Até 2008 andava toda a gente num ramerrão diário quando, de repente, o subprime, a alavancagem financeira e os produtos estruturados passaram a fazer parte do nosso dia-a-dia. Na bica deixou de se discutir futebol e passou-se a uma fase mais intelectual. Quando a bola recuperou o seu espaço natural de sociabilização diária, eis que a crise soberana e os credit default swaps irromperam como novo upgrade intelectual. O que os dois momentos igualmente permitiram foi fazer entrar no léxico a necessidade de diversificação dos mercados de destino dos produtos portugueses. Associado a isto, entre outros, também a diplomacia económica passou a ser tratada por tu na rua. Uma das regiões que invariavelmente é referida como fundamental e estratégica, seja política ou economicamente falando, é África. Há relativamente pouco tempo o ministro dos Negócios Estrangeiros fez um périplo interessante pela África não-lusófona enquadrado na tal 'visão estratégica'. Tem razão. Aliás, diga-se, será dos pouco ministros que têm alguma ideia coerente e clara. Contudo, aquilo que se pretende e se considera ser bom para o país não tem necessariamente e sobretudo imediatamente de obter resposta por parte dos empresários. Na minha última crónica referi o quanto tem limitações a aposta sobredimensionada no mercado angolano. E será que as exportações se diversificaram para África? Se olharmos para as estatísticas desta década (entre 2002-2009) relativamente ao investimento e exportações portugueses para a África não-lusófona, o resultado é uma desilusão. O investimento encontra-se em doses reduzidas aqui e ali e é parco. As vendas não lhe ficam atrás. Focalizemo-nos na África subsariana sem incluir os países lusófonos. O valor das exportações passou de 118 milhões de euros para 347 milhões entre 2002 e 2009. Por comparação, Cabo Verde, que não entra nesta conta, foi destino de 223 milhões de euros! Como é possível que este país compre a Portugal o equivalente a 65% do que é vendido a 43 países com uma população total de mais de trezentas vezes a cabo-verdiana? Arranjando boas notícias, o que se pode realçar é o facto de se ter vendido à África do Sul e à Nigéria cerca de 75% das exportações para a ASS em 2002, passando para 46% em 2005 e 26% em 2009. É um caminho de diversificação mas, convenhamos, muito pindérico face à insistência com que se apresentam os grandes 'desígnios nacionais', seja lá o que isto queira dizer. Os exemplos, escassos, de empresas portuguesas que vão ganhando um concurso neste ou naquele país, normalmente de obras públicas, não indiciam um movimento tendente a ter continuidade e a revelar o imenso potencial do que todos dizem ser um continente de futuro. É que quem constrói a relação económica são as empresas e a distância que vai entre a perceção empresarial das oportunidades e o desejo 'político' daquela concretização é enorme. E cada um terá as suas razões...
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Professor do ISEG
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010