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Faça-se justiça

É tempo de criar uma revolta contra o feudalismo económico em que vivemos.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 27 de fevereiro de 2010

Um sistema judicial que permite a eternização dos processos é um sistema de produção minuciosa de injustiça. Não é uma balda ou um regabofe, como tantas vezes repetimos: isso significaria que a Justiça portuguesa sofre de uma incompetência crónica. É essa a ideia simpática e sofredora que o poder tem alimentado desde há séculos. É uma ideia anterior à democracia, anterior à República - uma ideia que já percorria os sermões do padre António Vieira, no século XVII: não fosse a burocracia e a sua teia de estupidez, o país seria outro. A realidade é inversa: a burocracia tem sido tecida e mantida com extrema competência por todos os poderes, como uma arma de extrema precisão. A Justiça é o coração da democracia, por isso convém que ela não funcione. Que seja temível, cara, ineficiente - na prática, inacessível. As pessoas comuns têm a noção de que é inútil participar um roubo ou uma ameaça. As mulheres portuguesas sabem que de nada lhes vale apresentar queixa na Polícia contra homens violentos, a não ser tornar mais fácil a identificação do criminoso depois de elas aparecerem mortas. Desde que o Código de Processo Penal foi alterado e a prisão preventiva quase desapareceu, os crimes de violência doméstica dispararam. As humilhantes casas de refúgio para as vítimas não resolvem nada: porque hão-de as vítimas esconder-se, ser impedidas de trabalhar, ter de mudar a escola dos filhos, enquanto os seus algozes vivem à vontade? Os obstáculos à prisão preventiva não foram desenhados contra as mulheres nem a pensar neste tipo de criminalidade, endémica mas ainda confortavelmente invisível; foram, sim, desenhados para proteger certos senhores protegidos por outros senhores. Acabámos de saber que os advogados de defesa do processo Casa Pia arrolaram centenas de novas 'testemunhas'. Que Justiça é esta que permite adiamentos infinitos?

Nos últimos tempos temos lido, visto e ouvido incontáveis justificações sobre escutas, publicação de escutas e procedimentos processuais. As escutas publicadas pelo "Sol" revelaram um tenebroso mundo de boys do poder urdindo um esquema para, com dinheiros públicos, calar meios de comunicação social incómodos. Se a constante invocação do 'chefe' - ou seja, o primeiro-ministro de Portugal - como mandante desse esquema é abusiva, o 'chefe' deve-nos explicações. E deve, obviamente, tratar urgentemente de remodelar as suas companhias. Que um desses boys tenha entrado como administrador executivo da PT, em 2006, pela mão de José Sócrates e com um salário anual de 2,5 milhões de euros é, por si só, uma afronta ao povo português e às suas dificuldades diárias de sobrevivência. Que o poder real e os orçamentos da PT estejam na mão de um ser como este Rui Pedro Soares é mais do que preocupante. Precisamos de esclarecimentos rápidos sobre as negociatas que estas escutas vieram demonstrar. E precisamos que o Governo nos diga que justiça existe nestes salários astronómicos, enquanto os parcos salários dos funcionários públicos são congelados. Não são as manifestações pela liberdade de expressão que nos fazem falta: faz-nos falta uma revolta cívica geral contra o feudalismo económico em que vivemos, com os administradores das empresas públicas a enriquecerem à custa do empobrecimento geral da nação.

Ao contrário do que alguns nos querem fazer pensar, o problema do país não é de liberdade de expressão. A famosa crónica de Mário Crespo que o "Jornal de Notícias" se recusou a publicar teve imediata publicação em vários outros lugares - incluindo em livro. Os que declaram que a censura é agora pior do que antes do 25 de Abril, ou são novos e ignorantes, ou sofrem de Alzheimer, ou viviam à sombra das benesses dos senhores desses outros tempos. Há ainda por aí muito espírito ditador apressadamente remodelado em democrata. Só os que têm medo de perder lugares ou mordomias podem queixar-se de falta de liberdade - mas a cobardia nunca foi uma medida de aferição da liberdade.

Entretanto, não nos enredemos na legalidade ou ilegalidade das escutas e nos mil pormenores dos procedimentos processuais com os quais os 'especialistas' procuram tapar-nos os olhos. Não nos deixemos intimidar pela suposta 'complexidade' da Justiça: essa é a roupa de que a vestem os acólitos do poder para a manipular a seu bel-prazer. Precisamos, de facto, de exigir explicações claras sobre este caso que envolve senhores da política e senhores dos media. Obtidas de porta aberta ou pelo buraco da fechadura, as escutas que o jornal "Sol" publicou dão-nos o retrato de um crime em que ninguém sai ileso - mandantes, compradores e comprados.

Texto publicado na edição da Única de 20 de Fevereiro de 2010

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Faça-se Justiça
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 19:23 | Sábado, 27 de fevereiro de 2010
Perguntem a um desempregado se ele está interessado ou mesmo preocupado que a PT compre a TVI, por uma questão de negócio, ou mesmo para acabar com um jornal que não passava de uma palhaçada, que devia envergonhar qualquer jornalista. Perguntem se ele está interessado em saber se o Primeiro Ministro sabia, se mentiu como tanto gosta de afirmar Manuela F. Leite. Afirmar que não há liberdade de expressão ou asfixia como invocava Manuela F. Leite é a maior anedota, não do ano mas do século. Dizer que um politico mente se não dá para rir, também não dá para chorar. Se caísse um braço cada vez que um politico fala a verdade não faltavam por aí manetas. A Comunicação Social porque se percebe que não gosta de Sócrates, resolveu substituir-se à Oposição, que verdade seja dita são uma cambada de nabos. Não seria mal de todo se não batessem tanto no ceguinho. O grande problema é que já se está a querer substituir à Justiça e o mais grave é que com as acusações gravissimas que têm sido feitas, esta continua a não ter uma reação inérgica. Como diz o povo quem cala consente. Até quando vamos continuar a assistir aos julgamentos na Praça Pública? Por este andar não tarda que se acendam fogueiras no Rossio e já nem o Marquês de Pombal se pode sentir seguro.
 
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clareza (seguir utilizador), 1 ponto , 22:20 | Sábado, 27 de fevereiro de 2010
Justiça não á porque
caprylm56 (seguir utilizador), 2 pontos , 23:28 | Sábado, 27 de fevereiro de 2010
José Sócrates criou uma máquina de agregação de interesses com a finalidade de privilegiar os interesses particulares e sectários.
 
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nao tento (seguir utilizador), 1 ponto , 22:31 | Domingo, 28 de fevereiro de 2010
Ia bem mas esbarrou-se!!!
Brilhantina (seguir utilizador), 2 pontos , 15:00 | Domingo, 28 de fevereiro de 2010
Pois minha Cara... estava a lê-la com agrado quando me dei, a partir de certa altura, a ler algo que nada me dizia que a cronista iria tomar esse caminho.
O caminho que falo é a argumentação muito hoje propagada, ''escutas telefónicas'', e que se baseia em dizer-se se estas não têm relevância jurídica já não acontece com o interesse político. Menospreza-se o estado de Direito para que o Estado das Convicções Políticas interprete e viva os acontecimento ao seu belo prazer.
É repugnante quando Jornalistas assaltam tribunais a fim de publicarem processos que estão em investigação e em segredo de Justiça. Esses mesmos jornalistas justificam-se do ilícito da sua actuação desculpando-se que são meros mensageiros.
Pois, meros mensageiros e o povo tem que acreditar, mas há muita gente que não confunde mensageiro com receptor.
O Jornalista tem um objectivo quando assalta um tribunal ou quando é receptor de um determinado produto, públicá-lo para garantir vendas das publicações.
Dando crédito a esta forma de actuação ao comentar o material roubado, não está em nada a promover a tal justiça que se pretende nem tão pouco está a ser, como cidadã, um agente que preserve o Estado de Direito. Está sim a fomentar uma mentalidade que modela o conceito de Cidadania e de Nação e que se suporta em valores de uma verdadeira República das Bananas.
 
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    Re: o teu Estado de Direito NÃO é o nosso    Ver comentário
odisseia na terra (seguir utilizador), 2 pontos , 12:02 | Terça feira, 2 de março de 2010
Vai uma "apostinha" Inês ?..
Fernando Torres (seguir utilizador), 1 ponto , 23:58 | Sábado, 27 de fevereiro de 2010
..."...Obtidas de porta aberta ou pelo buraco da fechadura, as escutas que o jornal "Sol" publicou dão-nos o retrato de um crime em que ninguém sai ileso - mandantes, compradores e comprados..."...
É melhor não apostar..prefiro ganhar a trabalhar..
Se em lugar de "ileso" tivesse escrito "prejudicado"....não lhe proporia a "apostinha"...
 
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geracao de sonhadores
stiffo (seguir utilizador), 1 ponto , 13:55 | Segunda feira, 1 de março de 2010
"uma revolta cívica geral contra o feudalismo económico em que vivemos, com os administradores das empresas públicas a enriquecerem à custa do empobrecimento geral da nação."

o' Ines, a nossa geracao tem sonhado tanto, e por cada sonho um pontape' nos dentes, e mesmo assim continua a sonhar.
Foi-nos dado a ver a imensidade de tudo o que seria possivel e depois, na nossa cara, um diabo cruel e cinico, espezinhou uma a uma as flores da ilusao.

o nosso sonho tinha pes de barro.
Mas porque tivemos um sonho, hoje somos mais humanos. Um pouco tristes e calados. As vezes a chorar de impotencia. Mas somos mais humanos. O sonho nao nos deu nada mas fez-nos melhores.

Bem haja, Ines.
 
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Um sistema judicial que permite a eternização...
sabemius (seguir utilizador), 1 ponto , 3:45 | Domingo, 7 de março de 2010
Não existe Democracia quando um sistema judicial permite a eternização dos processos.
Isso dá lugar às mafias e à corrupção para resolver "as coisas" rápidamente!
 
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