Ninguém quer sentar-se na mesa de voto da Junta de Freguesia de Ermelo (Vila Real). Depois do crime ocorrido no passado domingo, em Fervença - no qual António Cunha, candidato à Junta de Freguesia pelo PS, terá morto a tiro de caçadeira Maximino Nunes, marido da candidata do PSD ao mesmo cargo, Glória Nunes -, está a ser difícil criar as condições para que o acto eleitoral, adiado uma semana pela Comissão Nacional de Eleições, se realize.
"Evidentemente que há um certo clima de medo. Estamos a ter muita dificuldade até para constituirmos novamente as mesas e para nomearmos os delegados. Não é fácil! Num ambiente deste tipo, as pessoas preferem ficar em casa", diz o candidato à Câmara Municipal de Mondim de Basto pelo PSD, Francisco Ribeiro.
Em casa, nas ruas de Fervença, as conversas giram à volta do que aconteceu na manhã de domingo. Caras envelhecidas dão às palavras o sentimento de indignação, de quem não quer acreditar que Fervença, tão pequena, seja agora motivo de tão grande falatório.
"Foi uma hora do diabo", diz convicto Mário Ribeiro, um dos habitantes da aldeia. "Ainda para mais nenhum deles era de Fervença. São ambos de Ermelo. Logo tinha que nos vir calhar isto...", lamenta.
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| Glória Nunes (com óculos), momentos após o seu
marido ter sido morto a tiro junto à assembleia de voto em Ermelo |
| Pedro Rosário/Lusa |
Ironia do destino
Nas ruas, os que falam são os mesmo que se calam logo que os olhares dos jornalistas se prendem nas palavras. "Eu não sei de nada" é uma das frases que mais se ouve. Medo? "Ermelo não pode ter medo", lê-se nos cartazes que permanecem pela freguesia e que até domingo anunciavam António Cunha como candidato pelo PS à Junta de Freguesia de Ermelo.
Só que a frase soa agora a ironia do destino. António Cunha, ou o senhor Cunha, como era conhecido por Ermelo, continua a monte, suspeito de ter assassinado com um tiro de caçadeira Maximiano Clemente, marido de Glória Nunes, actual presidente de Junta de Freguesia de Ermelo e recandidata pelo PSD ao segundo mandato.
Glória Nunes, já o disse, vai continuar como candidata à Junta. O PS, esse, já retirou a candidatura. E visto que PS e PSD eram os únicos dois partidos candidatos à Junta de Freguesia de Ermelo, o lugar, sem oposição, fica agora disponível para a viúva.
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| Bombeiros removem o cadáver do marido da presidente da Junta de Freguesia de Ermelo |
| Pedro Rosário/Lusa |
Historial de intrigas iniciado na década de 1980
O duelo político entre Glória Nunes e António Cunha era um duelo de intrigas, queixas e quezílias. Desde os anos 80 que António Cunha e Glória Nunes vinham a engrossar vários dissabores. Em causa, estariam alegados desvios de dinheiro das comissões de baldios e da Junta de Freguesia.
António Cunha já tinha sido presidente da Junta de Ermelo, eleito pelo CDS/PP. Glória Nunes ganhou o cargo há quatro anos, pelo PSD. Inconformado pela perde do lugar, António Cunha candidatou-se de novo, desta vez pelo PS.
"Não esperou pelo resultado...", suspira em jeito de lamento Alzira, uma das mulheres que no passado domingo ficou à porta da Escola do 1.º Ciclo de Fervença, à espera de ver o corpo de Maximino sair, envolto num lençol e por entre gritos de desespero.
Câmara de Mondim de Basto à espera
Em aberto está a liderança da Câmara Municipal de Mondim de Basto. Os votos que faltam apurar da freguesia de Ermelo poderão ser determinantes para definir a cor política dominante da autarquia.
Em Ermelo estão inscritos 935 eleitores. Francisco Ribeiro teme que a abstenção seja muito elevada. E se para a Junta de Freguesia isso não o preocupa, o mesmo já não acontece com os votos para a Câmara Municipal.
"Sendo o acto realizado nestas circunstâncias, é evidente que vai haver uma abstenção muito elevada e isso, naturalmente, vai afectar o resultado final. Ainda para mais, Ermelo é uma das três Junta de Freguesia PSD, num total de oito... No domingo estavam em Ermelo muitos emigrantes, que se deslocaram de propósito à freguesia para votar, e que não vão voltar a fazer a viagem no próximo domingo", lamenta o candidato à Câmara Municipal de Mondim de Basto pelo PSD,
Contactado pelo Expresso, o PS local não quis prestar declarações sobre esta situação, limitando-se a lamentar apenas a ocorrência trágica.