12/02/2012 atualizado às 14:48

Encontro imediato de grau cómico

Raul Solnado, 74 anos, vs Bruno Nogueira, 22 anos. Provocámos um frente-a-frente entre o veterano e o novato do humor em Portugal. A conversa soltou-se entre risos, ambições e histórias. Visite o especial dossiê Raul Solnado (1929-2009).

Bernardo Mendonça
17:45 Domingo, 9 de agosto de 2009
Solnado marcou o humor em Portugal com inúmeras rábulas. Bruno Nogueira começou agora
Solnado marcou o humor em Portugal com inúmeras rábulas. Bruno Nogueira começou agora
António Pedro Ferreira

Um é veterano e já festejou 50 anos a fazer rir Portugal. O outro, novato, é um dos mais interessantes valores do humor português. Raul Solnado, 74 anos "sem conservantes nem plasticizantes", e Bruno Nogueira, 22 anos, têm em comum a virtuosidade de chegarem sozinhos a um palco, abrirem a boca ao microfone para contar uma história e imediatamente fazerem disparar uma bomba de gargalhadas e lágrimas na plateia.

Clique para aceder ao índice do DOSSIÊ RAUL SOLNADO (1929-2009)

Solnado marcou o humor em Portugal com inúmeras rábulas. Bruno Nogueira começou agora. Fez-se notar no espectáculo de comemoração do último aniversário da SIC por elogiar, com ar cáustico e sério, os textos de um tal "senhor do bolo" e dar conselhos a um "novato Herman" de cabelo pintado. Paródia geral. O "senhor" a que ele se referia era Francisco Pinto Balsemão, que tinha surgido para apagar as velas do bolo e rematado apenas com um "feliz aniversário".

Quanto a Herman José - personagem intocável e durante 20 anos sem sombra de concorrência - estava a ser troçado pela primeira vez em público. O autor deste feito, e destes textos, é um comediante que não ri e uma das figuras mais notadas em Portugal na "stand up comedy" (género de humor anglo-saxónico a significar, literalmente, "comédia em pé", e que teve num Raul Solnado em típico jeito reguila e de gaguez controlada o seu pioneiro em Portugal).

Juntámos duas gerações da comédia, separadas por cinquenta anos de risos. Nunca se tinham cruzado. Desafiámo-los a confrontarem opiniões, graças, estórias e conselhos de palco. Bruno, actualmente apresentador de "Curto Circuito" (programa diário da SIC Radical) conhecia bem o trabalho de Raul, mas o contrário não era verdade.

Nunca se tinham cruzado mas ambos têm a virtuosidade de arrancar gargalhadas e lágrimas a uma plateia


Casa do Artista, 12h. Raul Solnado chega pontualmente. Cumprimenta algumas "meninas" do lar de que é director e senta-se à mesa connosco. Pede um café. Dez minutos mais tarde surge o comprido Bruno Nogueira, meio desgrenhado, alheado. Cumprimentam-se. A sua agente não o avisou do combinado. Era necessário que trouxesse alguma mostra do seu trabalho em vídeo para mostrar a Solnado. Por sorte, o rapaz mora perto e não se importa de voltar a casa para ir buscar a cassete

Apesar do mal-entendido, Raul não faz má cara ao papel dos agentes artísticos no mercado português. "São muito úteis". Uma realidade recente que, supostamente, poupa energia e valoriza o trabalho dos actores. "Antigamente ligavam-me frequentemente a pedir-me para eu fazer espectáculos grátis. E eu dizia que sim. Mas, agora, depois de ter contratado uma agente, essas situações caíram em 90%".

Os dois humoristas almoçam na Casa do Artista, onde o veterano aconselhou o novato a inscrever-se
Os dois humoristas almoçam na Casa do Artista, onde o veterano aconselhou o novato a inscrever-se
António Pedro Ferreira

12h30, hora do almoço no refeitório da Casa do Artista. Ementa: ensopado de ervilhas. E no meio da toada ensurdecedora de vozes, copos, chávenas, talheres e pratos, a conversa começa a soltar-se.

O jovem actor mostra-se, de início, extraordinariamente tímido. Mexe nos cabelos, olha para o relógio do telemóvel - tique ou somente para controlar o tempo? -, e, de vez em quando, esconde o olhar no meio das ervilhas. É Raul Solnado a quebrar o gelo ao falar de si. Das suas fintas à PIDE, em tempo de censura, e do seu trajecto como actor de comédia. Algumas garfadas mais tarde, mudança de assunto. "Fui ver o Jô Soares ao Centro Cultural de Belém", diz Solnado. "Ele é genial naquelas graças do quotidiano".

Bruno concorda. Mas acha que a maioria dos jovens de hoje já não se identifica com o humor do "Gordo". "Eu devo ser das poucas pessoas da minha geração que ainda gosta de Jô Soares. Porque é diferente. Não é tanto a palhaçada". Reconhece-se no estilo "non sense" e encontra no grupo britânico Monty Python a sua principal referência humorística. "Ou até mesmo no John Cleese a actuar sozinho", completa.

MERDA... SÓ NO CARNAVAL


Solnado deita por terra esta opinião. "Isso já terminou. Os Monty Python são parte de uma época. Eu vi no outro dia uma coisa deles e não achei graça nenhuma". Pausa para reflexão e mais umas garfadas verdes. E continua: "O mesmo se passa com o Mr. Bean. Nunca gostei dele. Nada". Aí o jovem aceita. "Eu também nunca lhe achei piada. É um tipo de humor mais físico".

Quanto ao humor tradicional português, e à sua linguagem feita da manguitos, barba rija, bacalhaus, alhos, pernas ao léu e cenas de cama, Raul Solnado é claro: "Sou contra o uso do palavrão". E lembra que as ditas palavras brejeiras são uma novidade nos palcos nacionais.

"Antes do 25 de Abril, a censura só nos autorizava a dizer merda no Carnaval". Risos no prato. Defende que o uso de má linguagem em cima das tábuas revela uma enorme "pobreza e falta de imaginação" e esquiva-se a criticar o desempenho de colegas de profissão no pequeno ecrã. "Não sou muito espectador de televisão".

Bola para Bruno Nogueira que chuta mais forte. "Eu identifico-me pouco com o humor que passa actualmente na televisão. Acho que alguns géneros estupidificam as pessoas".

Bruno revela a Solnado as suas fontes inspiradoras. "Basta olhar um bocadinho para Portugal para ter todo o material para fazer rir. É até possível fazer-se um texto, em cinco minutos, tendo à nossa frente uma qualquer revista cor-de-rosa".

Raul diz-se adepto da comédia do quotidiano. Faz-lhe um reparo: "O humor é por si só a distorção das realidades".

Fim do almoço. Cafés tomados, os dois humoristas sentam-se frente ao televisor para ver o trabalho de Bruno em vídeo. Raul coloca os óculos. O vídeo arranca com o tal excerto do aniversário da SIC. "Que público indomável", comenta Solnado.

Solnado aponta o dedo à importância da gestão das ideias criativas


"O Jô Soares é genial naquelas graças do quotidiano", diz Solnado. Bruno concorda: "Devo ser dos poucos da minha geração a gostar dele"
"O Jô Soares é genial naquelas graças do quotidiano", diz Solnado. Bruno concorda: "Devo ser dos poucos da minha geração a gostar dele"
Jorge Simão

Bruno manda a primeira piada para as cadeiras do Coliseu. "Quero confessar uma coisa. Quando vejo muitas pessoas juntas, tenho vontade de acasalar. Não levem a mal". Gargalhada geral. "Bom", diz um Solnado sério e analítico, e acrescenta: "Achei francamente muito bom. Com um humor muito rico". Aponta o dedo à importância da gestão das ideias criativas. "Desperdiçaste muita coisa ali que podia ter sido usado noutro sítio. É o problema da 'stand up comedy'. O que tu disseste ali já não podes usar outra vez. É importante não gastar todos os cartuchos. Não dá para repetir as graças. Ficam queimadas".

Os textos que alimentam a "stand up comedy" demoram a ser escritos em média duas semanas e gastam-se em dez minutos. "Este é um ritmo que não dura muito tempo. Olha o caso do Herman José. Ele tinha um humor genial, mas esgotou-se e agora está refugiado a fazer entrevistas. E faz muito bem". Segue o bom exemplo de Vasco Santana. Que, segundo conta, quando chegava a meio de uma rábula, com o público ao rubro, entre risos e gargalhadas, saía do palco. De fininho.

"Por isso mesmo eu nunca contei nenhuma história na televisão. Porque é um risco", diz Solnado. Bruno acena com a cabeça, em concordância, mas acha-se ainda muito novo. "Mal de mim se o meu poço criativo se estiver a esgotar". Bruno mostra ter rotina de artista. Conta que só consegue escrever à noite, que normalmente se deita entre as 4h e as 6h da manhã e que acorda por volta das 2h da tarde. "Chego a dormir com um gravador, ou um bloco de notas perto da cama, porque os momentos anteriores a adormecer são para mim os mais criativos. E eu tenho medo de me esquecer dessas ideias no dia a seguir", confessa.

Raul Solnado julgava a "stand up comedy" uma coisa de passagem. "Agora mudei de opinião. É uma tendência e vai perdurar com os melhores actores. Porque há muitos bares e palcos pelo país". Bruno completa a ideia. "E porque é um espectáculo barato".

Momento para o velho humorista atirar a questão desde o início guardada na manga. Olha-o nos olhos e joga: "Então, portanto, tu queres é fazer uma carreira, não é?"

Bruno hesita e Raul insurge-se contra a ideia. "Pois, porque a malta hoje assusta-se com essa palavra. Ca-rrei-ra. Julgam que é uma palavra antiga. Eu quando vim para o teatro estava disposto a isso. Agora ninguém a quer. Porra, o que é isso?" Bruno decide-se a comentar. "Claro que quero, mas não sei se vou conseguir". Raul remata: "Nunca ninguém sabe. Mas a ambição é muito importante para um artista. É como no póquer. O pessoal tem que arriscar, sem medo".

Raul desabafa com Bruno os seus actuais receios. "Eu estou perto do fim da minha carreira e com muito medo de a estragar. Por isso tenho muito cuidado com o que faço".

Termina o discurso paternal com o conselho que ouviu da boca de um dos maiores mestres do teatro português, Salles Ribeiro. "Tu tens muito jeito. Podes fazer uma grande carreira. Mas sobe os degraus devagar".

Bruno ouve educadamente os conselhos, sem expressar nenhuma opinião. Desejam-se sorte mútua.

Raul convida-o a espreitar a reposição do seu espectáculo "Conversas à Solta", agora aos domingos à tarde no Teatro Villaret, onde conta em palco histórias vividas do teatro português. "Não é uma 'stand up comedy' mas uma 'sit down comedy'. Porque faço o espectáculo sentado. Mas o conceito é o mesmo".

No final, despedem-se à pressa porque Bruno está atrasado para as gravações do seu programa em directo transmitido na SIC Radical. Solnado deixa-lhe no abraço a responsabilidade da máxima brasileira: "Fé em Deus e pé na tábua".


Artigo publicado na Única da edição do Expresso de 28 de Fevereiro de 2004
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