20.º: "Mulholland Drive" (2001). Não é o melhor de David Lynch. O seu melhor filme é "Uma História Simples". Mas essa obra de 1999 não é "lynchiana". Aliás, é curioso verificar que Lynch fez o seu melhor filme quando deixou o seu universo habitual. Ora, "Mulholland Drive" é o melhor filme "lynchiano" de David Lynch. É a típica poesia negra de Lynch à solta. Não é para perceber. É para sentir.
19.º: "Munique" (2005). Através da reacção da Mossad aos ataques terroristas dos Jogos Olímpicos de Munique (1972), Spielberg reproduz o velho dilema da mente ocidental: "devo ser fiel à pátria, ou devo ser fiel à minha consciência?". Se formos fiéis à pátria, podemos cair na imoralidade. Se formos fiéis à consciência, podemos trair os "nossos". Um dilema para o qual não é saída. Um dos grandes filmes do pós-11 de Setembro.
18.º: "Inglourious Basterds" (2009). Não sou grande fã dos jogos pós-modernos de Tarantino. Mas ninguém fica indiferente a esta homenagem a um dos maiores cineastas de sempre: Sergio Leone. A soberba primeira sequência do filme é Leone vintage. O resto do filme é muito bom, apresentando um virtuosismo visual com marca registada. Mas fica sempre um sabor a "vazio" nos filmes de Tarantino: são belos, mas falta-lhes "substância" além da própria beleza.
17.º: "O Herói" (2002). Em termos de pura beleza visual, nada se compara a esta obra poética (e ultra romântica) de Yimou Zhang. Os combates voadores de kung-fu deixam-nos maravilhados. "O Herói" é um festim visual, típico nos cineastas asiáticos (filmes como "O Herói" foram sempre uma inspiração para Tarantino). Além disso, este filme mostra como o orgulho nacionalista está de regresso à cultura chinesa.
16.º: "Two Lovers" (2008). O realizador James Gray foi uma das grandes revelações da década. Neste filme, Gray apresenta não um triângulo, mas um quadrado amoroso: há o herói (Joaquin Phoenix, sempre fabuloso), a morena triste (a lindíssima Vinessa Shaw), a loira alegre (Gwyneth Paltrow, sempre chata) e o idiota (Elias Koteas, sempre competente). Qualquer ser humano com mais de dois neurónios já viveu pelo menos num dos vértices deste quadrado amoroso. E mais não digo.
15.º: "Zodiac" (2007). David Fincher fez aqui um filme desconcertante. "Zodiac" mostra a angústia da América dos anos 70, com o fantasma do Watergate, com o fantasma do Vietname, e com a chaga dos serial killers como o "Zodiac Killer". O filme é perturbante, porque mostra como o "mal" pode ficar impune, sobretudo numa sociedade feita de leis e regras. Essas regras existem para limitar a acção da polícia. Sem essas regras, viveríamos num estado policial. Mas, por vezes, essas regras permitem que o "mal" escape. É o preço a pagar pela liberdade. "Zodiac" é o anti-"Dirty Harry".
14.º: "A Guerra dos Mundos" (2005). Quando vi no cinema, não gostei. Não gostei, porque não percebi o filme. Quando revi em DVD, fiquei fascinado. É glorioso vermos um drama familiar a desenrolar-se dentro de um drama planetário. Naquele cenário faraónico, que pedia um "Ben-Hur" galáctico (era isso que queria quando vi no cinema), Spielberg, com uma pincelada íntima, desenha um pai a caminho da redenção. É preciso muita arte para conseguir juntar uma narrativa "espacial" e uma narrativa "pessoal". Entre ETs agressivos e máquinas terríveis, o que interessa é ver aquele pai a proteger os seus filhos.
13.º: "O Acontecimento" (2008). Este filme de terror de M. Night Shyamalan não teve a aceitação merecida. É, de facto, um filme difícil de ver. Na sala, muita gente saiu a meio. Mas "O Acontecimento" vai ser (já é) uma obra de "culto". É o filme sobre as nossas angústias irracionais. As nossas paranóias com a saúde e com o ambiente têm aqui uma súmula perfeita. E o Deus do Velho Testamento parece que está ali ao virar do último frame.
12.º: "A.I." (2001). Contra a pedanteria anti-Spielberg, o dito Spielberg continua a fazer grandes filmes. "A.I" é o filme mais comovente da década. Spielberg fez aqui uma fábula lindíssima, uma espécie de "Pinóquio" num ambiente de ficção científica. É ver, senhores. É ver. Sem preconceitos.
11.º: "In the Mood for Love" (2000). Confesso que tenho que relação de amor/ódio com Wong Kar-Wai: este cineasta asiático filma como ninguém, mas, por vezes, os seus filmes não têm nada lá dentro. Às vezes, os seus filmes são belas correntes de ar. Mas "In the Mood for Love" foge a esse destino. E há argumentos suficientes para considerar este filme o mais belo da década. A fotografia palpável, os enquadramentos sofisticados, o
slow motion cirúrgico, tudo concorre para a glória do génio formal de Kar-Wai.
10.º: "Master and Commander" (2003). Mais um grande filme que foi desprezado. É natural: esta obra de Peter Weir não fala dos dilemas dos intelectuais de Nova Iorque ou de Paris. Weir mostra, mais uma vez, que é um dos melhores a fazer reconstituições históricas. Neste filme, vemos as guerras napoleónicas no mar, e vemos ainda a emergência do espírito científico de Darwin. Este cruzamento histórico entre guerra e ciência é feito através da "estória" de amizade entre o capitão guerreiro e o médico cientista. Como é que duas pessoas tão diferentes podem ser amigas?
9.º: "Sinais" (2002). Mel Gibson, como realizador, fez um filme sobre a fé: "Paixão de Cristo" (um filme para um top 50). Mas é aqui, como actor, que Gibson melhor defende a causa da fé. Mais uma vez, uma invasão de ETs é o pretexto para uma reflexão pessoal. Em "Guerra dos Mundos", Spielberg aborda a redenção familiar. Em "Sinais", Shyamalan retrata um homem a reencontrar-se com a sua fé. Num mundo de Deus, não existem coincidências. O universo de Shyamalan é fascinante, porque este jovem realizador é um artista da fé e das crenças. Steiner deve gostar de Shyamalan.
8.º: "Haverá Sangue" (2007). Paul Thomas Anderson confirma-se como o maior cineasta americano da sua geração. Depois do épico intimista ("Magnólia", 1999), Anderson deixa aqui um épico tout court sobre a história americana do início do século XX. O historiador americano Walter Russell Mead escreveu um livro intitulado "God and Gold". E, de facto, Deus e a ambição capitalista definem bem a América. Ora, este filme retrata o embate entre os extremos dessas duas pulsões americanas: a ambição desmedida de um materialista (Daniel Day Lewis) versus a ambição desmedida de um demagogo religioso (Paul Dano, um "Day Lewis" em potência). "Haverá Sangue" é uma obra sobre o poder imenso do ódio. Lewis e Dano personificam o poder de fogo do ódio.
7.º: "Uma História de Violência" (2005). O melhor filme de David Cronenberg. Tal como David Lynch, Cronenberg fez o seu melhor filme quando saiu do seu habitual ambiente. Não vale a pena falar do enredo; mas vale a pena falar da "substância". Se "Haverá Sangue" é sobre o poder do ódio, "Uma História de Violência" é sobre o poder da redenção. Se Day Lewis personifica o ressentimento, Viggo Mortensen personifica aqui o desejo da redenção. E só há uma coisa mais poderosa do que um homem cheio de ódio, a saber: um homem na busca da sua redenção. Com este filme, Viggo Mortensen entra para a lenda. E não será exagerado dizer que Mortensen foi o grande actor da década.
6.º: "Inimigos Públicos" (2009). Michael Mann volta a reacender a chama do mestre Sam Peckinpah. E "Inimigos Públicos" é mais um grande filme a sair da parceria entre Michael Mann, realizador, e Dante Spinotti, director de fotografia. Dizer que Mann é um clássico e um duro é ficar pela metade. Sim, Mann é um clássico na narrativa e nos temas. Porém, através da câmara digital de Spinotti, Mann está a revolucionar a beleza plástica do cinema. Sim, Mann faz violentos westerns urbanos, mas no substrato dessa violência encontramos sempre um trágico romantismo. É obrigatório sentir uma lágrima a querer sair no final de "Inimigos Públicos".
5.º: "Nós Controlamos a Noite" (2007). "Abel e Caim" não veio do nada. Se o meu caro leitor tem um irmão, sabe bem do que estou a falar. É fácil dizer "gosto de ti, mana". Mas já não é assim com o mano. "Abel e Caim" não veio do nada. Um dos grandes filmes da década, "Nós Controlamos a Noite", aborda este amor de mau feitio que une dois irmãos. E o filme até nos oferece uma saída para esta Guerra-fria fraternal: o realizador, James Gray, colocou "Abel e Caim" de pernas para o ar. Nunca o desrespeito pelo argumento bíblico foi tão poderoso.
4.º: "Collateral" (2004). O universo de Michael Mann faz tangentes ao universo de Rubem Fonseca. Tal como o escritor brasileiro, Mann é um "biógrafo" das nossas cidades. Mann filma a violência, o crime, e, acima de tudo, a solidão das cidades pós-modernas. A solidão é tão grande que acaba por gerar indiferença. Um homem pode morrer no metro, que ninguém dá por isso.
3.º: "Cartas de Iwo Jima" (2006). Clint Eastwood filma a batalha de Iwo Jima a partir do ponto de vista japonês, com actores japoneses, com diálogos em japonês. Ao longo do filme, vemos a batalha através dos olhos do general mais poderoso (o portentoso Ken Watanabe) e através dos olhos do soldado mais humilde (Kazunami Ninomiya). O Japão inteiro chorou a ver este filme. Percebo os japoneses.
2.º: "25th Hour" (2002). Quando esquece o seu racismo invertido, Spike Lee é um dos maiores. "Última Hora" (título português) é o grande filme sobre a América pós-11 de Setembro. O famoso monólogo de Edward Norton é duplamente fabuloso. É fabuloso, porque vemos um dos melhores actores a todo o gás. É fabuloso, porque aquele monólogo representa um país inteiro, um país a expiar todos os seus pecados na hora da grande provação.
1.º: "Mystic River" (2003). Nesta década, Eastwood foi possuído pelo génio do mestre John Ford. Por isso, aceitar-se-ia que o top 5 fosse ocupado somente por filmes de Clint Eastwood: "Cartas de Iwo Jima", "A Troca", "Million Dollar Baby", "Gran Torino" e este "Mystic River". Neste filme, a sequência final é de antologia: Sean Penn chega a casa, coberto de pecado e morte; Laura Linney, a sua mulher, abraça-o, e com esse abraço enterra bem fundo o pecado do marido. Um filme que não apetece rever: é demasiado duro. Há um antes e um depois de "Mystic River". Para Clint Eastwood, e para nós.