me a três conclusões. Primeiro, há uma reacção exagerada, empolgada e muito pouco ponderada sobre o teor dos mesmos, e que extravasa a (muito habitual) discussão científica entre pares, pelo que tal reacção não merece o crédito que, noutros termos, poderia merecer. Segundo, é saudável um escrutínio público do que a ciência e os cientistas fazem e publicam, e não deve haver lugar a qualquer quadro de conspiração, como por vezes é sugerido (aliás muito difícil com o número de pessoas envolvidas, como referido atrás). Terceiro, a enorme importância, política, económica e social, da informação sobre clima e alterações climáticas justifica que se equacione, por exemplo, pela Organização Meteorológica Mundial (parte integrante e fundadora do IPCC) tornar do domínio público toda a informação sobre o clima, retirando-a das fronteiras das universidades e dos grupos de investigação.
Estes problemas põem em causa a tese da existência de alterações climáticas?
Como refere o secretário de Estado britânico da Energia e Alterações Clilmáticas, Ed Miliband, seria errado que uma falha cometida possa ser usada para pôr em causa a imensa investigação e resultados publicados que afirmam as alterações climáticas como uma realidade, com origem nas actividades humanas.