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Ensaio sobre a não reversibilidade do tempo e da impossibilidade de alteração de estados

Onde o nosso Comendador confessa que não tem o mínimo interesse em voltar a lugar ou a tempo algum, alegando, porém, que poderia interessar-se, caso fosse possível, por uma alteração de estado.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 8 de setembro de 2010

Há, meus amigos, quem desse tudo para voltar a ser novo. Ou para voltar à terra onde nasceu; ou onde cresceu feliz e despreocupado. Ou para voltar a estudar, sem as responsabilidades próprias do emprego e da família. Ou, ainda, para voltar ao primeiro amor, ao primeiro beijo, ao primeiro dos alvores do sexo. Há, meus caros amigos, quem pretenda voltar a um local onde foi feliz, na esperança de que seja o local a trazer-lhe a felicidade, como se esta não dependesse, sobretudo, do estado letárgico da inconsciência.

Pois que os inconscientes são felizes. Não sabem o que para aí vai. Não falo do crime, como Portas, nem dos ciganos, como Sarkozy... falo do mundo como um todo. E da sua tristeza, daquela funda tristeza que António Nobre colocou num poema que se chama, precisamente, 'A Vida', no qual, depois de descrever todos os males conhecidos deste planeta, conclui:

"Ó meu amor!, é para ver tantos abrolhos,
Ó flor sem eles!, que tu tens tão lindos olhos!?
Ah!, foi para isto que te deu leite a tua ama,
Foi para ver, coitada!, essa bola de lama
Que pelo espaço vai, leve como a andorinha,
A Terra?!
Ó meu amor!, antes fosses ceguinha..."

Pois falo disto... Dos inconscientes que não sabem que a Terra é "essa bola de lama que pelo espaço vai" e que pensam ser a felicidade ou o bem-estar apenas uma questão de tempo. Nada disso! Os homens nunca foram felizes, senão por breves instantes na sua vida, e nunca lhes chegou o bem-estar, caso contrário jamais tinham inventado coisas como o micro-ondas quando já havia poderosos fornos elétricos.

Porém, é certo quase toda a gente entender que, acaso voltasse atrás, seria de novo feliz como foi, em vez de assisadamente compreender que não há nada de mais infeliz do que a compreensão de que nunca é a felicidade aquilo que julgámos ser felicidade.

É por isso que eu, com a minha vasta experiência de vida, não preferia ser mais novo. Nem voltar à terra que me viu nascer ou onde cresci livre de preocupações. Nem voltar ao primeiro amor, ou mesmo ao segundo. Nem ir de novo a Nova Iorque ou ao Rio de Janeiro para, outra vez, como se fosse a primeira, me espantar com o perfil dos prédios de uma cidade e a natureza da outra. Nada disso me motiva.

Se me questionassem onde queria eu voltar, eu sei. E posso descrever com muita precisão. Estava num comício e falava um político - não vou dizer quem era para que não se retire daqui qualquer conclusão partidária. Esse político falava bem, apontava caminhos interessantes e lógicos. Com ele, o país sairia da cepa torta.

Gostava de voltar a esse local para fazer o que então não fiz - acreditar nele! Como gostava de voltar atrás e não ter lido os relatórios sobre a economia portuguesa. Gostava de não saber fazer contas e não perceber que um destes dias vamos à falência. Gostava de não me importar. Gostava de nunca ter visto os defeitos do meu primeiro amor. Enfim, não gostava de voltar a lado nenhum. Apenas gostava de ser estúpido! E o problema é que ser estúpido é tão difícil como ser inteligente, e eu gostava de nem sequer perceber a diferença que há entre uma e outra condição.

Não se trata de um regresso, mas sim de um estado diferente.

Comendador Marques de Correia

Texto publicado na edição da Única de 4 de setembro de 2010

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Para onde eu devo dirigir o Olhar?...
Soberana09 (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 17:26 | Segunda feira, 13 de setembro de 2010

Sem nenhuma pretensão de contrariar a “vasta experiência de vida” do sr. Com.: eu cá na minha letargia estive em busca de compreensão para um pequena contradição, pois ora ele não gostaria de regressar a nenhum momento especial da sua vida, mas gostaria de voltar ao comício de seu político favorito apenas para acreditar naquilo que não merecia crédito... Ainda nos diz que não é regressar: simplesmente é ter um estado diferente!... Enfim, eu como sempre fui estúpida busquei no “Prefácio” do livro de Pierre Lévy, “A Conexão Planetária”, uma idéia apenas para discordar da tristeza de António Nobre e também contrariar isto: “Dos inconscientes que não sabem que a Terra é "essa bola de lama que pelo espaço vai" e que pensam ser a felicidade ou o bem-estar apenas uma questão de tempo”... Não é nada disso mesmo!... Essa é uma visão onde os pessimistas, geralmente chamados de racionalistas, conseguem atingir porque esquivam-se da grandiosidade da vida somente para ver o mal!...

Com um trecho do Prefácio citado(ali em cima) julgo que encontraremos um caminho para a felicidade: “Decidi amar este mundo tal qual ele é. Adotando essa atitude, tenho a clara sensação de compreendê-lo melhor do que se eu o acusasse ou criticasse. Este livro é um canto de amor ao mundo contemporâneo e ao futuro que ele traz em seu seio. Eu o amo e o canto muito, simplesmente porque não há outros"...

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Para onde eu devo dirigir o Olhar?... II
Soberana09 (seguir utilizador), 1 ponto , 17:33 | Segunda feira, 13 de setembro de 2010

“Quando percebemos o mundo tal qual ele é como o melhor dos mundos possíveis, quando não há, portanto, mais a necessidade de imaginar uma perfeição que não existe senão em nossa pequena imaginação limitada, então, podemos começar a estudar seriamente o mundo real. Compreendendo-o, compreendemos a perfeição, isto é, o movimento de aperfeiçoamento dinâmico que o anima.

O Mundo que se edifica não é “perfeito”, no sentido de que não corresponde efetivamente a nenhuma idéia preconcebida. Ele não é tranqüilizador nem protetor. Surpreendente, ele está incessantemente no limite do caos e da desorganização. Mas é precisamente nessa borda da ordem e do caos que se situam a invenção e a energia espiritual máxima... Todos os outros estados são piores...

De agora em diante a grande aventura não é mais aquelas de países, de nações, de religiões ou ismos quaisquer, a grande aventura é da humanidade: a aventura da espécie mais inteligente do universo conhecido. Essa espécie ainda não é completamente civilizada... Ela ainda não tomou consciência integralmente de que forma apenas uma única sociedade inteligente. Mas a unidade da humanidade está se fazendo agora. Após tantos esforços, é enfim chegada a unificação da humanidade, sob uma forma que nós não esperávamos: não é um império, não é uma religião conquistadora, uma ideologia, uma raça pretensamente superior, uma ditadura qualquer... Que acontecimento extraordinário!..."

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Para onde eu devo dirigir o Olhar?... III
Soberana09 (seguir utilizador), 1 ponto , 17:59 | Segunda feira, 13 de setembro de 2010

“Não olho exatamente os mesmos objetos que os rabugentos. Mais do que me alinhar com aquilo que morre, eu me encanto com o que cresce. Na grande roda da vida, os dois movimentos: nascimento e morte são complementares. Tento aqui dar a ver o que está nascendo... Não desconheço de forma alguma a podridão... Tento elevar os olhos em direção à rosa que desabrocha acima disso. O problema não é saber se se é otimista ou pessimista é saber para onde dirigir o olhar...

Que possa o som do meu pequeno bandolim, acompanhado de todos os instrumentos e de todas as vozes que cantam a mesma canção de amor em todos os lugares do planeta, que possa essa pequena música transpor o baixo uivante das sirenes, do medo, do ódio, do desespero”...

E porque não?, da estupidez!...

Sucesso Eterno na sua Nova Jornada de Vida...

http://www.youtube.com/wa...

 
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