Os casamentos no Afeganistão são uma coisa séria. Séria e grande. Quando os actores das telenovelas indianas vêm a Cabul em tournée, é nos salões de casamentos que cantam para os seus milhares de fãs. Não há salas de concerto, mas os salões cumprem bem a função.
Tive uma conversa breve com Farid, que tem hoje 24 anos e está a menos de um mês de receber 650 convidados para a sua festa de noivado. Felizmente, Farid é filho de um bem sucedido comerciante de carros, capaz de pagar os 13 mil dólares que vai custar a celebração e que, no fundo, são apenas uma espécie de entrada para aquele que irá ser o grande e verdadeiro momento: a própria festa de casamento, que o noivo estima poder vir a custar 20 mil dólares, para 900 a mil convidados. O valor é ainda mais impressionante quando se sabe que o salário de um funcionário público no Afeganistão ronda os 70 dólares.
Mas Farid está genuinamente feliz e não parece preocupado com o dinheiro. Em poucos minutos, sem que eu lhe tivesse pedido, contou-me a sua história de amor, cheia de cornucópias e de esperança.
Andavam na escola, em Kabul, e Shardam era então uma menina de dez anos. Foi nessa primeira vez que a viu que Farid sentiu uma revolução copérnica e o seu mundo redondo passou a girar em torno dela. Por mais que girasse, Shardam estava sempre no meio.
Cresceram a trocar olhares na rua, e depois cumprimentos, e depois cartas formais e mais tarde, quando passaram a viver em bairros diferentes de Cabul, cartas sentidas. Estiveram sem se ver quatro anos, mas não desistiram de se escreverem.
Quando o pai de Farid lhe informou que planeava casá-lo com uma jovem de uma família abastada, ele abriu o coração. Na nossa conversa, Farid recordou as palavras decisivas que usou na altura: "O pai tem de entender. Eu só caso com Shardam, mais ninguém. Não me casarei com mais ninguém". O pai ficou impressionado e respeitou a decisão do filho.
Agora que namoram oficialmente há mais de um ano, eis que a festa de noivado está aí à porta. Todas as amigas de Shardam já devem ter encomendado os seus vestidos. É costume mandarem vi-los de fora, da Europa. Farid diz que quando se casarem, Shardam vai para a universidade, por que deseja tirar um curso e ele apoia-a nisso, apesar de não ser formado. Os seus planos de família são muito parecidos com os nossos, em Portugal: quer ter dois filhos, "não importa se não meninos ou meninas", e diz que nunca vai permitir que a sua mulher ande de cara tapada. "A nossa religião não fala disso, foi um hábito trazido há muitos séculos da Índia. Eu sou contra".
Farid também não vai ter mais do que uma mulher. "Devemos dedicar-nos àqueles que mais amamos. Há homens de negócios que se fartam da sua primeira mulher e acabam por casar com um segunda, mantendo a primeira, mas não é correcto".
E depois Farid quis saber: como é que na minha terra? Não demorei pouco tempo a responder a uma pergunta como esta.