Os empresários dos hipermercados querem que os seus funcionários trabalhem até sessenta horas por semana com o aumento até quatro horas por dia decidido de véspera, no que pode chegar a 14 horas no local de trabalho. A notícia não podia vir em melhor altura. Quando toda a gente repete assolapadas declarações de amor aos valores da família salvam-se muitos casais e filhos do excesso de convivência. Desde que se proíba o casamento de gente menos recomendável e se mantenha o povo ocupado, a família estará salvaguardada.
Os trabalhadores dos 'hipers', mostrando que não estão em sintonia com o espírito de concórdia que por estes dias nos inunda, ameaçam fazer greve na véspera de Natal, pondo em causa o gesto mais sublime desta quadra: o uso do cartão de crédito. E não se percebe do que se queixam. Sobrará pouco tempo para os filhos, será verdade, mas convenhamos que não é nada que não se resolva com o recurso a uma baby sitter, coisa que os faustos salários dos caixas do Continente ou do Pingo Doce poderá seguramente garantir. Ainda mais com a actualização de 1% prometida para 2009 e 2010. E com que dificuldade... Basta dizer que só no terceiro trimestre de 2009 a Jerónimo Martins teve como resultados líquidos 139 milhões de euros. E a Sonae, uns míseros 108. Mais do que no mesmo período do ano passado. A crise, que tem as costas largas, mesmo quando não nos bate à porta, deve ser acarinhada.
Não vejo por isso razão alguma, muito pelo contrário, para qualquer simpatia para com uns gananciosos que passam o dia no bem bom, sentados, a esfregar códigos de barras num balcão, e ainda ganham por isso. São os empresários, que poderão ser obrigados a pagar 475 euros mensais aos seus colaboradores que merecem a nossa piedosa atenção.
As confederações patronais já fizeram uma contraproposta: pagam 460 euros, naquele que será o mais baixo aumento do salário mínimo dos últimos 35 anos, e, em troca de tamanha generosidade, recebem contrapartidas do Estado. Ou seja, do contribuinte. Confesso que eu, pouco dado a lamechices natalícias, fico comovido com estes beneméritos que não só ocupam o tempo de tanta gente como ainda por cima estão dispostos a pagar-lhes ao fim do mês.
Mas tudo isto fica obscurecido por uma causa maior que deveria unir o país. O alerta veio da juventude do CDS. A mesma organização que já se indignara com a existência do Salário Mínimo, pouco inferior às mesadas dos esforçados petizes. A JP tornou pública a sua indignação através de comunicado: há "uma segregação social inaceitável" dos banqueiros. O imposto social sobre os bónus de uma banca salva pelas nossas contribuições fiscais é uma medida que "castiga quem se comportou de forma prudente". Cantavam há um ano os Contemporâneos: "Mas neste mundo injusto, o dinheiro está garantido para o pobre, o remediado e o sem-abrigo". E enquanto o dinheiro corre a jorros para os bolsos de gente pouco capaz, "o desespero tomou conta de toda a Quinta da Marinha, em vez de lavagante comem lambujinha". E perguntava-se no fim do apelo sofrido: "Saberão que estamos no Natal?". Valham-nos os jovens do CDS e os donos dos nossos hipermercados para compreender o espírito da quadra.
Daniel Oliveira
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009