José Sócrates é um cadáver adiado. Por causa da utilização de empresas no silenciamento de jornalistas, sim. Mas também pela saturação. São demasiados casos e todos com o mesmo padrão de falta de rigor ético e excesso de autoritarismo.
Sabendo isto, devemos olhar com cautela e atenção para as movimentações das próximas semanas. O Parlamento só poderá ser dissolvido no início de Abril, passados seis meses das eleições. E já não pode ser dissolvidos seis meses antes das eleições presidenciais. Ou seja, apenas num muito curto espaço de tempo a queda de José Sócrates poderia ser resolvida de forma mais ou menos natural, mesmo que estranha para um Governo acabado de ser eleito. E tudo isto acontece quando o PSD está em plena luta interna pela liderança.
É famosa a frase de Churchill quando um deputado estreante lhe perguntou se do outro lado do hemiciclo estavam os inimigos: "Não, ali estão os nossos adversários. Os inimigos sentam-se do nosso lado." Os cavaquistas já perceberam que não têm um homem do Presidente para bater o seu inimigo: Pedro Passos Coelho. É por isso fundamental para eles que a crise rebente antes que o ex-jotinha chegue à cadeira do poder. Caso isso aconteça todo o poder estará nas mãos de Cavaco Silva. Será ele a determinar não apenas que solução de Governo se encontra, mas também, com isso, o que acontecerá no PSD. Será dele a tutela do país e do seu partido.
Só isto explica que haja tanta gente no PSD a exigir que José Sócrates se demita quando o PSD nem alternativa de liderança tem. Porque querem dar esse papel a Cava Silva e assim evitar uma vitória de Passos Coelho, que ficará bem posicionado para ser o próximo primeiro-ministro.
O que move a indignação geral é a crise, a incompetência absoluta deste Governo e as tentativas de silenciar uma imprensa livre ou incómoda. Mas no PSD não estão a pensar no adversário. Estão mesmo a pensar no inimigo. Ali luta-se por poder a sério.
Ao país, interessa que José Sócrates se vá embora o mais depressa possível, mas para ser substituído através de uma escolha democrática. À parte do PSD que tem receio de ver fugir a sua oportunidade, o caos é a única coisa que pode colocar nas mãos do seu grande aliado em Belém todo o futuro do País e do PSD.