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Ensaio sobre a loucura

8:00 Segunda feira, 4 de agosto de 2008

Se as famílias portuguesas fossem pessoas sensatas, teriam adaptado os seus gastos aos rendimentos de que dispunham e hoje enfrentariam os mesmíssimos problemas à excepção de um deles: o endividamento. Mas não. Reza a história que sempre gastaram o que tinham e o que não tinham e hoje estão a pagar por isso. A dívida acumulada é de 129% do rendimento disponível, 91% do PIB nacional, 130 mil milhões de euros.

Se os negócios do Estado fossem geridos por governos fortes, teria havido uma análise criteriosa das despesas públicas, com a devida articulação entre as receitas e as despesas e o necessário equilíbrio do orçamento. Mas não. Reza a história que os governos foram fracos, não articularam coisa nenhuma e limitaram-se a acumular dívidas sem parar. Hoje, a dívida pública vai em 63% do PIB, mais de 100 mil milhões de euros.

Se às famílias e ao Estado juntarmos as empresas, teremos um retrato perfeito e emoldurado do país. É um mar de dívidas: 450 mil milhões de euros, várias vezes o PIB nacional. Tudo no mesmo saco? Não. Há que separar o interno do externo. Numa dívida interna, os custos de um lado são proveitos do outro e o processo gera movimentos de soma zero. Num endividamento externo, os juros vão sempre a fundo perdido.

Se a nossa economia gerasse um rendimento equilibrado, consumíamos uma parte e poupávamos a outra, a poupança seria igual ao investimento e as exportações iguais às importações. Mas não. Reza a história que consumimos de mais e poupamos de menos, e o equilíbrio só é assegurado com 'poupança' do exterior. Traduzindo: com dívidas. A dívida externa está hoje próxima do valor do PIB, mais de 160 mil milhões de euros.

Se assumirmos uma taxa de juro média de 5%, aquela dívida custa-nos por ano mais de oito mil milhões de euros. E é inevitável que comparemos estes números com os tais investimentos 'astronómicos' de que se fala: o TGV, o aeroporto, as estradas... Quanto é que o Governo está a afectar anualmente a investimento público? Quatro mil milhões? Pois é: os juros de um só ano na ordem externa valem o dobro disso.

São números que arrepiam. Paremos então um bocadinho para pensar: uma dívida é sempre má? Não. Endividar pelo simples prazer de consumir, é mau. Mas endividar para investir, pode ser mau ou bom, depende do investimento. Se um projecto for bem estudado, incluir a componente risco e ainda assim gerar um retorno superior ao custo do capital investido, devemos arriscar. Infelizmente, o passado não é tranquilizador e a dívida actual é um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento da nossa economia.

Pergunta incontornável: que fazer? E a resposta possível: nada - a não ser pagar o que se deve. Gastar o que temos e o que não temos e fingir que é possível, "ad eternum", alimentar este endividamento, faz parte do nosso código genético, ponto final. Mas admito que seria interessante tentar corrigir comportamentos futuros. Se começarmos hoje, talvez os bebés de amanhã, quando forem adultos, sejam pessoas normais.

O que se tem passado é de loucos.

Daniel Amaral

Palavras-chave  opinião, daniel amaral dividas
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Ensaio sobre a incompetência
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 11:37 | Segunda feira, 4 de agosto de 2008
Três notais rápidas e uma sugestão

Repor a verdade. As famílias portuguesas não estão endividadas. Apenas 30% das famílias tem um qualquer crédito. Por conseguinte 70% das famílias, a grande maioria não possui qualquer crédito. Isto a acreditar no Banco de Portugal. Acontece que a dívida dos 30% endividados é importante em termos macro-economicos. Esse problema, de falta de poupança e de grande dívida agregada é importante e deve ser resolvido. O primeiro passo é dizer a verdade e não mentir. Daniel Amaral é um economista mentiroso.

Incompetência. Daniel Amaral é um economista incompetente. Ele acha que os que se endividam são irracionais, pouco sensatos. Tal afirmação é totalmente contrária aos pressupostos da economia liberal, que é o de que as pessoas são racionais, perante as situações escolhem sempre o que mais lhes convém. O que acontece é que em Portugal os incentivos existem para que certos grupos sócio-economicos escolham o endividamento.

Causas da fraca poupança e do grande endividamento da classe média. Existem vários estudos nos EUA, comprando os vários Estados, que mostram que quanto maior a desigualdade da distribuição de rendimento maior é o endividamento do grupo que se julga classe média (porque para acompanhar o ritmo de consumo que lhes é imposto pela sociedade só o podem fazer recorrendo a crédito). A desigualdade é que gera a fraca poupança e a dívida brutal de algumas famílias da classe média. Daniel Amaral anda, obviamente, muito afastado da literatura académica sobre este tema, sobre o qual gosta de escrever mas não de se documentar.

Uma solução. Nos EUA que enfrentam problema semelhante uma das soluções propostas é a da introdução de um imposto fortemente progressivo sobre o consumo. Este imposto introduziria o incentivo à poupança e refrearia o consumo (especialmente dos grupos sociais mais abastados). Baixaria os padrões de consumo de referência da classe média, contribuindo para o rejeitar da dívida em detrimento da poupança. Porque não em Portugal? Fica a sugestão para debate.
 
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    Re: Ensaio sobre a incompetência...de quem?    Ver comentário
kchato (seguir utilizador), 1 ponto , 13:00 | Sábado, 9 de agosto de 2008
As pessoas??
Caparica Red Neck (seguir utilizador), 1 ponto , 21:48 | Segunda feira, 4 de agosto de 2008
Não tenhas medo pá!!
 
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