"A Morte de Bunny Munro" chega esta semana às lojas, 20 anos depois de "E o Burro Viu o Anjo...". Uma história negra, que até podia dar algumas baladas assassinas, em versão de tarado sexual perseguido pela ternura do amor inocente dos olhos de uma criança. Com pedidos de desculpas final a Avril Lavigne e Kylie Minogue.
Começo com uma citação do Bunny Munro, a personagem principal, no final do livro. Diz: "Acho este mundo um lugar difícil para se ser bom." É isso que pensa do mundo? Ou é apenas uma estratégia ficcional para desresponsabilizar a personagem de todo o mal que faz?
Ele é responsável pelas suas acções. Morre sem arrependimento. Quando diz isso, e todo esse cenário no Butlins Holiday Camp, está a sofrer de um curto-circuito cerebral, antes de morrer. Mas é uma forma de não assumir responsabilidade. Também não sei se ele precisa de assumir essa responsabilidade. As pessoas não o fazem... Nas grandes histórias da literatura, a personagem faz coisas más. No final da vida, vê o mal que fez e pede desculpas. O sol aparece, morre calmamente e em paz. Eu não queria isso. Queria um homem que morresse como nós morremos. De repente. Bang!, e acabou. Penso que se estou a tentar dizer alguma coisa é que se tens de corrigir algo, ou redimir-te de algo, faz-lo agora. Não esperes para mais tarde. Mas não acredito nessa ideia de arrependimento. Acho que podemos redimir-nos apenas ao gerar a capacidade de sermos amados por outras pessoas. O Bunny é um monstro. Mas este monstro é amado pelo seu filho, o Bunny Junior. E para mim isso é uma certa forma de redenção...
Foram precisos quase 20 anos para escrever um segundo livro. Quando escreveu o primeiro, "E o Burro Viu o Anjo...", dizia que tinha ficado obcecado com a personagem principal. Ficou obcecado pelo Bunny?
Não do mesmo modo. Aliás, de modo nenhum. Escrevi este livro muito rapidamente. O primeiro rascunho foi escrito em cerca de seis semanas. Na estrada, nos quartos de hotel, nos bastidores, nos aeroportos, muito no autocarro em digressão... Quando estava a escrever o primeiro, havia algo em mim que era o Euchrid.
Por causa do imaginário da escrita de canções, que parte muito da sua vivência, é natural que procuremos o mesmo no livro...
Isso acontece nas canções. No caso deste livro é um erro fazer isso. Desde muito cedo, acreditei que estava a compor uma imagem maior, como se cada canção fizesse parte de uma paisagem ou de um mundo mais vasto. Sinto que há uma espécie de comunidade a que tenho estado a dar vida através da escrita ao longo dos anos. É uma comunidade de personagens, de pessoas, de incidentes, e de acontecimentos... Todo este tipo de coisas. Penso que "A Morte de Bunny Munro" se encaixa nisso. E também penso que toda a experiência de vida do pequeno rapaz se encaixa nisso. Porque eu amo essas pessoas que vivem dentro de mim. Elas podem ser faltosas, fodidas às vezes, o que seja, mas são ainda parte da sociedade que amamos. Acho que é importante compreender que Bunnyman é mau. Ele não é um modelo a seguir. E conforme vais chegando ao final do livro, vais descobrindo coisas ainda piores sobre ele. b>
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| Nick Cave não se identifica com Bunny Munro, mas criou algumas figuras secundárias com bigode, à sua imagem |
| Gavin Evans |
Mas há esta ironia, que é o homem que é perseguido pela polícia, o Horned Killer, que está nas notícias. O Bunny não mata, viola. Podia ser o Horned Killer, só não foi dado como criminoso...
Sim. Conforme vamos lendo que o Horned Killer vai descendo a Inglaterra e se vai aproximando do Bunny, podemos pensar que algo vai acontecer entre estas duas personagens. Mas, para mim, construir estas duas figuras em paralelo, é expor que o Bunny Munro, de certo modo, é satânico e à sua maneira vai-se movendo no mundo. E conforme o diabo se vai aproximando e mais luz é projectada sobre o Bunny, vamos descobrindo o que ele realmente é. Não é apenas um homem engraçado a tentar dar uma queca. Ele é um violador. É um monstro.
Há uma distinção, na forma de escrita, entre os dois livros. "E o Burro..." era denso, complicado de ler. Este tem uma escrita mais quotidiana e fluida...
O facto é que sou muito melhor escritor agora. E houve muito trabalho a rever cuidadosamente o livro do Bunny Munro, para eliminar palavras, cortar, simplificar, desbastar... Nunca fiz isso com "E o Burro...". O primeiro livro inicialmente tinha o dobro do tamanho, porque fui atirando para lá bocados que achava porreiros. Deixei o resto de fora. Um verdadeiro editor teria entrado no livro e dito: "O.K., vamos olhar para isto." Em defesa de "E o Burro Viu o Anjo..." devo dizer que nunca teve um editor.
Acho particularmente curiosa a profissão invulgar, mas muito conveniente, do Bunnyman: vendedor de produtos de beleza feminina, de porta em porta. Fez-me pensar na questão da pesquisa que possa ter tido de fazer...
Não foi preciso muita pesquisa. Eu sei sobre esses assuntos risos. O.K., digamos que muito disso é tanga. Mas apenas tinha de ir à casa de banho e pegar em algumas das porcarias que a minha mulher compra e olhar para papéis que estão dentro das embalagens. Está lá tudo escrito. Diverti-me imenso.
Mas há pormenores de descrição, como ele a exemplificar a utilização dos produtos, detalhes femininos... é precisa muita observação...
Realmente observo essas coisas. Sou voyeurista na forma como vejo a vida. E como escritor, como músico ou escritor de canções, tens de ser voyeurista até certo ponto. Não sei como se passa com outros escritores, mas eu nunca me sinto incluído no que está a acontecer. Sinto-me sempre um pouco como alguém que está de fora a olhar o que se está a passar. E é algo que me dá prazer fazer. Se analisares as letras das minhas canções, é assim que são: visuais. Não consigo escrever uma típica canção rock, que é uma explosão do coração. "Yahh!, eu amo-te querida!..." Não consigo escrever essas letras porque são abstractas, não têm qualquer tipo de natureza visual. Só consigo escrever aquelas canções que dizem: "Então, eu fui dar um passeio hoje, e isto foi o que aconteceu." Essa é a forma como interpreto o mundo, através dos meus olhos. E então tudo aquilo que as pessoas usam, os pequenos detalhes, todos os pormenores visuais são muito importantes para mim. E o Bunny Munro também interpreta o mundo desse modo. Porque ele não tem a capacidade de ver o mundo de outro modo que não aquilo que imediatamente o confronta. Ele não é analítico sobre seja o que for. Ele não tem imaginação alguma, não tem sequer imaginação sexual. Mesmo quando persegue mulheres com convicção, não tem nenhum interesse nelas. Aquilo que ele está realmente a fazer é a fugir do amor. Ele está numa fuga épica do amor. O seu grande inimigo ou o seu maior adversário não é o Horned Killer, não são os maridos que o espancam, ou estas mulheres com diferentes necessidades. O seu grande adversário é o filho, que fica sentado no carro, à espera dele, e sempre a amá-lo.
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É através dos olhos da criança que ele parece não ser tão absolutamente mau...
Sim. Mas desde o início, desde o primeiro momento em que a mulher está com a criança ao colo, recém-nascida, ele não consegue lidar com essa situação. É demasiado amor.
E é nessa altura que surge a primeira descrição de traição, violenta, com a visita da amiga da mulher ao bebé recém-nascido... E ele repete "vagina vagina" como uma reza. É como a droga no "Trainspotting" ou o boxe no "Fight Club"...
É um vício. Penso que o caso dele é de vício em sexo, mas não o chamava um viciado em sexo, porque essa expressão nota: 'sexual addict' em inglês está conotada com alguém que poderá estar em processo de recuperação. Ele não está. Ele é um maníaco sexual.
Há alguma relação entre si e a criança? No sentido de ele andar sempre com a enciclopédia atrás e você teve, em pequeno, uma relação muito estreita com a Bíblia... Ou esta ideia é totalmente absurda?
Absurda. Excepto que... eu sempre me interessei pela Bíblia e pela linguagem da Bíblia... Mas não sou, de modo nenhum, cristão ou religioso. É importante que isto fique claro, porque as pessoas continuam a cometer esse erro.
Sei que vê a Bíblia como ficção.
Totalmente. Mas para mim, se este livro é influenciado por alguma coisa é pelo Evangelho Segundo São Marcos, na Bíblia. Porque esse Evangelho é particularmente relativo à morte de Cristo, ou à morte da personagem principal, que nesse caso é Cristo. Marcos está a despachar para entrar no assunto central, que é a crucificação de Cristo. E é episódico, com pequenas cenas. Ele fez isto, depois fez isto, depois fez isto. E este livro é o mesmo.
Então, a Bíblia volta a inspirar um livro seu. Mas tinha lido que a referência literária era o escritor Jim Thompson?
Não leio um romance do Jim Thompson há anos, mas quando lia estes livros, quando era rapaz, lembro-me de o achar extraordinário, porque ele é um mestre do crime. Ele começa com uma personagem que compreendemos, de quem gostamos, com a qual criamos afinidade. E lentamente, a personagem vai ficando cada vez pior, revelando o seu lado cada vez mais terrível, até se tornar muito má. Quero dizer, as suas personagens são mesmo monstros. Eles matam toda a gente. Mas ao mesmo tempo o leitor continua a relacionar-se com ele, mantém uma proximidade. Ele é um mestre em criar esta tensão, porque ficamos com uma impressão terrível de que a personagem é um monstro mas, ao mesmo tempo que odeias esse tipo, sentes que podias ser ele.
No final, pede desculpas à Kylie Minogue e a Avril Lavigne. Claro que elas são as mais visadas, de forma bastante gráfica e sistemática, mas não são as únicas. Também há a Britney Spears e a Beyoncé...
Bom, lá porque refiro alguém, não preciso de pedir desculpas. Quero dizer, acho que realmente a Kylie e a Avril mereciam um pedido de desculpas. A Britney, que adoro, é referida apenas ocasionalmente... Julgo que está lá o clítoris da Britney...
Não é o clítoris, são os CD dela que são atirados na sanita... Mas o clítoris da Avril, entre outras partes do corpo dela, está lá...
A única coisa que me preocupa nesse livro é a Avril Lavigne. Não estou preocupado com a Kylie porque a conheço... e está referida de um modo que até pode ser visto como moderadamente elogioso (risos). Porque a música 'Spinning Around' é tão forte, e ela tem de assumir a sua responsabilidade por essa música. E também pelo que faz às pessoas e pelo facto de ter feito um dos melhores vídeos da MTV de todos os tempos, a usar um par de calças douradas sexys, o que resultou em que cerca de 75% da população masculina de Inglaterra bateu uma punheta à conta disso. Rios de sémen. Ela tem de assumir a responsabilidade por isso. A Avril, por outro lado, surge num contexto muito negro, do meu ponto de vista. Torna-se extremamente pessoal, e pode ser muito ofensivo para ela. Odiaria que a transtornasse. Gosto da Avril Lavigne.
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E gosta da música dela?
Sim. Oh, sim. 'Sk8er Boi'. Quero dizer risos, quem não gosta da Avril Lavigne? Mas há realmente algo muito pessoal e extremamente negro que se passa nas cenas da Avril que, por um lado, me preocupa e por outro... olha, penso que se a Avril escrevesse um livro em que entrasse o meu pénis, não me importava. Principalmente se fosse o maior do mundo.
Eu achei mais ofensivo o da Celine Dion, que é a que tem o comentário mais negativo relativamente à música...
Mas com a Celine quem se rala?
Disse que escrever canções é mais misterioso para si e mais angustiante do que escrever um livro. E, no entanto, demorou 20 anos a escrever o segundo.
Sim, mas escrever canções para mim foi sempre muito duro. Quero dizer, não é tão difícil quanto construir uma casa, ou algo assim. É duro artisticamente. Duro artisticamente é como... emocionalmente complicado. Mas não me queixo. Há pessoas no mundo com empregos muito mais difíceis do que ficar sentado a uma secretária a pensar em palavras. Mas se há algo na minha vida que é agonizante, é escrever canções. É aquilo que, de certo modo, menos anseio fazer.
Mas de que modo um romance é fácil?
É apenas sentar e deixar ir. Só precisas da ideia inicial. Que, neste caso, começou com um argumento para um filme. E a ideia inicial foi-me dada por John Hillcoat que veio ter comigo a dizer: "Escreves-me um novo argumento para um filme?" Eu disse que sim. Perguntei: "Queres que seja sobre o quê?" E ele disse: "Quero que ponhas três coisas no argumento do filme. Um vendedor, de qualquer espécie; o Butlins Holiday Camp e uma experiência pós-morte de qualquer género." E eu disse: "Deixa comigo." E escrevi a história. Ele ficou muito surpreendido com a história. E eu fiquei muito surpreendido pela história. Mas a dor inicial de uma criação original é a de ficar sentado a pensar sobre o que vou escrever. Há tantas coisas diferentes sobre as quais podes escrever. E esse peso foi-me retirado neste caso. Depois o filme não se concretizou. E o que pude escrever foi algo que me é muito pessoal, um romance muito pessoal sobre questões que me interessam.
E que questões são essas? A educação das crianças? A violência?...
Estou preocupado com as crianças. Estou interessado nas crianças no sentido do que se passa com as crianças, o seu mundo. A percepção de que as vidas que vivem fora da esfera da influência parental ser muito mais interessante do que o que se passa com os adultos. Este pai diz, às tantas, há vidas de crianças que nos estão a ser roubadas, mas ele não está interessado em mais nada do que utilizar essa frase para engatar uma mulher. Ele nem sabe o que isso significa.
Mas se trata questões pessoais, há pelo menos uma personagem que, fisicamente, faz pensar em si. Na experiência pós-morte, o Bunny encontra um músico que tem um bigode. Bom, você agora já não tem bigode...
Mas o músico sou eu. Eu estou lá três vezes. Estou no início, quando há um gigolô no café e tem cabelo preto. E há também um pedófilo que tenta apanhar a criança quando ele tenta atravessar a rua que também tem o cabelo pintado de preto... Eu atiro uns elementos de relação comigo... não sei porquê...
Mas nada no Bunnyman pode ser identificado consigo...
Eu sou um pai respeitável.
(O Expresso viajou a convite da Objectiva)
Actualização de texto publicado na edição do Expresso de 12 de Setembro de 2009