Tal como os filhos dos informadores russos expulsos na semana passada, abandonados por força das circunstâncias, Robert Meeropol viu os pais (Ethel e Julius Rosenberg) serem presos, acusados de traição à pátria americana, e executados. Corria o ano de 1951, tinha ele apenas 3 anos."Não me recordo de imagens, mas do que senti na altura. Só queria estar sossegado no meu canto. Tinha medo que os adultos que levaram os meus pais voltassem para me vir buscar", recorda.Após a detenção, seguiu-se um ano e meio de visitas constantes à prisão. Os pais fingiam estar "muito felizes", mas ele não se apercebia da farsa, ao contrário de Michael, o irmão mais velho, que se revoltava constantemente."Lembro-me perfeitamente da nossa última visita, na véspera da execução. Já tinha quase seis anos. O meu irmão chorava compulsivamente e, cabisbaixo, murmurava: falta um dia, falta um dia..."
Os quatro anos que se seguiram após a morte dos pais marcaram-lhe a infância. Andou por casa de familiares, amigos, mas sempre que eram detectados pelos media, os vizinhos apercebiam-se de quem eles eram e exigiam que se fossem embora. "Eu e o meu irmão fomos expulsos da escola pública. Os pais dos outros alunos chamavam-nos nomes e diziam aos filhos que não os queriam ver a brincar com os amiguinhos comunistas".A sorte bateu-lhes à porta quando o advogado dos pais os apresentou ao casal Abel e Anne Meeropol, que se tornariam seus pais adoptivos. Abel era um famoso compositor, que contava no seu currículo com canções como "Strange Fruit", um poema inspirado na violência racial no sul dos EUA e que daria origem a um dos maiores sucessos musicais de Billie Holliday. "No meio de todo aquele drama tive a sorte de encontrá-los. Deram-me tudo, nomeadamente educação. É o que espero que aconteça a estas crianças".
Robert e Michael estudaram direito e enquanto o irmão mais velho tornou-se um famoso advogado nos EUA, ele começou a "missão de vida" aos 43 anos, quando iniciou o projecto "The Rosenberg Fund for Children" - organização que apoia menores, filhos de presos políticos nos EUA.
"Podem ser filhos de ambientalistas, Índios ou militares desertores das guerras do Iraque ou Afeganistão. Oferecemos-lhe apoio psicológico e monetário para o pagamento dos estudos".
Afastados dos filhos
Robert não sabe se algumas destas crianças alguma vez cruzarão o seu caminho, mas espera que as mais novas (dos oito filhos deixados para trás, seis são menores com idades compreendidas entre os 2 e os 17 anos) juntem-se aos seus pais em Moscovo.
Essa possibilidade, como verificou esta semana o Expresso junto dos advogados de alguns dos espiões, é remota. Até hoje apenas duas meninas, de dois e três anos de idade, terão chegado à capital russa. Os restantes, aparentemente, nunca farão tal viagem.
Os primeiros passos da nova vida de alguns destes menores serão contados amanhã na edição impressa do Expresso.