Segundo o FMI, a recuperação começa a ganhar consistência na zona euro. Tomando 2008 como base, levará quatro anos. Chipre recuperará em 2010. A Espanha em 2014. Portugal, em 2013.
Esta débil esperança de crescimento foi suficiente para, mais uma vez, gerar exuberâncias bolsistas. Joseph Stiglitz, Nobel da Economia, alertou para os riscos de optimismo excessivos e usou a expressão "irracionalmente exuberantes".
O mercado de capitais representa um instrumento fundamental para a economia de mercado. No entanto, desafina com frequência. Quando ganha exuberâncias irracionais, torna-se perigoso. Quando desce razoavelmente, está a corrigir ganhos. Quando dá trambolhões, argumenta-se que investimentos na Bolsa são a longo prazo. Nas fases de exuberância, os jogadores de Bolsa viram gabarolas. O êxito é fruto da sua arte. Nas fases de desastre, calam-se. A culpa é da crise.
A funcionar com transparência e supervisionado com rigor, o mercado de capitais representa uma via privilegiada de financiamento das empresas e de aplicação de poupanças. Mal usado e com conivências nefastas pode transformar-se num desastre. As cíclicas euforias e crises bolsistas falam por si.
Antes do 25 de Abril, quando vinha a Portugal, os meus amigos falavam das fortunas geradas na Bolsa. Estoirou. Hibernou até à fase do "gato por lebre". Anunciava-se esbelta lebre, mas era só bem tratada pele. A muitos, a rifa das OPV destinou fedorentas ratazanas. Rebentou.
Tivemos "eufóricas" privatizações. "Generosos" aumentos de capital. "Bem vestidas" OPV.
Portugal tem de competir na qualidade, o que requer exigência em todos os domínios. No mercado de capitais pede-se muito aos supervisores nacionais, mas a supervisão interna representa importante trincheira da transparência, do rigor, da verdade, do uso do dinheiro dos accionistas. Dá conforto aos investidores não representados nos órgãos sociais. Não é apreciada.
Para fazer a diferença no mercado de capitais, Portugal tem de ser mais exigente do que as recomendações dos supervisores. Há tabus, vícios, interesses, subserviências e poderes desproporcionados nos órgãos sociais. A mudança é o caminho. Originará resistências.
A alternativa é o faz de conta. Pelo exemplo, rigor, isenção e capacidade crítica, o accionista Estado tem um papel fundamental no governo das sociedades. Tenho a certeza de que o novo Governo de José Sócrates vai deixar marca nesta importante área.
Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009