13/02/2012 atualizado às 11:27
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Estratégia na idade da austeridade

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 5 de fevereiro de 2010

Mergulhámos na idade da austeridade. Os números não enganam. Todas as previsões credíveis apontam para taxas de crescimento muito baixas nos próximos anos, níveis de desemprego elevado, défices orçamentais e dívidas pública e externa excessivas. Os problemas estruturais - falta de competitividade e umas finanças públicas muito desequilibradas - continuam por resolver. A idade da austeridade promete ser longa e penosa para todos nós. Quais são as consequências estratégicas desta situação para o país?

Quando olhamos para a política internacional, vemos duas coisas curiosas. A primeira é que o mundo não está mais perigoso. Basta olhar para os conflitos dos últimos 20 anos para vermos que a segurança internacional evoluiu favoravelmente. Se tivermos presente que nas últimas décadas a população mundial explodiu (estamos nos 7 biliões) e que o número de Estados com assento na ONU está perto dos 200, é caso para dizer que não estamos tão mal como nos querem fazer crer.

A segunda coisa curiosa que notamos, tem que ver com a geografia e o número das operações militares levadas a cabo pelas nossas forças armadas e as dos países europeus. A esmagadora maioria destas operações tem tido lugar fora do Velho Continente. A agressão externa parece ter sido varrida para o caixote do lixo da Europa central e atlântica. Quanto à Europa de leste, veremos o que é que o futuro nos reserva.

Além disso, nunca como agora foi tão elevado o número deste tipo de operações. Estou a falar de operações levadas a cabo por forças militares profissionais e expedicionárias em ambientes multinacionais. O número e a duração destas operações ajuda a explicar porque é que em termos históricos vivemos tempos relativamente pacíficos.

Esta situação tem levado Lisboa (e muitas capitais europeias) a sucumbir à tentação de abolir as questões estratégicas. A actual idade da austeridade vai quase de certeza aumentar esta tentação. Da austeridade, com todos os sacrifícios e debates internos que a rodeiam, à introspecção é apenas um pequeno passo. Se formos por aqui, acho que cometeremos um erro político grave. A introspecção até pode ser agradável numa fase inicial mas, tendo em conta o que temos pela frente, é o caminho mais rápido para a irrelevância estratégica.

O que é que temos pela frente? Para começar, estamos a assistir a mudanças estruturais no sistema internacional. Estas mudanças ao nível da redistribuição do poder económico-financeiro e da demografia estão a causar níveis elevados de ansiedade nos decisores políticos europeus. As economias europeias valem 16 triliões de dólares e representam 28% do produto mundial mas os líderes do Velho Continente temem perder poder e influência na nova ordem internacional. A maneira como a cimeira de Copenhaga terminou aumentou o medo da marginalização europeia. Estes medos ficaram bem claros esta semana no Fórum Económico Mundial de Davos.

As mudanças estruturais em curso terão importantes consequências geopolíticas nas próximas décadas. Ninguém sabe se o futuro nos reserva mais guerras e violência. Sabemos, todavia, que a política internacional é feita de grandes surpresas. As décadas que aí vêm são terra incógnita.

Os erros em estratégia tendem a ser mortais e muito caros. A prudência, os interesses nacionais e das alianças onde estamos integrados ditam que precisamos de ter umas forças armadas profissionais bem equipadas, treinadas de uma forma competente e ágeis do ponto de vista expedicionário. O problema é que Portugal, um país euro-atlântico com uma geografia aeronaval muito exigente, não tem recursos para fazer tudo o que é prudente fazer do ponto de vista estratégico.

A idade da austeridade exige-nos um debate sobre este assunto: Quais são os nossos objectivos? Qual é a nossa vontade? Que meios podemos ter?

O recado da Índia


O modelo económico chinês assente nas exportações e o valor da sua moeda será um dos temas mais importantes da política internacional durante este ano. No final da oitava reunião dos ministros do Comércio da China e da Índia, Anand Sharma, o representante de Nova Deli, surpreendeu o seu colega chinês com uma nota formal de protesto contra as práticas comerciais de Pequim. Nas capitais europeias e em Washington a impaciência com a China está a crescer.

Austeridade
20 anos depois da revolução geopolítica europeia, mergulhámos na idade da austeridade. Esta idade coincide com mudanças estruturais na política internacional que afectam os interesses dos países europeus. Portugal precisa de um debate estratégico
Barómetro
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Miguel Monjardino


Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010

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