Não faz 'oficialmente' parte das artes, dos trivium ou quadrivium, não integra as cinco virtudes que ao trabalho intelectual a Antiguidade exigia, mas ninguém questionará que se trata de um talento - ensinar.
Ensinar, em toda a sua vastidão, é naturalmente transmitir conhecimento, mas é também qualquer coisa de mais elusivo, uma capacidade humana de sobretudo criar a paixão por procurar esse saber. A capacidade humana de transmitir a consciência, a necessidade e o prazer de, com o saber adquirido, continuar em busca do mundo que está para lá dele. E transmitir a necessidade do rigor, a modéstia da hipótese, a fecundidade da dúvida. Mais do que ensinar saber, o talento do professor ensina sobretudo a vida e o homem.
Tudo isto, e o muito mais para que me não chegam palavras, se aplica a amigo desaparecido esta semana: Luís de Sousa Rebelo, desde 1956 professor do londrino King's College que o nomeou Leitor Emérito em 1987 e onde durante quase meio século fez da cultura portuguesa o eixo do seu estudo e da sua reflexão, mas, sobretudo, um instrumento que transformou os seus alunos não apenas em apaixonados amigos da poesia de Camões ou Pessoa, das Crónicas de Fernão Lopes ou da prosa de Camilo, mas em homens e mulheres, semeados por esse mundo, unidos por uma comum paixão pela humanidade e pela vida.
'O Luís', como toda a gente carinhosamente tratava aquela figura franzina, de voz invariavelmente calma, olhos, detrás das lentes, sempre brilhantes de curiosa atenção, de expressão sagaz mas sempre afectuosa, rigorosa mas sempre estimulante, viveu em Londres, mas viveu sobretudo na cultura portuguesa. Estudou-a, ensinou-a, descobriu-a, criticou-a. Leu, escreveu, organizou, publicou.
Dessa sua cultura fazia parte - desde sempre fez parte - a política. Uma concepção da política que o fez escrever desde essa jóia que é 'A Concepção do Poder em Fernão Lopes" até à militância comunista que iniciou em 1946, para apenas cessar no dia em que cerrou os olhos. Ele, o erudito renascentista que revelava Damião de Góis e Bakhtine aos seus alunos, foi peça fundamental do exemplo de resistência durante anos publicado na Grã-Bretanha, o "Portuguese and Anticolonial Bulletin". Saído das austeras paredes do gabinete do King's, aí ia ele, de metro ou autocarro, com a pastinha dos "Avante!" e das quotas, reunir serenamente com os seus camaradas de células do partido, operários, estudantes ou artistas que o Portugal de Salazar expulsara à força de fome ou polícias.
E conversava. Ouvia. Ensinava. Sempre. Em qualquer parte.
São aulas que não me conformo terem deixado de viver.
Ruben de Carvalho
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010