Se as famílias portuguesas fossem pessoas sensatas, teriam adaptado os seus gastos aos rendimentos de que dispunham e hoje enfrentariam os mesmíssimos problemas à excepção de um deles: o endividamento. Mas não. Reza a história que sempre gastaram o que tinham e o que não tinham e hoje estão a pagar por isso. A dívida acumulada é de 129% do rendimento disponível, 91% do PIB nacional, 130 mil milhões de euros.
Se os negócios do Estado fossem geridos por governos fortes, teria havido uma análise criteriosa das despesas públicas, com a devida articulação entre as receitas e as despesas e o necessário equilíbrio do orçamento. Mas não. Reza a história que os governos foram fracos, não articularam coisa nenhuma e limitaram-se a acumular dívidas sem parar. Hoje, a dívida pública vai em 63% do PIB, mais de 100 mil milhões de euros.
Se às famílias e ao Estado juntarmos as empresas, teremos um retrato perfeito e emoldurado do país. É um mar de dívidas: 450 mil milhões de euros, várias vezes o PIB nacional. Tudo no mesmo saco? Não. Há que separar o interno do externo. Numa dívida interna, os custos de um lado são proveitos do outro e o processo gera movimentos de soma zero. Num endividamento externo, os juros vão sempre a fundo perdido.
Se a nossa economia gerasse um rendimento equilibrado, consumíamos uma parte e poupávamos a outra, a poupança seria igual ao investimento e as exportações iguais às importações. Mas não. Reza a história que consumimos de mais e poupamos de menos, e o equilíbrio só é assegurado com 'poupança' do exterior. Traduzindo: com dívidas. A dívida externa está hoje próxima do valor do PIB, mais de 160 mil milhões de euros.
Se assumirmos uma taxa de juro média de 5%, aquela dívida custa-nos por ano mais de oito mil milhões de euros. E é inevitável que comparemos estes números com os tais investimentos 'astronómicos' de que se fala: o TGV, o aeroporto, as estradas... Quanto é que o Governo está a afectar anualmente a investimento público? Quatro mil milhões? Pois é: os juros de um só ano na ordem externa valem o dobro disso.
São números que arrepiam. Paremos então um bocadinho para pensar: uma dívida é sempre má? Não. Endividar pelo simples prazer de consumir, é mau. Mas endividar para investir, pode ser mau ou bom, depende do investimento. Se um projecto for bem estudado, incluir a componente risco e ainda assim gerar um retorno superior ao custo do capital investido, devemos arriscar. Infelizmente, o passado não é tranquilizador e a dívida actual é um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento da nossa economia.
Pergunta incontornável: que fazer? E a resposta possível: nada - a não ser pagar o que se deve. Gastar o que temos e o que não temos e fingir que é possível, "ad eternum", alimentar este endividamento, faz parte do nosso código genético, ponto final. Mas admito que seria interessante tentar corrigir comportamentos futuros. Se começarmos hoje, talvez os bebés de amanhã, quando forem adultos, sejam pessoas normais.
O que se tem passado é de loucos.
Daniel Amaral