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Professor e polícia

17:57 Sexta feira, 3 de fevereiro de 2012

A maioria que nos governa, e bem, quer equiparar o estatuto de professor ao de polícia. Nada mais oportuno depois da tareia que um docente apanhou de familiares de uma aluna que perturbava aula de Matemática e foi expulsa.

A Matemática perturba. Esta aluna do 5º ano, dela não precisa para nada. Treinada em atrapalhar, tinha o direito de reforçar aqui as suas competências. E o professor não deixou. Esteve mal. Recebeu tratamento no hospital. Um hospital está sempre mal localizado. Devia estar junto a cada escola.

O estatuto de professor-polícia, ou de polícia-professor (no caso de se pretender reforçar a componente pedagógica do papel da autoridade policial na aquisição de conhecimento), poderá resolver a questão da violência parental sobre a filharada, a parentela próxima, e sobre a classe docente, a parentela afastada.

Esta mudança de estatuto do professor, há muito que se impunha. Em boa hora, a maioria vai pô-la em prática. O que é necessário é não descurar a componente da formação do polícia que passará a viver em cada professor que, esperamos, se venha a apresentar devidamente fardado na esquadra, perdão, na escola.

Em primeiro lugar, a componente da acção psicológica. O futuro agente da autoridade terá de compreender que se não é bruto, para bruto deve evoluir. Imbuir-se deste espírito de corpo de intervenção é fundamental.

Luta corpo a corpo e toda a panóplia de artes marciais devem entrar nessa formação específica. Exercícios de tiro também. A progressão na carreira deve exigir, como pré-requisito essencial, carreira de tiro e gestão de paióis. Aprender a acertar em alvo humano, com cabecinha diminuta, deve ser basilar. A cabecinha destes petizes, com o amor à matemática e às outras disciplinas, tem tendência a mirrar. E só com mira telescópica se pode acertar no alvo. É que os professores, não raro, têm dificuldade em mirar alunos indisciplinados. Muitos não só os não vêem, como os não ouvem.

Os centros de novas portunidades que vão ser extintos - e que não fazem falta porque já temos oportunistas habilitados que cheguem - poderão ser, depois de adaptados, lugares muito interessantes para aprender a manejar o cassetete, a despoletar uma granada de mão, a redigir um auto de polícia. De autos, como é notório, os professores só conhecem o Fiat Punto.

Depois, é só chegar à sala de aula. Despejar a pistola engatilhada em cima da secretária. Mandar escrever o sumário de rajada. Esvaziar o tambor dos conhecimentos. Quem não ouviu, ouvisse. Uma descarga tonitruante, em voz de cabo de esquadra, é audível até em casa. Os pais dos meninos, assim, poderão adquirir muitos conhecimentos. Sim, porque um progenitor bem formado, musculado, treinado em sopapo e biqueirada, faz sempre falta para animar reuniões com encarregados de educação. 

Ensinar um pai, também, a lidar com um professor não é fácil. Embora gente educada, e bons educadores dos filhos, alguns vão confundindo um docente com um saco de kickboxing. Mas o docente, que não enche completamente o saco, deve estar preparado para reagir. Sim. Só os professores de Química conhecem reacções apropriadas. Outros deprimem à falta de pior reacção. 

Este estatuto de polícia, com que os professores vão ser agraciados, vai permitir, em tempo de crise severa, extinguir a "Escola Segura" e poupar muitos milhões de euros em passeios diletantes de escola em escola que polícias, que não apreciam andar a pé, fazem. Depois, é só mudar a nomenclatura da carreira docente. Na sala de aula o aluno terá de aprender a chamar ao professor "nosso praça"; o director de turma pode ter o honorífico cargo de "cabo de esquadra"; o director da escola, "senhor comissário".

E, assim que surja qualquer dúvida, na matéria, chamem a polícia... 

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Ao Deus dará na escola

José A. Quaresma (www.expresso.pt)
13:00 Sexta feira, 13 de janeiro de 2012

Todos os professores e funcionários da Escola Básica de Matosinhos foram cantar as Janeiras ao presidente da câmara. Bem afinados, deixaram sozinhas na escola as crianças cujos pais não autorizaram a participação na iniciativa.

A situação foi relatada ao Correio da Manhã por Vítor Maganinho. Este pai de uma maganinha de 6 anos soube por uma amiga que a filha estava muito assustada, quase em pânico, no átrio da escola.

Não se justifica a atitude de medo ou pânico, de uma criança, por ser deixada ao abandono. Qualquer aluno, com a ancestral sabedoria que se tem aos 6 ou 9 anos de idade, tem consciência que, com professores e auxiliares educativos deste gabarito, mais vale só do que bem acompanhado. Ao Deus dará, na escola, beneficia da infinita protecção do Senhor de Matosinhos.

Os docentes também sabem, melhor do que ninguém, que a prática pedagógica do abandono, selecto e selectivo, favorece a autonomia e o crescimento harmonioso da criança. E mais ainda quando se trata de um preito de homenagem ao sucessor do desejado Narciso.

Esta tradição de cantar as Janeiras, ao presidente da República e ao primeiro-ministro, tem naturalmente muito mais valor do que a um presidente de câmara ou de junta de freguesia.

O presidente da República e o primeiro-ministro gostam de dar música aos governados. Como somos um povo dócil e cortês, também gostamos de retribuir música a quem nos dá música. Como não temos arte nem engenho para a grande música, damos o que temos. Umas Janeiras, ainda que fora do tom, são sempre de bom-tom.

Só é pena que os pais daquelas crianças abandonadas não entendam a mensagem patriótica das Janeiras, que no fundo se destinam a aproveitar as sobras das festas natalícias e a desejar um feliz ano novo. Os obstinados não entenderam que o ano novo vai ser muito feliz. E não deixaram sequer que os seus filhos ensaiassem uns vocalizes frente ao autarca de Matosinhos que não vai ter responsabilidade nenhuma na felicidade prometida, pelo governo, ao seu rebanho.

E, ainda por cima, se queixam levianamente de que qualquer pessoa "podia entrar na escola e levar as crianças", porque não havia nenhum funcionário a controlar a entrada. E qual seria o problema? Em tempos de farnel e lancheira, de cinto apertado, aparecer menos uma boquinha para jantar é uma bênção. Vejam só o que a mãe do Rui Pedro tem poupado em refeições, ao longo destes anos. Por aqui também se compreende a razão pela qual o ministério de Educação deve 60 milhões de euros de refeições às autarquias., certamente para não fomentar, e bem, a obesidade infantil. 

Por mim, propunha já um louvor e passaporte diplomático aos docentes e funcionários da escola básica de Matosinhos. Já podem emigrar à vontade que não fazem falta. Os alunos, por mais pequenos que sejam, não precisam de nenhum cota a estorvar o bom ambiente das escolas. Vamos cantar as Janeiras. Por esses quintais adentro... de Belém a S. Bento, passando por Matosinhos, carago!

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Expatriar professores e outros indigentes

José A. Quaresma (www.expresso.pt)
15:21 Sexta feira, 23 de dezembro de 2011

Em Portugal há professores a mais. E muita outra morraça de gente que não desampara a loja.

O primeiro-ministro, o ministro Relvas, o secretário da Juventude, incitam, em uníssono, estes portugueses excedentários a abandonarem o sítio. Até sugerem os lugares mais convenientes para o exílio como Angola, Moçambique, Brasil. Tanta munificência nunca mais se vira desde o patriótico clamor de Salazar, em 1961, "Para Angola e em força, já".

O eurodeputado Paulo Rangel quer criar uma agência que ajude os portugueses a darem o salto. Só ele sabe o que sofreu por ter perdido a putativa liderança do PSD para Passos. Coagido a abandonar a zona de conforto da sua paróquia lá teve de seguir para o parlamento europeu, um lugar de opróbrio e miséria, no coração da Europa em dissolução. Teve de embarcar em Santa Apolónia, vergado ao peso da sua valise de carton Louis Vuitton, com uma lágrima no canto do olho.

Estes governantes vão salvar a pátria agonizante. Preocupam-se com a situação dos portugueses que, diga-se em abono da verdade, nenhuma falta fazem aqui neste lugar mal frequentado. Não proclamam como hipocritamente o Duque de Palmela: "temos de nos habituar a viver com os portugueses que temos porque não temos outros". Estimulam angolanos, moçambicanos e brasileiros a aturarem-nos nas suas próprias terras.

Há professores a mais, alunos a mais, atletas a mais. E, estranhamente, portugueses a menos.

Dos portugueses sabemos por que são poucos. Não trepidam o suficiente. Têm a líbido em baixa, coitados, apesar dos apoios excepcionais que o Estado concede à natalidade.

Os atletas não têm de obter os mínimos para os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, para sacar ao Estado 500 euros para a sua preparação. O Comité Olímpico, e bem, cortou-lhes as vazas. Vão treinar para a Guiné-Bissau que é terra boa para transpirar. Não é ir para Londres passar 15 dias e regressar. Isso não é emigração, é turismo de luxo.

Qualquer professor pode e deve exercer as suas competências nos PALOP´S. Não interessa se o Estado gastou balúrdios na formação das suas competências no ensino básico, secundário e superior - a esmagadora maioria no ensino público. Esse capital despiciendo não é para valorizar no rectangulozinho pátrio. Longe, dando corpo à nossa histórica vocação universalista, é que o docente está bem para não feder. E ainda pode mandar umas divisas para encher os depauperados cofres do sistema bancário.

O primeiro-ministro, forçado eleitoralmente a abandonar sucessivas zonas de conforto de administrador da Fomentinvest, da Ribtejo e da HLC Tejo, de professor do Instituto Superior de Ciências Educativas, dão o exemplo maior de que homem que não sabe fazer nada pode estar abalizado para gerir e ensinar. Ainda que formado serodiamente, aos trinta e sete anos, na prestigiada universidade de Oxford, perdão, Lusíada, uma universidade menos independente do que a do seu antecessor. Como é moiro de trabalho, é possível que tenha feito alguns exames no dia que já está a mais no calendário, o Domingo. Depois emigrou contrafeito, de Massamá para S. Bento, para nos aliviar os bolsos e rebentar com quimeras.

Apesar da minha provecta idade, vou seguir o conselho da equipa governativa, chefiada por este primeiro-ministro. Homem de muitos passos emigrou para Angola em petiz. Retornou já a esboçar buço. Andou expatriado nos bidonvilles, em condomínio fechado, da juventude social-democrata, e em empregos precários onde suou as estopinhas. É um intrépido e calejado emigrante. Siga-se o seu patriótico exemplo.

Se tiver saúde, conto partir brevemente, para o enclave de Cabinda. Enclave por enclave, prefiro este ao do meu país. Estou a ficar completamente enclavado nesta voragem de empobrecimento, à força, da pequerrucha classe média a que pertenço.

Se a saúde me não sorrir, terei forçosamente de emigrar para um T zero afundado, no cemitério da minha paróquia, onde poderei receber as vossas visitas no dia de Todos-os-Santos, se o feriado ainda existir.

Seja como for, creiam-me solidário com as políticas do governo franco-alemão, perdão, português, em gestão. Estou pronto para dar o corpo ao manifesto sacrossanto da dívida soberana. Já estou de malas aviadas. Adieu, Auf wiedersehen.

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Subtracção por esticão

José Albherto Quaresma
16:47 Quinta feira, 17 de novembro de 2011

Felizmente que o governo da República apenas se preocupa em fazer subtracções e adições por esticão. Saca dos subsídios de Natal e de férias. Aumenta o IVA, o IRS, os transportes...  

O Ministério da Finaeducação, da dupla Gaspar-Crato, vai cortar 30 milhões de euros na educação especial e quase 7 milhões na acção social escolar.

É uma boa medida, reveladora da grande sensibilidade social deste executivo. Há que cortar onde é possível e acrescentar onde não é impossível.

Até seria exequível cortar muito mais nos apoios das crianças com necessidades educativas especiais e das que recebem acção social escolar, transferindo directamente essas verbas para o recrutamento de agentes da PSP e da GNR. Os previstos mil agentes vão ser poucos para necessidades futuras.

Esta política de cortes é de elementar justiça e bom senso. As crianças não têm de ter necessidades. Muito menos educativas. E especiais por quê? Estas crianças nasceram saudáveis. Se não fazem a escolaridade como as outras é porque andam a fazer ronha. Se os pais as não podem ter em casa que as metam na rua. Estas crianças, que têm elevado grau de autonomia, podem perfeitamente ir para a escadaria da estação do Rossio e estender a mãozinha à caridade pública a que, na realidade, é esmolazinha privada.

Os alunos, que são comparticipados pela acção social escolar, também não têm de ser alimentadas pela teta gorda do Estado. Em vez de andarem a perder tempo na escola, podem perfeitamente receber educação intensiva no Casal de S. Brás, no Feijó ou na Caparica, em subtracções por esticão, adições por seringa ou divisões com balança de precisão.

Isto tudo com a vantagem de os futuros agentes da autoridade poderem treinar a sua formação em cenários reais, para interromper o ciclo de crescimento exponencial do crime violento. E ajudarem a transformar o nosso país num verdadeiro estado policial em paz. Sempre é melhor ver polícias na rua do que jovens endemoninhados nas salas de aulas, nos autocarros da Carris, nos comboios da linha.

Felizmente que o governo da República não pratica nenhuma das daquelas modalidades da educação intensiva. Apenas se preocupa em fazer subtracções e adições por esticão. Saca dos subsídios de Natal e de férias. Aumenta o IVA, o IRS, os transportes e o mais que lhe aprouver.

Quando estivermos, como nos anos 50 do século passado, a vaguear aos milhares pelas ruas das cidades do país, andrajosos, de pé descalço e de mão sebenta estendida, só aí seremos verdadeiramente bem-aventurados.

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Ministério das Educanças

17:46 Quinta feira, 20 de outubro de 2011

O ministério da Educação já é só das Finanças. Para racionalizar recursos e atalhar despesas só basta fundi-los. Os professores já estão fundidos. Não se perde nada. Constituía-se apenas um. O Ministério das Educanças. 

O futuro de cada um dos cerca de vinte mil professores apresenta-se negro. Negro da cor do contratado. Tal como o café no poema de António Jacinto, musicado por Rui Mingas. No próximo ano lectivo o Ministério da Educação e Ciência vai pôr no desemprego este número de contratados.

 Deixarão de ser professores para engrossarem os números do instituto do desemprego. Já sabíamos que o ministro era especialista em números. Ignorávamos que cientificamente evoluísse tanto que viesse a considerar um vasto conjunto de professores apenas um número.

Os, ora encavacados, admiradores do governo dizem que não é Crato que considera. É Gaspar. Eu digo. São os dois. E seguem o Passos, perdão, os passos do presidente do Conselho.

O Ministério, inscreveu, na proposta do Orçamento para 2012, a diminuição de 600 milhões de euros. Destes, segundo o Diário Económico, 102 milhões serão poupados suprimindo aquele número de contratados que só empacham.

Bem feito. E não é preciso ter competência contabilista para o conseguir. Basta ter sensibilidade social. Então não é melhor colocar vinte mil professores em casa a deprimir, à espera do subsídio de desemprego, se a ele tiverem direito, do que tê-los na escola a aturar os filhos dos outros, do ensino básico, em actividades desportivas, de enriquecimento curricular, de apoios educativos, etc? Daqueles mesmo que delas não precisam porque já nascem ensinados e são todos jovens de sucesso?

Eu concordo com esta "supressão de ofertas não essenciais no ensino básico", assim mesmo como reza o texto justificativo do corte dos 102 milhões de euros.  

E explico. Se são "ofertas", não se justificam. Não estamos em tempo de oferecer nada a ninguém. Se são "não essenciais", é essencial ir à essência das coisas e compreender que nem a educação nem os professores, que pertencem à classe média, fazem falta alguma à pátria. Atrofie-se pois a Educação e proletarize-se a classe docente. Pobrezinhos e amargurados, somos mais lindos. E, já que estamos perante o "ensino básico" que, de tão básico que é, se fosse extinto perdia-se alguma coisa? Não. Poupava-se muito mais de 600 milhões de euros... E sempre os podíamos chamar, em vez de pobres docentes, docentes pobres.

O ministério da Educação já é só das Finanças. Para racionalizar recursos e atalhar despesas só basta fundi-los. Os professores já estão fundidos. Não se perde nada. Constituía-se apenas um. O Ministério das Educanças. Ou Ministério da Finaeducação. É mais selecto. Mas deixo ao critério do ministro, que ficar a governar, a escolha.

 Os grandes especialistas das contas, estão a ir muito mais ao fundo do que o Fundo. Não tardarão a meter-nos no fundo.

A maioria já só sabe fazer contas de subtrair. Subtrair e trair todas as promessas eleitorais. A mais não é obrigada e, sabe-se lá até quando. Mil anos? É meta realista. O mais açougueiro governo da democracia portuguesa deve ter ambições fortes, com autoridade e, se possível, muito autoritárias.

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Desculpas de mau pagador

18:17 Quinta feira, 29 de setembro de 2011

O ministro da Educação e Ciência chama-se Vítor Gaspar. Nuno Crato é apenas chefe do protocolo do Ministério, com o pelouro da Excelência e do Mérito, blá, blá. Se assim não é, parece.

Cerca de mil alunos do Ensino Secundário estavam ansiosos por receber o merecido prémio, pelo esforço individual desenvolvido no ano lectivo transacto. Alguns já tinham sido informados, pelas direcções regionais da Educação, da data e do local da entrega do prémio.

A pouco dias da sua realização o Ministério cancelou a cerimónia. Já não há nada para ninguém. Nenhum aluno premiado vai receber o que lhe foi apalavrado. Há apenas um vaga promessa, do protocolo do Ministério da Educação, de que os 500 euros de cada aluno "sejam atribuídos a projectos de escola, a projectos de apoio aos alunos e não devemos simplesmente estar a distribuir dinheiro". É uma desculpa de mau pagador. Um péssimo acto deseducativo do ministério da Educação. Um puro gesto de sonsice política populista. O défice agora serve para tudo.

Esta declaração salpica um eminente professor, por quem tenho a maior estima pessoal. Nuno Crato habituou-nos, através de milhões de caracteres, muitos deles em páginas aqui mesmo ao lado, no Expresso, a defender o conhecimento, a excelência, o mérito, o trabalho, o rigor, blá, blá, que são na essência decorrentes de um esforço individual. Nada justifica que um jovem, à bica de uma carreira universitária brilhante, a quem foi prometido um prémio pelo seu esforço, notável e continuado, seja dele desapossado. É a pior das mensagens educativas vinda do protocolo da Educação.

A Ordem dos Médicos, que não é inocente quando refreia a entrada em Medicina de centenas de excelentes estudantes, já se disponibilizou para dar a 10 alunos o que o Ministério não quer pagar. A cínica oferta da Ordem tem como contraponto os milhares de alunos de mérito que são empurrados para Espanha, para a República Checa, ou para cursos de Enfermagem ou Biologia e outros, em Portugal. Quem os não conheça que os compre.

Tenho pouco a ver com o assunto. Não tenho filhos, nem netos, a quem acenaram promessas que se revelaram nesciamente vãs. Mas sinto-me envergonhado. E apetece-me citar o escritor norte-americano, Joseph Heller, no romance "Catch 22", de 1961: "Alguns homens nascem medíocres, alguns conseguem elevar-se à mediocridade e a outros o destino impõe a mediocridade".

Nuno Crato não nasceu, nem conseguiu elevar-se à mediocridade. Pelo contrário. O que os seus amigos desejam é que contrarie, com coragem, o que este destino provisório lhe tenta impor.

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CLASSE DO(C)ENTE

10:38 Terça feira, 27 de setembro de 2011

A classe docente está doente. Foram atestadas, por médicos em ordem, mais de 70 mil doenças a professores, entre Outubro de 2010 e Janeiro deste ano. O Diário de Notícias andou à coca de professores doentes.

A classe docente está doente. Foram atestadas, por médicos em ordem, mais de 70 mil doenças a professores, entre Outubro de 2010 e Janeiro deste ano. O Diário de Notícias andou à coca de professores doentes. Estavam a convalescer em casa ou em ambientes mais esterilizados.

Esta verdadeira epidemia, que grassa, corresponde a cerca de quinhentos e catorze mil dias de baixa. Devia ser atalhada antes que se transforme em pandemia.

Só uma médica, de licença prolongada, assinou à sua conta, 413 baixas. É muita tinta gasta. Mas é deontologicamente irrepreensível. Se a médica estava de licença, teve mais tempo para descobrir doenças nos doentes, perdão, nos docentes, e assinar os competentes atestados. Seria perigoso que estes 413 docentes, com viroses, enxaquecas, dores menstruais, eventualmente infestados de vírus, bactérias e fungos, estivessem em contacto com alunos, colegas, administrativos, contagiando toda a comunidade escolar.

Um docente de Matemática consegue explicar como é que se metem mais de quinhentos mil dias em escassos três meses. É para isso que servem as explicações. Estas também ajudam, através do ensino recorrente, um aluno a subir a nota e entrar em Medicina. E chegar, um dia, a passar muitos atestados.

A profissão docente é contagiante. Talvez por esta razão o ministério tenha deixado às portas das escolas mais de 30 mil docentes. E, não se pense que ficaram a fumar fora do recinto escolar. Não. Fumar mata.

Porque a docência é contagiante, também, o Ministério desencantou uns contratos mensais. É uma medida profiláctica. Docente, que passe apenas um mês na escola, tem menos probabilidades de contagiar. Normalmente o docente anda a estagiar para contagiar.

Há quem pense que o Ministério congelou as carreiras para tratar da saúde aos docentes. Não é verdade. A congelação não cura. A criogenia é uma técnica que permite conservar o corpo, docente, até ser descoberta a cura para a doença. Assim o professor fica ali, sossegadinho, enregeladinho, não chateia. Pode conservar-se dezenas de anos nesta situação. Sem progressão da carreira, perdão, da doença. Mas se tiver sorte pode até morrer congelado. Sai mais barato ao orçamento. É abatido ao efectivo. Um professor efectivo, abatido ao efectivo, é sempre uma alegria para o sibilino ministro Gaspar.

Toda esta situação epidémica foi uma alcinha preparada pela ministra Alçada. Antes de voltar a uma aventura... com Rui Vilar. Quis saber por que havia tantos doentes entre os professores. Há muito que deixara de viver uma aventura na sala de aula e não compreendia, ela  que nunca estivera sob a alçada de um atestado.

Alçada e Crato não se apercebem que doente, mesmo doente, está a esmagadora maioria dos docentes que nunca falta, que se empenha todos os dias, que atura os filhos dos outros, a indisciplina, o desrespeito, o insucesso germinado no berço, a preencher resmas de relatórios e mais relatórios e, ainda por cima, sujeito a quotas, como qualquer verdadeiro cota.

Estes é que são os verdadeiros docentes, perdão, doentes do foro psiquiátrico. Internem-nos. Antes que comecem a fazer figurinhas na escola e nas ruas.

RICO E BONITO

17:08 Sexta feira, 16 de setembro de 2011

O rapaz acha-se rico, bonito e um grande jogador. E que, por isto, as pessoas têm inveja dele. O rapaz tem-se em boa conta. A boa conta, bancária, ninguém duvida. O que ganhou no "naite", como diria o bom Jesus...

O rapaz acha-se rico, bonito e um grande jogador. E que, por isto, as pessoas têm inveja dele. O rapaz tem-se em boa conta.

A boa conta, bancária, ninguém duvida. O que ganhou no "naite", como diria o bom Jesus, o que aufere no Real Madrid e mais os trocados avultados da Armani, da Castrol, a bênção do Espírito Santo (o banco), o brilho dos coiros da Nike, o lenitivo da Time Force, mais o champô Clear, que lhe desoleifica o cabelo, fazem dele um bom partido.

O "bonito", há gente mais competente do que ele para juízo em casa própria. Bipasha, Merche, Gemma (estou a ouvi-lo com sotaque ilhéu a cochichar: "Ó Athkinson, não Gemma!), Irina, Paris Hilton, ou mesmo qualquer vistosa acompanhante de luxo, devem ser mais sofisticadas no piropo.

Grande jogador é, sem dúvida. O rapaz tem os joanetes no sítio e, quando enrosca virtuoso a chuteira, põe qualquer defesa a tremelicar. E o "bonito" transmuta-se no Frankeinstein dos guarda-redes. Até a cabeça, se não pensa profundo, pelo menos colide lesta e coriácea com o esférico até ao tresmalhar das redes entre os postes.

Uma amiga minha diz que ele tem mais corpinho de estivador do que de "top model". Ela lá sabe. Mas não é difícil condescender que o rapaz é uma estampa. Um verdadeiro cromo. O número 1 da caderneta.

Admito que a inveja, que possam dele ter, faísque nos olhos das multidões. Vindo do nada, tem de mais. Para quem nada tem, e dificilmente passará da cepa torta, talento, riqueza, mulherio, fama, são as balas da frustração.

Eu não tenho inveja. Tenho pena. Não dele, evidentemente, que não precisa, nem merece.

Tenho pena das centenas de milhares de jovens, do nosso país, que acreditam que o caminho do sucesso individual é feito de passes de mágica e de fintas mirabolantes. E não de formação adequada, baseada na atenção, trabalho, esforço, treino, paciência, método, concentração, perseverança, sacrifício.

O "bonito" juntou, a isto tudo, talento e sorte. Descontando a fanfarronice e a jactância, chegou onde chegou por mérito próprio. E também do seu pai e, sobretudo, dos treinadores que acreditaram e o orientaram.

Portugal chegou ao segundo lugar no campeonato do mundo de futebol, no escalão dos sub-20. Está em 8º lugar no ranking da FIFA. É notável para um pequeno país.Tenho pena que a Educação não entenda as boas práticas pedagógicas que o futebol também pode ensinar. Sem trabalho árduo não se vai longe.

Se o entendessem, muitos dos nossos jovens poderiam também ser mais bonitos por dentro e, eventualmente, mais felizes, ainda que não fossem bons jogadores. Ficávamos todos mais ricos. É claro que praticando na vida, sempre, jogo limpo.

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Chamar pai a outro

12:15 Terça feira, 13 de setembro de 2011

A falta de controlo na procriação artificial pode levar a que o mesmo lotezinho níveo, conservado dezenas de anos, sirva para conceber centenas de irmãos, filhos e netos uns dos outros, numa endogamia, que não sendo tão abjecta como a de um conhecido austríaco, não deixa de ser inquietante.

Um dador de esperma americano é pai de 150 filhos. Pelo menos. A descoberta foi feita por Cynthia Daily, uma assistente social de Washington, que viu a irmandade do seu rebento exponencialmente alargada.

Cynthia Daily, como o seu próprio apelido indica, preocupava-se diariamente em saber onde andavam os irmãos do seu filho, concebido por inseminação artificial. Para o efeito criou um grupo on line. Destapou, não uma caixinha de Pandora, mas um mega-contentor, onde despontam alegremente 150 criancinhas das mais variadas idades. Muitas mais devem vir a caminho.

Daily descobriu o imaginável. Que os irmãos do seu filho tinham o mesmo pai anónimo, especialista em concepção manual através de remuneração adequada. Na hipertecnológica América a actividade manual, no recato do WC de uma clínica, pode proporcionar rendimentos muito reprodutivos.

Daily, com um notável sentido de família, quis juntar os irmãozinhos para se conhecerem. Participou em viagens de férias com a família dos meios-irmãos, para se encontrar com eles, e verificou que eram iguaizinhos. Pudera. Saíam ao pai.

O pai, o dador, salvo seja - porque o homem não doou nada a ninguém -, traficou e bem a sua nívea mercadoria, supurada num copinho de plástico asséptico, despreocupado com a descendência.

Se Obama fosse, mandava a clínica revelar o nome do prolífico pai de todos. E solicitava a  Cynthia Daily que organizasse ceias de Natal com o progenitor do seu filho e a restante filharada dele. O homem, que deve ter mãos largas, pelo menos uma delas, devia ser coagido a dar todos os anos as respectivas prendas de Natal à ninhada e pagar a respectiva pensão de alimentos. Desconfio que não lhe chegavam os réditos para contentar os petizes.

Eu, que julgo ser pai de dois filhos concebidos por métodos muito avançados, não manuais, tenho dificuldade em compreender certas coisas.

Se os meus filhos não tivessem nascido eles não desconfiavam de nada e não seriam infelizes. E, se eu não tivesse sido despejado na terra vítima de alguma interrupção involuntária, não sabia dos putativos problemas das Cynthias deste mundo, e de Portugal, onde este negócio já prospera há mais 15 anos.

Também pode não ser um drama não ter filhos. Como o não era há 30 anos. E ainda o não é para muitos casais deste tempo.

Mas se o extraordinário avanço da ciência permite que casais, menos afortunados biologicamente, e que ardentemente desejem um filho o possam ter, ainda bem. Mas com conta, peso e medida. E, já agora, sabendo ao que vão. E que parentes iguaizinhos podem encontrar numa qualquer esquina do tempo.

A falta de controlo e de regulamentação na procriação artificial pode levar a que o mesmo lotezinho níveo, conservado dezenas de anos, sirva para conceber centenas, ou milhares, de irmãos que são filhos e netos uns dos outros, numa endogamia, que não sendo tão abjecta como a do austríaco Joseph Fritzl, não deixa de ser alarmante.

O incesto, pelo facto de ser ignorado, não deixa de ser incesto. E, para além disso, o aproveitamento comercial dos lotes dos melhores "dadores", que as clínicas rentabilizam à exaustão para obter maiores lucros, pode levar à transmissão de doenças genéticas indesejáveis. Mas que interessa isto se o segredo é a alma do negócio?

São os sinais dos tempos. Estas 150 criancinhas, como muitas outras, habituam-se a chamar pai a outro. É a menor das dificuldades.  

Há muito pai biológico que se não recomenda. E aquele que é apenas um número num catálogo, embora tenha rosto, sexo e mão, não é seguramente o pior. Ausente, anónimo, em tempos pulverizado em lamelas congeladas, é melhor do que nada.

Barriga forever

19:10 Quinta feira, 8 de setembro de 2011

Nunca cheguei a estar grávido. Mas fui dos primeiros homens do sexo masculino a gozar licença de parto em Portugal. Sem dor. Quinze anos depois do nascimento da Laura é altura de perpetuar a minha barriga. Em pladur de marca, bronze ou metal nobre. Barriga4ever.

Esculturas de barrigas de quase nove meses, criadas em ateliers, são recordações da gravidez procuradas cada vez mais por futuras mamãs. E não são barrigas de aluguer. São compradas, mesmo.

Segundo o jornal Público, Carla Moninhas, grávida de gémeos, queria o molde da barriga para fazer um candeeiro em tons de azul e rosa com o nome dos filhos. No atelier da "Baby4ever", em Almada, mudou de ideias. Agora o candeeiro será preto, com purpurinas prateadas, para deprimir os moninhos quando nascerem.

Ainda assim, gosto da ideia. A minha barriga perfila-se bem. Há muito mais de nove meses. Adorna-me o tronco gentil. Não tem a estética de um barriga de grávida, com um piercing de cristal de Alcobaça a cintilar no umbigo. Mas tem estatuto. E, sobretudo, indicia uma qualidade adiposa de vida que o invejoso, sumido e meloso, Vítor Gaspar quer agora pôr em causa.

Nunca cheguei a estar grávido. Mas fui dos primeiros homens do sexo masculino a gozar licença de parto em Portugal. Sem dor. Quinze anos depois do nascimento da Laura é altura de perpetuar a minha barriga. Em pladur de marca, fibra de vidro, bronze ou metal nobre. Barriga4ever.

Também mereço. Antes que os reis magos venham entregar os inevitáveis presentes de Natal, oiro, incenso e mirra, ao menino Jesus que vive em mim. Sim. Um homem, por vida mais faustosa e longeva que tenha, mesmo com a elevada cotação do ouro, acaba num velório a cheirar a incenso. E mirra mesmo, se chegar a velho.

A minha barriga transformada em candeeiro pode não ter a nobreza da pança da Carla Moninhas. Mas há um problema. O molde demora 30 minutos a confeccionar. Deve ser feito entre a 32ª e a 37ª semanas, altura em que a barriga está maior e mais lisa. E onde é já lá vão as minhas trinta e tal semanas?

Não consigo repor-me nesse tempo para ter as condições ideais para transformar o bandulho em obra de arte. Mas vou tentar. Esta deve ter o seu interior em fibra de vidro, transmutando uma coisa flácida em peça inflexível e inquebrável. Inflexível sou muitas vezes. Mas inquebrável nem por isso. Sou mais de quebrar e torcer.

Também vou aperaltar-me para acrescentar outros detalhes à obra de arte. As minhas mãozinhas sapudas, o meu pernil avantajado, uns ombros de "downmodel", umas plumas de cisne, já que começo a balbuciar o seu canto. E o meu nome inscrito, sobre um ameaço de epitáfio, inspirado em Bocage: "...Comeu, bebeu, f..., sem ter dinheiro".

A eternidade da minha barriga por cerca de 200 euros? É uma pechincha! Atendendo ao que ela devorou ao longo de uma famélica existência. 

Vou já entrar em treinos para recuperar a curva simulada da 37ª semana. Sandes de courato, secretos de porco branco, hamburguers ainda não devidamente taxados, e muita vinhaça de "bag in box" que sempre fica mais em conta.

Dirão que vou ter o rei na barriga. Falso. Sou republicano. Quero apenas que a minha fibra, de vidro, seja devidamente homenageada. Na praça pública da minha terra ou, não sendo possível, na rechonchuda mesa de centro da minha sala de jantar.

Que me perdoem as purpurinas grávidas por lhes imitar desejos. Mas um homem, pouco comedido, bem comido, anafadinho, também os tem!

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