Em casa gostamos de ler os romances de Rodrigues dos Santos. É um bom romancista. Quanto a factualidades ou dados que queira documentar passo a acreditar, depois da entrevista que deu à Visão, que os seus conhecimentos sobre o Islão, a história, e a vida e obra do Profeta Muhammad, são infundados e distorcidos.
Tivesse conversado um pouco comigo e teria muito gosto em sugerir algumas obras e textos fundamentais para que percebesse mais qualquer coisa sobre o problema da leitura literal de textos biblicos, e da colagem directa a leituras parciais e enviesadas de um mundo tão vasto, diverso e plural como é o mundo muçulmano, e todas as suas comunidades interpretativas.
Reuven Firestone, por exemplo, tem uma obra interessantíssima: "Jihad The origins of the Holy War" - que deita abaixo de imediato teses parecidas com as do escritor- jornalista.
Sem querer simplificar o que é complexo, e merece leitura cuidada, Firestone argumenta que a razão para que o Alcorão tenha tantas passagens sobre a Jihad (lutar para se superar a si próprio na busca da fé), que é diferente de Harb (guerra) e qital (matar), é porque o Islão vem colocar em causa uma coesão de tipo tribal para defender uma ideologia da paridade, onde a fraternidade não é de sangue, mas de fé.
A razão porque faz tantos apelos à defesa da fé e dos crentes no islão, prende-se efectivamente, como diz Firestone, ao facto de os seus seguidores não conseguirem fugir à lógica tribal e matar os seus irmãos. Porque efectivamente, o Alcorão está cheio de passagens com apelos de paz, de pluralismo e de aceitação da diferença de crenças.
A ideia de Guerra Santa só surge muito mais tarde na historiografia ocidental europeia quando se estuda a Inquisição e as motivações dos Cruzados; antes, nem os muçulmanos, nem o Alcorão veiculavam esta ideia.
O desconhecimento que atravessa as intelectualidades europeias modernas, e que provoca inevitáveis choques de ignorâncias, é que nem os muçulmanos com quem JRS conversou sabem o que quer que seja da historicidade dos factos, nem ele fez o trabalho de casa.
Por um lado, a escola secular não ensina nada sobre o Islão e as suas sociedades; são sempre coisas que o muçulmano não precisa de aprender; e depois, convenhamos, um crente para ser crente, não tem de ser teólogo!
O que acho é que pelo menos os que tentam responder a pessoas como JRS deviam ler e estudar, deviam questionar e debater, para responder com rigor e coerência. E infelizmente, JRS só encontrou gente desta! Se quisesse de facto, conhecer e extrapolar para a realidade, tinha ido buscar outras fontes, mais informadas.
O fosso de conhecimento é tão grande para JRS como para os muçulmanos em geral. Mas pelo menos, estes últimos ainda não escrevem romances em Portugal. E se alguma vez o fizerem, espero que se deixem ficar por aí mesmo: pela ficção!
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*A Salaam significa paz