Neste romance, Cormac McCarthy cria um cenário apocalíptico. Uma desgraça bíblica obliterou a vida na terra. Estamos num Inverno nuclear. É tudo gelado e inóspito. Mas no meio desta brancura agreste aparece um homem. Um homem sem nome. É o último Adão, um Adão ao contrário, um Adão no apocalipse. Ao lado do homem, vemos um menino, também sem nome. É, se quiserem, o último anjo de um Deus foragido. Pela estrada, caminham em direcção à costa. Passam fome e frio. Fogem de bandos de canibais num espaço sem qualquer rasto de humanidade. Não há lei. Não há ética. Não há deus. Não é possível ter esperança neste mundo, mas ele, o homem, continua a lutar, continua a andar, continua a proteger o seu filho. O mais lógico seria pôr um ponto final no sofrimento de ambos, mas ele continua a resistir. Porquê? Para quê?
Deus deixou de existir. Foi vencido, e alguma coisa governa no seu lugar. Mas, mesmo assim, o homem continua a lutar como se Deus existisse. E é esta a força que nos arranca pela raiz ao longo do livro. É esta a força que nos deita abaixo. É esta a força que funciona como uma revelação para um pobre descrente como eu. Não importa se Deus existe ou não, porque o único deus que interessa é aquele que cada homem transporta dentro de si. E esse deus existe mesmo. Tem, aliás, vários nomes: 'amor', 'ternura', 'honra', 'direito natural', 'fé', e, claro, 'Deus'. Mas o nome não interessa. O que interessa é o significado que está escondido em todas essas palavras: existe um 'dever' situado acima da lógica e da história. É esse dever que nos salva desse Inverno nuclear interior que é o mundo sem consciência individual.
Sou agnóstico. Não consigo dar o salto da fé. Não consigo suspender-me e entrar no deserto que, uma vez atravessado, vai dar à fé. Mas isto não quer dizer que sou insensível à presença do 'dever'. Mesmo perante a morte de Deus há uma centelha sagrada que não se apaga. Mesmo na ausência de Deus eu sei que devemos reforçar a trincheira da bondade e fazer fogo sobre tudo o que ponha em causa essa mesma bondade. E o Natal, meus amigos, é o renovar anual dessa centelha. Haja ou não haja Deus. Aos 30 anos, precisei de ir até ao apocalipse para entender o Natal. Talvez aos 40 tenha a coragem para atravessar o deserto. Bom Natal.
Guillul
O dr. Soares diz que "os protestantes evangélicos são muito fanatizados". Ora, eu tenho aqui uma pessoa que gostava de apresentar ao dr. Soares. Chama-se Tiago Guillul, e é o músico português mais cool desde António Variações. Guillul já tem, pelo menos, um clássico da coolness: "Beijas como uma freira". Mas Tiago Guillul também é Tiago Cavaco, um pastor baptista. Ou seja, a pessoa que personifica o 'gajo fixe' é, ao mesmo tempo, um protestante evangélico, para quem a Bíblia é uma terra dura que só pode ser amanhada por mãos bem ásperas. Não é fanatismo. É fé. E cada homem tem direito à fé. Soares acredita no PS; Cavaco acredita em Deus. E, meus amigos, não sei qual deles é o mais fanático.
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009