Foi uma semana em cheio: o PS regressou de uma longa viagem ao País das Maravilhas e rasgou o programa eleitoral, Cavaco falou para dizer que não quer aventuras e o PSD percebeu que vai cair no colo de Passos Coelho.
Há semanas assim. Tudo o que se passa é relativamente previsível, mas tudo tem um ar surpreendente. Não havia uma única alma informada no país que não conhecesse o estado das contas públicas e a receita que chegaria com o PEC. Ao fim de tantos anos, duvido que houvesse alguém a pensar que Cavaco Silva era capaz de falar em dissolver o Parlamento. E apesar de não ser tão óbvio, duvido que alguém que conheça minimamente o PSD não tivesse já percebido que Pedro Passos Coelho leva vantagem sobre os adversários. Mas gostamos de viver de surpresa em surpresa.
Devíamos aproveitar o momento para assumirmos a realidade de uma vez. A questão do PEC é a mais grave. Não me preocupa muito a inutilidade das promessas eleitorais do PS, que foram esta semana oficialmente para o lixo. É certo que muitos eleitores vão dizer que foram enganados e que as contradições do Sócrates pré e pós-eleitoral são graves e risíveis. O mais preocupante é o tempo que o Governo perdeu a aceitar a realidade e a insegurança que transmite ao olhar para o futuro.
Vamos pagar mais impostos, trabalhar mais anos, ter menos serviços, privatizar o que resta e ter pensões mínimas. Tudo isto para quê? Para que daqui a quatro anos alguém nos volte a dar a mesma receita. E por aí fora.
O que me choca no PEC é a absoluta falta de visão do papel do Estado, que se resume a um caçador-recolector que vende os despojos ao desbarato. Vamos vender a REN? Sim. E alguém pensou a sério se o Estado deve vender a rede eléctrica? Vamos vender os CTT? Sim. E isso foi pensado com profundidade? Este é o problema. O Estado não sabe o que é nem o que quer ser.
No meio de um cenário tão desolador, ao menos que o Governo aproveite para fazer aquilo que pura e simplesmente não tem feito: governar. Acabe com as falsas ameaças de demissão e com as queixas da oposição. Nisso tem o apoio de Cavaco Silva.
Na sua entrevista bissexta, o Presidente mostrou que só dissolve o Parlamento se for obrigado. Até às presidenciais não fará mal algum a Sócrates e depois disso deixará qualquer iniciativa à Assembleia da República.
E é aqui que chegamos ao PSD. A actual direcção está entretida a festejar o PEC porque mostra que "afinal tinha razão", sem perceber que está no seu próprio funeral. É bom que o PSD acorde agora. Na verdade, não está atrasado. O Governo também só acordou esta semana. E Cavaco deu-lhes, pelo menos, mais um ano para dizerem o que querem de nós. Mas não se esqueçam de que agora todos conhecemos a realidade.
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010