13/02/2012 atualizado às 1:11
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Como se faz um perfume

Há seis anos que é o perfumista da Hermès. Jean-Claude Ellena já criou mais de 50 fragrâncias, mas ainda tem um medo imenso de não encontrar "a fórmula"

Entrevista de Katya Delimbeuf, em Paris
6:23 Quarta feira, 10 de março de 2010
Como se faz um perfume

O briefing resumia-se a uma única palavra: "Viagem". A partir daí, Jean-Claude Ellena tinha de criar o novo perfume da casa que chama sua há seis anos, a Hermès. Na conceituada marca de luxo, nenhum pormenor pode ser deixado ao acaso - e nada menos que o génio é permitido. "Precisava de criar o espírito da viagem, algo de abstracto, que fosse mais do que um destino", explica Jean-Claude, homem de 63 anos, afável e acessível, de sorriso largo. "Percebi que havia dois momentos essenciais contidos na ideia da viagem: o élan da partida, próximo de um estalo olfactivo; e o conforto da viagem, dado pelas madeiras." Em Paris, falámos com o criador de "First" (Van Cleef & Arpels), "Déclaration" (Cartier), "Eau de Campagne" (Sisley) ou "Un Jardin en Méditerranée" (Hermès).

Como criou o desejo de partir em "Voyage"?
Essa é 'a' questão. Sei que tenho dois a três segundos para seduzir as pessoas. O meu segredo consiste em criar perfumes com códigos que representam cheiros, mesmo que não sejam as matérias-primas usadas. Crio sinais que nos levam a outros sítios.

Este é o primeiro perfume unisexo da Hermès. A que se deve esse facto? Não há viagens femininas ou masculinas - há viagens.

Quanto tempo demorou a criar este perfume?
Quando sabe que está pronto? Pode dizer-se que este perfume me deu cabo da cabeça (risos). Trabalhei em torno de seis, sete temas antes de ficar satisfeito. "Voyage d'Hermès" foi criado ao longo de oito a nove meses. No processo criativo, vou-me sempre colocando perguntas, num diálogo comigo mesmo. Quando sinto que não tenho nada a acrescentar nem a retirar, sei que o perfume está pronto.

Como definiria "Voyage d'Hermès"?
É o resultado de uma longa reflexão sobre este e todos os perfumes que fiz. É seguramente a fragrância em que pus mais de mim mesmo. Queria que fosse um cheiro confortável, que tentei dar com as madeiras - sândalo, madeira de gaillac -, para que não fosse nem masculino nem feminino.

Inspirou-se nalguma viagem particular sua, que tenha feito?
Talvez o Japão tenha sido o país que me inspirou para a "linha clara" deste perfume, o lado depurado da nação; a estética japonesa; a expressão do detalhe... Mas todas as viagens que fiz para a Hermès foram maravilhosas. As viagens para o Mediterrâneo e para o Nilo, por exemplo, foram importantíssimas.

Qual o seu método nessas ocasiões?
Fico uma semana em cada sítio para criar o perfume. É muito pouco. A minha estratégia é o pânico. Cheiro tudo, absorvo tudo, toco em tudo. Tenho um medo imenso de não encontrar a "fórmula". Já provei coisas terríveis, como lagartas. No Egipto, fomos convidados para jantar numa família núbia. Havia comidas estranhíssimas - e eu provei-as todas. Nem sempre me servem para o perfume em que estou a trabalhar, mas acabam por servir mais tarde.

É filho de perfumista, irmão de perfumista, pai de perfumista... Tenho alguma curiosidade em saber: como são os vossos almoços de família?
Fala-se de perfumes ou é assunto proibido? É muito raro falarmos de trabalho. O meu pai morreu cedo. Com a minha filha Céline talvez, falamos do espírito dos perfumes, mas nunca de projectos concretos.

Mas deve ter havido, imagino, influências familiares fortes.
O meu pai cheirava tudo antes de meter algo à boca, tocava em tudo. A minha mãe achava muito pouca graça a esse hábito. Posso dizer-lhe que toda a família Ellena cheira a comida antes de a comer - mesmo nos restaurantes... E gostamos de falar sobre isso... Quando era vivo, o meu pai telefonava a perguntar: "Diz lá, Jean Claude, como verias esta essência?" Soube mais tarde, já depois do meu pai morrer, que ele disse: "Sei que o Jean-Claude é melhor que eu." Ele só assistiu aos meus primeiros sucessos, quando já tinha 60 anos - por isso não houve tempo para falarmos...

E pensar que tudo isto começou por acaso... Iniciou-se na indústria dos perfumes depois de um estágio de Verão numa fábrica de Grasse, por imposição paterna, não foi?
É verdade. Fui muito influenciado pelo meio, mas não decidi ser perfumista. Como era mau aluno, aos 16 anos o meu pai decidiu pôr-me a trabalhar no duro numa grande fábrica de perfumaria, a destilar, a mexer nas pétalas... O que eu mais adorava era o contacto com as matérias-primas - uma sensação muito física, carnal, quase sensual. É engraçado, porque é quase o contrário do que sou hoje, um intelectual do perfume.

O que é, para si, ser perfumista?
Ser perfumista é ser escritor de cheiros. A mão é o nariz.

Por falar em nariz, como o protege? Qual o máximo de vezes que pode cheirar um aroma por dia?
Ao longo da rotina diária de criação de um perfume, cheiro muito pouco: 30 segundos, um minuto no máximo, com intervalos de 20 minutos. Depois trabalho de memória, com a memória dos cheiros. Quando comecei, havia uma "Essência de Portugal", que cheirava a laranja. Por dia, no máximo, uso o nariz para cheirar uma dezena de vezes. E finalizo todos os perfumes no exterior, ao ar livre. Além disso, o meu laboratório está o mais longe possível do sítio onde penso, para evitar interferências.

Se não fosse perfumista, o que se imaginaria fazer?
Na escola, a única disciplina a que era bom era a desenho, a pintar. O meu pai disse-me logo que não valia a pena seguir por essa via, porque não dava dinheiro. Foi o fim da minha carreira artística... (risos) Se não fosse perfumista, talvez fosse pintor. Aliás, pinto no meu tempo livre - sou aguarelista. A minha mulher fotografa. Ser perfumista é um métier difícil, estamos muito sujeitos à crítica. É preciso ter paciência. E ser tenaz.

Já criou mais de 50 perfumes. Nunca tem períodos em branco?
Às vezes, mas são momentos de trabalho. Não me incomodam. Tomo-os como períodos de reflexão. É uma coisa constante. Nestes oito meses em que criei o "Voyage d'Hermès", tive dias em branco. Quando isso acontece, pego noutra coisa. Às vezes, tiro meio-dia e vou passear. Mas esses momentos de respiração são necessários.

Usa perfume?
Não. Nem em férias. A minha mulher usa. Naturalmente sou mais exigente com o perfume dela do que a maioria dos homens.

Lembra-se da sua recordação olfactiva mais antiga?
Lembro. Foi aos 4 anos, num armário da cozinha. Nas prateleiras de cima, havia uma caixa com biscoitos. Recordo-me do cheiro. E da dificuldade em lá chegar...

O EXPRESSO VIAJOU A CONVITE DA HERMÈS

Texto publicado na Revista Única do expresso de 6 de Março de 2010

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