O Irão (sobre)vive num isolamento quase total em relação ao mundo que nos é familiar. A revolução Islâmica de 1979 conduziu o país a um segregação política que agravou o seu milenar isolamento.
Desde tempos imemoriais uma topografia agreste, uma língua praticamente desconhecida fora das suas fronteiras, um império e uma história de magnitude e esplendor desconhecido para a Europa são razões para a ruptura civilizacional.
Acresce ainda a todas estas dificuldades um calendário e hora distintos. O fuso horário encontra-se a três horas e meia de Lisboa e no calendário Iraniano comemora-se hoje, 20 de Março, pelas 05h48, a entrada do novo Ano de 1387.
Neste contexto de isolado do mundo, o Irão realizou, uma vez mais, no dia 14 de Março eleições para o seu Parlamento, que conduziram 44 milhões de eleitores às urnas com uma taxa de participação a rondar os sessenta por cento. Superaram-se os 51 por cento das eleições de 2004 o que foi saudado e assinalado pelo Ayatollah Ali Khamenei como uma profunda demonstração democrática do povo Iraniano.
Estas eleições foram consideradas como uma séria prova a governação do actual Presidente Ahmadinejad; uma vez que antecedem as Eleições Presidenciais de 2009 e decorreram num momento em que a inflação Iraniana está próxima dos vinte por cento ao ano e a pressão Internacional atingiu níveis muito elevados.
Numa leitura simplificada concorreram quatro forças, designadamente: o partido que suporta o actual Presidente Ahmadinejad; os conservadores moderados liderados por Larijani, anterior negociador do dossier nuclear, por Mohammad Baqer Qalibaf, Mayor de Teerão, e Mohsen Rezaie, anterior chefe do Corpo de Guarda da Revolução Islâmica e mais duas coligações: a coligação reformista inspirada no Presidente Khatami e o partido da Confiança Nacional de Mehdi Karrubi.
Os resultados não são de leitura fácil, tanto mais que existirá em diversas localidades uma segunda volta em Abril. Porém, parece claro que Ahmadinejad venceu as eleições, todavia existe um sentimento geral que o Presidente encontrará maiores obstáculos às suas políticas neste novo Parlamento.
Ao contrário do que acontece com as Primárias dos EUA, estas eleições passaram quase despercebidas da opinião pública, sendo contudo, igualmente importantes para o futuro do mundo. Internacionalmente qualificado como pertencente ao eixo do mal, o Irão infelizmente só ganha alinhamento noticioso quando entrada em rota de colisão com o Ocidente.
O desconhecimento poderá ser considerado o maior inimigo da paz. Devia ser óbvio para todos um velho ensinamento milenar presente no tratado militar a "Arte da Guerra", de Sun Tzu, a forma mais eficaz de acabar com um inimigo é transformá-lo num aliado.
Sendo assim, no rescaldo das eleições é celebrado o Chaharshanbeh Souri, antiga tradição Persa de festejo da última-quarta-feira do Ano, aproveito a ENTRADA DO NOVO ANO Iraniano para desejar que os resultados das futuras eleições Presidenciais, nos EUA e no Irão, desanuviem tensões Internacionais e permitam vislumbrar sinais de paz.
Pedro Sousa
Professor Universitário na FCT/UNL
e Director de Inovação da Holos