Ninguém consegue explicar porquê. Mas o facto é que a canção "My Way"
- outrora preferida num país onde abundam as máquinas de karaoke - está a ser banida dos bares das Filipinas por estar alegadamente associada a assassinatos.
As autoridades não confirmam, mas de acordo com os meios de Comunicação Social locais só na década passada pelo menos seis mortes entraram para a lista de "assassínios My Way".
Em declarações ao jornal "The New York Times",
Rodolfo Gregorio, um cantor de karaoke, diz que "gostava de "My Way" mas, depois da confusão que gerou, deixei de a cantar. Arriscamo-nos a ser mortos".
Pelo sim, pelo não, muitos bares retiraram a canção das máquinas.
Rodolfo Gregorio já não canta a sua canção preferida
A reportagem do "The New York Times" começa com um tom melancólico. "Depois de um dia a trabalhar na barbearia, Rodolfo Gregorio dirigiu-se ao bar de karaoke do seu bairro, ainda a cheirar a pó de talco. Pousando o copo de cerveja marca "Red Horse Extra Strong", pegou num microfone com o ar confiante de um veterano e, por momentos, fez pairar o silêncio entre o público com a sua interpretação de "My Prayer", dos Platters".
A seguir, Rodolfo Gregório cantou temas muito populares de Tom Jones e Engelbert Humperdinck. Mas não se atreveu a puxar das cordas vocais para interpretar "My Way". Uma atitude prudente para quem, como ele, tem sido testemunha de várias brigas a murro e cenas de facadas decorrentes de discussões a propósito de karaoke.
Diz o jornal que não apenas Gregório mas todos os outros admiradores de Frank Sinatra, numa espécie de "auto-censura pela sobrevivência", riscaram "My Way" do mapa das suas canções preferidas.
Lenda em torno da música
É possível, refere a reportagem, que os filipinos, que se orgulham da sua capacidade lírica, tenham menor tolerância por maus cantores. Um pormenor faz pensar que isso seja verdade, e então estaria explicado o fenómeno: a maioria das "mortes My Way" decorreram depois de os cantores terem desafinado, provocando o riso ou a troça de outros frequentadores dos bares.
Gregorio diz que "o mal de "My Way" é que toda a gente conhece a canção, e não há quem não tenha uma opinião sobre ela".
Mas há quem aponte o dedo a "My Way", considerando que outras músicas igualmente populares não provocaram quaisquer mortes. Butch Albarracin, proprietário de uma escola de canto em Manila - Center for Pop - considera que a letra de "My Way "(algo como "fi-lo à minha maneira") apela à arrogância do cantor, e esconde os fracassos de quem canta.
"My Way" vítima da própria popularidade
Já os defensores da canção acham que "My Way" é apenas vítima da própria popularidade. Ou seja, como é cantada mais vezes do que a maior parte das outras músicas, as cenas de violência, vulgares nos bares de karaoke, coincidem muitas vezes com os momentos em que é interpretada.
Os assassínios decorrentes do karaoke não se circunscrevem às Filipinas. Nos últimos dois anos, um malaio foi esfaqueado por monopolizar o microfone num bar. Um tailandês, por sua vez, matou oito vizinhos por ter ficado irritado por eles terem cantado "Take Me Home, Country Roads", de John Denver.
Nas Filipinas, porém, onde a sociedade é muito violenta e há mais de um milhão de armas ilegais, a probabilidade de ser morto durante uma canção de karaoke parece ser maior.