Há dias, quando fui ver os meus pais, fiquei chocado com a minha antiga escola. O pátio parecia um estaleiro do Dubai, mas não era isso que me chocava. Uma tarja da Mota-Engil estava presa entre duas árvores. Por sinal, as árvores onde a Maria deixou gravada a inscrição que fulminou a Dulce: 'Maria loves Henrique'. Mas também não era isto que me inquietava. Ter o Jorge Coelho em cima das memórias amorosas é uma coisa que se aguenta em nome do PIB pátrio. O que me incomodava era outra coisa. Num dos mastros da escola erguia-se uma bandeira. Não era a bandeira de Portugal ou da UE. Era a bandeira da Mota-Engil. Ali estava o esplendor do regime no portão da minha escola. Não dava para dar menos bandeira, dr. Jorge Coelho?
Não pense, caro leitor, que estou a invocar o tema da corrupção quando falo no esplendor do regime. Não sei nada de corrupção, nem ia sujar a memória da Maria com esse assunto. Quando falo de 'regime' refiro-me a algo bem claro: a burrice económica do PS. Os socialistas, coitados, não fazem por mal. É mesmo burrice. Uma burrice pura, ingénua e quase inimputável. Eles acham mesmo que vamos sair do buraco fazendo obras públicas. O evangelho socialista assim o determina. O mundo, segundo esta crendice, começou quando o investimento público criou as obras públicas à sua imagem. Aliás, algures no Largo do Rato, deve estar escondido um velho papiro que reza assim: "No princípio, o investimento público disse 'faça-se luz', e a luz foi feita. Depois, o investimento público disse 'façam-se as construtoras civis', e as construtoras foram feitas. A seguir, alguém perguntou: 'mas quem paga isso tudo?'. Enquanto se queimava o herético perguntador, o investimento público disse 'faça-se a dívida pública, que deve ser consumida acima dos 100%'. E assim se fez o PS". Se procurarem bem, este papiro deve estar escondido na secretária de Sócrates. É o segredo que passa de secretário-geral em secretário-geral, tal como a maleta dos códigos dos mísseis americanos.
Caro leitor, fica assim a saber por que razão o PS olha para o Estado tal como a dona Fátima, a casta mãe da Maria, olhava para Deus. De forma piedosa, os socialistas acham que 'Política' é o mesmo que torrar dívida pública e espalhar betão pelo país. É por isso que eu não me importava de ver a Mota-Engil sair do país, tal como ameaçou o seu presidente há dias. Podem ir embora, sim senhor. Ide, meus amigos, ide. E não se esqueçam das tarjas.
Para os avós
Rentes de Carvalho escreveu o presente ideal para qualquer avó ou avô. Esse Olimpo natalício é um romance autobiográfico chamado "Ernestina" (Quetzal). Se os meus avós fossem vivos, este seria o presente que eu lhes daria este ano. Aos quatro. Se eles fossem vivos, compraria quatro exemplares de "Ernestina" (para que ninguém fizesse birra). Como eles não sabiam ler, teria de lhes ler o livro em voz alta. E faria isso com prazer. Porque este livro é a biografia dos meus avós. Este livro sou eu, no passado. "Ernestina" é a biografia de milhares e milhares de famílias portuguesas. Um livro terno, mas nunca lamechas. Um livro duro, mas que nunca corta a esperança. Um livro simples e obrigatório.
Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009