Todos os dias, ao almoço e ao jantar, a mãe lhes servia o mesmo: feijão com couves. Cansados de tanto feijão e de tanta couve, e seguindo os rumores de que "em Lisboa a vida é boa", os dois irmãos fugiram da aldeia e rumaram à capital.
Entrando num restaurante da Baixa e não querendo admitir que eram analfabetos, os dois irmãos apontaram ao acaso num menu repleto de diversificados e apetitosos pratos, quando encomendaram ao garçon.
Com os olhos a derreterem-se num enorme bife com batatas fritas com que se deliciava o comensal da mesa próxima, o coração caiu-lhes aos pés quando lhes pousaram na mesa uma enorme terrina cheia de feijão com couves, afinal o que tinham pedido!
Comeram tudo.
Nisto, o cliente do bife bate as palmas e exclama em voz alta: "Bis!"
"Vês mano, em Lisboa batem-se palmas, grita-se bis e trazem um bife!"
Batem também as palmas e gritam "Bis!" Aguardam, e... mais feijão com couves!
Os portugueses vão a votos para escolher quem lhes vai dar destino a uma boa parte do seu vencimento mensal, por via dos impostos, escolha essa que aparenta ser feita sobre as propostas políticas dos vários candidatos.
Porém, qual o grau de liberdade dos eleitos? Dada a actual orgânica da nossa economia - a situação orçamental, os compromissos face ao contingente de funcionários públicos, de desempregados, de reformados, de pobres a apoiar socialmente, a intocável política social do Estado, os compromissos assumidos nos contratos firmados ao nível, por exemplo, da saúde ou dos transportes, o serviço da dívida pública que, como às famílias, nos irá sufocar o orçamento assim que as taxas de juro retomem a subida -, em que medida há espaço para políticas públicas de investimentos de grande peso, absorvedores de meios escassos para apoio ao que resta ao tecido empresarial português?
Infelizmente, estou convencido de que não há margem para cumprir muitas das promessas que se fazem agora para os próximos quatro anos, nomeadamente as que respeitam ao investimento nas prometidas obras públicas.
Há quatro anos, depois de uma promessa de não mexer nos impostos, o eng. Sócrates quebrou-a quando calculou um défice orçamental de 6%, corrigindo depois, um ano antes destas eleições, com uma descida do IVA, um imposto sobre o consumo que tem pouco ou nenhum impacto nas condições de competitividade das empresas... Este ano, esse saldo ficará acima desse valor. O que nos espera?
No nosso menu podem aparecer muitas e apetitosas iguarias. Mas no final do dia seremos servidos com uma sopeira de feijão com couves. (E que elas não nos faltem!...)
João Duque
, *Professor Catedrático do ISEG