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Face Oculta

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
9:00 Sexta feira, 5 de março de 2010

Às agruras de um Inverno particularmente rigoroso, e saturado de frios e humidades, não tardará que se sobreponha o desconforto da Primavera que se adivinha, percorrida pela cíclica girândola de pólenes agressivos, e pelas frequentes variações da temperatura. Não oferecem tais quadros a menor das tréguas aos portadores de enfermidades alérgicas, entre os quais se coloca o autor destas linhas. Oculta-lhes a face um espesso véu que lhes torna difícil a travessia dos dias, conscientes dessa miséria do corpo, e da alma, que conhecem de gingeira, castigados assim com a disfunção do sistema imunitário. E se a estes infortúnios adicionarmos a doença colectiva em que se debatem, e cujos sinais lhes entram pela casa adentro numa multiplicidade de suportes, teremos caracterizada a paisagem portuguesa, muito sobremaneira a daqueles que, pretendendo fugir de uma poça de lama, se precipitam afinal, e sem remissão, na poça de lama que se lhes depara a seguir.

O carácter crónico de algumas patologias, individuais e sociais, reduz a um novelo de trevas o horizonte a contemplar, ofuscado por uma desqualificação do quotidiano que, quando não obriga à desistência do próprio físico, convida à emigração da terra que nos viu nascer. E que não se avance com o tradicional argumento, sempre falaz, que consiste na expectativa do desconto dos nossos pecados, isto porque aquilo que como humanos nos apetece é a simples réstia de felicidade agora, e aqui.

O arsenal de combate a semelhantes moléstias, tristemente aproximativo, valoriza a intensidade da queixa sobre a origem do mal, e opta pelo paliativo que arrede o perigo de uma certa radicalidade, representada pelos corticóides que trazem na sua esteira um largo espectro de efeitos que, quando não catastróficos, se manifestam indesejáveis. Quanto aos clássicos anti-histamínicos, propiciadores do sono em que tudo se esquece, não passam eles de um remendo mais, aposto a um edifício que se sente à beira da ruína.

Pudessem ao menos tais mezinhas, reclamadas por diversas faces ocultas, já não se diz curar em definitivo, mas neutralizar por tempo considerável, os achaques de que todos nós padecemos!

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