Há, meus amigos, quem desse tudo para voltar a ser novo. Ou para voltar à terra onde nasceu; ou onde cresceu feliz e despreocupado. Ou para voltar a estudar, sem as responsabilidades próprias do emprego e da família. Ou, ainda, para voltar ao primeiro amor, ao primeiro beijo, ao primeiro dos alvores do sexo. Há, meus caros amigos, quem pretenda voltar a um local onde foi feliz, na esperança de que seja o local a trazer-lhe a felicidade, como se esta não dependesse, sobretudo, do estado letárgico da inconsciência.
Pois que os inconscientes são felizes. Não sabem o que para aí vai. Não falo do crime, como Portas, nem dos ciganos, como Sarkozy... falo do mundo como um todo. E da sua tristeza, daquela funda tristeza que António Nobre colocou num poema que se chama, precisamente, 'A Vida', no qual, depois de descrever todos os males conhecidos deste planeta, conclui:
"Ó meu amor!, é para ver tantos abrolhos,
Ó flor sem eles!, que tu tens tão lindos olhos!?
Ah!, foi para isto que te deu leite a tua ama,
Foi para ver, coitada!, essa bola de lama
Que pelo espaço vai, leve como a andorinha,
A Terra?!
Ó meu amor!, antes fosses ceguinha..."
Pois falo disto... Dos inconscientes que não sabem que a Terra é "essa bola de lama que pelo espaço vai" e que pensam ser a felicidade ou o bem-estar apenas uma questão de tempo. Nada disso! Os homens nunca foram felizes, senão por breves instantes na sua vida, e nunca lhes chegou o bem-estar, caso contrário jamais tinham inventado coisas como o micro-ondas quando já havia poderosos fornos elétricos.
Porém, é certo quase toda a gente entender que, acaso voltasse atrás, seria de novo feliz como foi, em vez de assisadamente compreender que não há nada de mais infeliz do que a compreensão de que nunca é a felicidade aquilo que julgámos ser felicidade.
É por isso que eu, com a minha vasta experiência de vida, não preferia ser mais novo. Nem voltar à terra que me viu nascer ou onde cresci livre de preocupações. Nem voltar ao primeiro amor, ou mesmo ao segundo. Nem ir de novo a Nova Iorque ou ao Rio de Janeiro para, outra vez, como se fosse a primeira, me espantar com o perfil dos prédios de uma cidade e a natureza da outra. Nada disso me motiva.
Se me questionassem onde queria eu voltar, eu sei. E posso descrever com muita precisão. Estava num comício e falava um político - não vou dizer quem era para que não se retire daqui qualquer conclusão partidária. Esse político falava bem, apontava caminhos interessantes e lógicos. Com ele, o país sairia da cepa torta.
Gostava de voltar a esse local para fazer o que então não fiz - acreditar nele! Como gostava de voltar atrás e não ter lido os relatórios sobre a economia portuguesa. Gostava de não saber fazer contas e não perceber que um destes dias vamos à falência. Gostava de não me importar. Gostava de nunca ter visto os defeitos do meu primeiro amor. Enfim, não gostava de voltar a lado nenhum. Apenas gostava de ser estúpido! E o problema é que ser estúpido é tão difícil como ser inteligente, e eu gostava de nem sequer perceber a diferença que há entre uma e outra condição.
Não se trata de um regresso, mas sim de um estado diferente.
Comendador Marques de Correia
Texto publicado na edição da Única de 4 de setembro de 2010