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Bye, bye, Emily

15:49 Quinta feira, 5 de novembro de 2009

Emily deixou o Pólo Sul. Veja aqui uma fotogaleria com algumas fotografias do regresso de Emily ao "mundo das coisas vivas", enquanto ouve uma das suas canções preferidas.

Emily Wampler deixou finalmente a Estação Amundsen-Scott, situada num dos locais mais inóspitos do planeta, onde esteve isolada com outras 42 pessoas durante cerca de nove meses. Durante este período, foi partilhando com os leitores do Expresso o seu dia-a-dia na base do Pólo Sul, as dificuldades do seu trabalho, os momentos de lazer do fim-do-dia, as reflexões sobre a vida e a condição humana. Com Emily finalmente libertada do seu mundo de gelo, é tempo de fechar o blogue "Emily presa no gelo".

Veja aqui uma fotogaleria com algumas das fotografias do regresso de Emily ao "mundo das coisas vivas", enquanto ouve uma das suas canções preferidas, "Wish I was the moon", que a acompanhou muitas vezes nestes meses de isolamento nos confins do mundo.

FIM

Fotogaleria: Vacina da gripe chegou ao Pólo Sul

16:00 Quarta feira, 4 de novembro de 2009

Emily deixa hoje a Base Amundsen-Scott, onde viveu isolada com mais 42 companheiros desde Fevereiro. Mas antes de largar o Pólo Sul e regressar ao "mundo das coisas vivas" vacinou-se contra a gripe, porque o sistema imunitário dela e dos outros locatários de Inverno da base está muito fraco. Clique para visitar mais textos no blogue Emily presa no gelo . Clique para visitar o canal Life & Style.

Olá Emily, como vais?
Cá estou eu de novo, creio que pela última vez...
Calculo que haja uma grande excitação por aí, hã?
Agora, que a nossa colaboração de quase nove meses está a chegar ao fim, agradeço-te teres partilhado comigo e com os leitores do Expresso essa experiência de vida no Pólo Sul.
Bom regresso ao "mundo das coisas vivas", como tu costumavas dizer.
Boa sorte e até um dia destes.
Um beijo
José
Olá José,
Sim, estamos todos numa grande excitação. Devo partir hoje do Pólo Sul, tal como a maioria do pessoal da equipa de Inverno.
Nestes últimos dias andámos todos muito ocupados a embalar as coisas, a fazer e arrumar caixotes e a treinar o pessoal que agora chegou para aqui passar o Verão austral. Para quem aqui passou 9 meses, é curioso ver o tempo que leva a atar todas as pontas soltas!
Ontem chegou o segundo avião com passageiros, um Hércules, que trouxe mais 29 pessoas e muita carga para o Pólo Sul. E mandámos nesse avião para McMurdo duas pessoas que estavam com problemas de "doença da altitude". Por vezes, as coisas com os recém-chegados não funcionam muito bem, porque podem ficar bastante doentes por dificuldades de aclimatação (estamos a mais de 3 mil metros de altitude e a humidade é praticamente zero por cento). Mas a nossa equipa médica esta preparada para lidar com a "doença da altitude" e cuida bem daqueles que têm problemas até chegar um avião que os possa levar para McMurdo, que fica ao nível do mar.
A nova equipa que chegou trouxe uma nova energia para a Base do Pólo Sul e há uma série de coisas que mudaram rapidamente. Agora temos 6 ou 7 operadores de maquinaria pesada, comparados com apenas um durante o Inverno. O que significa que os montões de gelo estão a ser removidos e que há agora mais máquinas na rua a trabalhar.
Mas um dos problemas de haver novas pessoas na Estação é que também há novos germes. Neste Inverno estivemos tão isolados que chegámos todos ao fim da temporada a partilhar os mesmos germes e os nossos sistemas imunitários estão fracos. Como os que agora chegam trazem novos germes, o pessoal que cá passou o Inverno tem de ter muito cuidado para não ficar doente. A maior parte de nós decidiu vacinar-se contra a gripe logo que as vacinas chegaram, no primeiro voo. Penso que, pelo menos no meu caso, isso tem evitado que fique adoentada.
Fica bem, José
Espero que esta esta partilha tenha sido uma boa experiência para ti e para os leitores do Expresso, tanto como o foi também para mim.
Até um dia destes
Grande beijo
Emily

AMANHÃ: O ADEUS DE EMILY AO PÓLO SUL

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A vida de Emily no Pólo Sul

O dia-a-dia da norte-americana Emily Wampler no local mais inóspito da terra, a base Amundsen-Scott, onde até Outubro é sempre de noite e a temperatura é de 60 graus negativos

Emily prepara-se para dar uma volta ao mundo

8:08 Sábado, 31 de outubro de 2009

Emily deve deixar na quarta-feira o Pólo Sul. Os habitantes da Base Amundsen-Scott terão muitas horas de voo até chegarem a casa. E Emily terá muitas, muitas mais... Clique para visitar mais textos no blogue Emily presa no gelo  

Emily junto ao marco cerimonial do Pólo Sul, pouco depois da chegada, em Fevereiro
Emily junto ao marco cerimonial do Pólo Sul, pouco depois da chegada, em Fevereiro

Olá Emily,
Agora que estás quase a deixar o Pólo Sul, como é que é feito o regresso ao "mundo das coisas vivas", o mundo onde há animais e plantas, como tu dizes?
Vão primeiro para a Base McMurdo (quanto tempo é da Amundsen-Scott para lá?) e daí vão para onde? Directamente para os EUA?
E já decidiste o que vais fazer nos próximos tempos?
Um beijo
José

Viva, José
Eu estou escalonada para partir do Pólo Sul na próxima quarta-feira, 4 de Novembro -- se os aviões vierem... Daqui voamos todos para a Estação McMurdo, onde ficamos um dia ou dois. Depois apanhamos outro avião, para Christchurch, na Nova Zelândia. É uma grande viagem! Daqui para McMurdo são quatro horas, de McMurdo para a Nova Zelândia são mais cinco. Chegados à Nova Zelândia, cada um irá para onde quiser.
A malta que está desejosa de ir direitinha a casa para ter férias com a família e os amigos terá de voar pelo menos mais 13 horas, até chegar aos Estados Unidos. Outros irão viajar durante algum tempo.
É o meu caso. Estou bastante excitada com a ideia de ir viajar durante 5 ou 6 meses. Eu e o Brian estamos a pensar comprar um daqueles bilhetes de avião do tipo "volta ao mundo". Da Nova Zelândia tencionamos ir para a Ásia, depois para a Europa e o Médio Oriente, e só depois volto para casa nos Estados Unidos, na próxima Primavera.
Talvez regresse dentro de um ano ao Pólo Sul, para trabalhar de novo na Amundsen-Scott, mas dessa vez durante a estação de Verão (de Outubro a Fevereiro).
Por agora, o que espero é estar dentro de menos de uma semana a apreciar a Primavera, quando chegar à Nova Zelândia.
Fica bem e até breve,
Beijo da
Emily



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O dia-a-dia da norte-americana Emily Wampler no local mais inóspito da terra, a base Amundsen-Scott, onde até Outubro é sempre de noite e a temperatura é de 60 graus negativos

No Pólo Sul, quem pendurou o casacão no cabide de Emily?

15:14 Quarta feira, 28 de outubro de 2009

Como os recém-chegados à Base Amundsen-Scott conseguem baralhar os espíritos e dar cabo das rotinas de quem esteve isolado no Pólo Sul estes nove meses do Inverno. Clique para visitar mais textos no blogue Emily presa no gelo

Emily junto ao marco do Pólo Sul, em frente à Estação Elevada, logo após a chegada, em Fevereiro

Viva, Emily
Então como vão as coisas por aí na Base do Pólo Sul?
As coisas estão a aquecer, não? (no sentido figurado claro, porque calor é o que por aí há menos...)
Como está o movimento de partidas e chegadas?
Um beijo
José

A Estação Elevada. O cilindro prateado à esquerda encerra as escadas de serviço e o elevador de carga. As janelas da esquerda são as do refeitório, galeria e área comum. As da direita são as dos quartos individuais

Ola, José,
Espero que tenhas tido um bom fim-de-semana
Nós por cá, na base do Pólo Sul, continuamos com "défice de aviões", embora tenha chegado ontem um avião com passageiros. É uma sensação muito estranha ver o número de lugares no refeitório a aumentar e cruzarmo-nos com caras novas nos corredores.
Depois de termos passado tanto tempo juntos, nós, o pessoal da equipa de Inverno da Estação Amundsen-Scott, conseguimos reconhecer-nos imediatamente uns aos outros a grande distância só pela maneira de andar. Pelo que, agora, é esquisito ver pessoas a andar por aqui que não conseguimos reconhecer.
No total, há agora 72 pessoas aqui na Base do Pólo Sul, depois de um Inverno em que fomos 43.
Outra situação engraçada com os novos elementos é que eles conseguem, sem querer, dar cabo da rotina da equipa de Inverno. Por exemplo: ontem, quando vim para dentro depois da chegada do avião, descobri que um dos recém-chegados tinha posto o casacão no "meu" cabide do vestiário.
Teve piada ver a minha reacção: primeiro fiquei baralhada (quem é que haveria de pôr o casaco no meu cabide?); depois fiquei aborrecida (como é que alguém foi pôr o casaco no meu cabide?); a seguir apercebi-me de que estava a ser estúpida (como é que o novo tipo ia descobrir que eu tenho usado este cabide nos últimos nove meses?).
É engraçado vermos quão agarrados ficamos às nossas rotinas!
Até breve
Um abraço
Emily

A janela de um dos 154 quartos individuais, vista de fora. Um quarto visto do interior. Tanto o de Emily como todos os outros são semelhantes, mudando apenas a decoração e objectos pessoais (cortesia Calee Allen/NSF)
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O dia-a-dia da norte-americana Emily Wampler no local mais inóspito da terra, a base Amundsen-Scott, onde até Outubro é sempre de noite e a temperatura é de 60 graus negativos


No Pólo Sul, um balanço das coisas "mais esquisitas"

6:44 Sábado, 24 de outubro de 2009

Frieiras, raios azuis a saltar por  todo o lado, lindas auroras boreais e ...ausência de serviços de emergência e de limpeza. Clique para visitar mais textos no blogue Emily presa no gelo

Olá mais uma vez, cara Emily
Espero que continues bem e bem disposta (neste aspecto deves está-lo cada vez mais, não?...).
Agora que estás quase a ir-te embora da Base do Pólo Sul, quais foram, durante estes nove meses, as coisas - digamos -- "mais anormais", mais fora do comum, menos usuais em sítios "normais" como o meu?
Fica bem
Um beijo
José

Emily presa no gelo - No Pólo Sul, um balanço das coisas 'mais esquisitas'
Olá José,
Como vais?
As coisas mais "esquisitas", como tu lhes chamas - ou, digamos, menos normais noutras paragens - são várias, algumas das quais já te contei anteriormente. Vamos lá ver se sistematizo tudo:

1) Frieiras, lábios rebentados e hemorragias nasais.
Tudo isto são coisas correntes, porque a atmosfera seca daqui é terrível. Temos de aplicar constantemente creme nas mãos e baton do cieiro. Muitos de nós, se não praticamente todos, usam humidificadores nos quartos, para que o corpo ganhe alguma humidade enquanto dormimos. Outros gostam de ir para a estufa hidropónica, onde a humidade é uma boa loção e uma boa terapia.

2) Electricidade estática.
Praticamente todas as vezes em que tocamos numa coisa metálica (uma mesa, a maçaneta duma porta, seja o que for), apanhamos um choque. Isto aqui é tão seco (a Antárctida é o continente mais seco do planeta) que a electricidade estática irrompe à medida que caminhamos. Fazer uma cama com roupas de flanela ou de lã é como assistir a uma tempestade de luz: é ver electricidade estática azul a saltar através dos lençóis...

3) Falta de comida fresca
Durante muitos meses temos de comer comida congelada. Com excepção das verduras que íamos fazendo crescer na nossa estufa hidropónica, tudo o resto era congelado. Agora, com a chegada do primeiro avião, na semana passada, já pudemos comer fruta e ovos frescos, pela primeira vez desde Março ou Abril, como te contei na anterior conversa.

No dia 18 de Setembro, uma má notícia: um fungo acabou com a «plantação» de girassóis...
No dia 18 de Setembro, uma má notícia: um fungo acabou com a «plantação» de girassóis...
4) Check-ins rádio
Na maior parte do tempo, cada um de nós anda com um transmissor rádio, que é obrigatório levar se saímos à rua. Quando vamos lá fora temos de montar um esquema de check-in com alguém que fique dentro da Estação, para que, se não dermos notícias até à hora prevista, seja lançado o alerta. Mas foi raro isso acontecer.

5) Auroras boreais
Montes delas, durante os meses em que foi sempre de noite. Tínhamos aí umas três auroras por semana.

6) Recolha do lixo
Praticamente todo o lixo é reciclado. Todos os resíduos são separados, em 19 categorias diferentes (plástico, metal, papel, alumínio, etc.). Há recipientes para a reciclagem por toda a estação e isso para nós é uma coisa completamente normal.

7) Sistemas de emergência
Como a nossa comunidade é pequena (43 pessoas), todos têm um papel a desempenhar em caso de emergência. Eu, por exemplo, pertenço à brigada de incêndios, pelo que tive treino para procurar pessoas no meio das chamas. Outros camaradas meus estiveram na brigada de socorro médico, e por aí adiante. Copm excepção dos dois médicos, aqui na Base do Pólo Sul não há profissionais de serviços de emergência, pelo que todos têm de ajudar.

8) Limpezas
O mesmo da alínea anterior. Todos têm de participar. Uma vez por semana, todos tiveram (e ainda têm) de fazer a faxina. Definem-se áreas e a limpeza de cada uma é atribuída a uma equipa. Do mesmo modo, cada um de nós tem de ir um dia por mês para a cozinha, lavar pratos e ajudar a mantê-la asseada. A limpeza ocupa uma grande parte da vida aqui na Amundsen-Scott.

Adeus e até breve
Beijo da
Emily

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O dia-a-dia da norte-americana Emily Wampler no local mais inóspito da terra, a base Amundsen-Scott, onde até Outubro é sempre de noite e a temperatura é de 60 graus negativos


Umhhh! Chegaram finalmente os "fresquinhos" ao Pólo Sul!

17:45 Quarta feira, 21 de outubro de 2009

O primeiro avião oficial de passageiros do Verão aterrou ontem na Base do Pólo Sul. E Emily pôde comer o primeiro ovo desde Abril e a melhor banana da sua vid. Clique para visitar mais textos no blogue Emily presa no gelo

O primeiro avião «oficial» do Verão levanta voo da Base do Pólo Sul, depois de ter deixado 16 pessoas da equipa de Verão e comida fresca. De volta, levou já três pessoas da equipa de Inverno (cortesia Emily Wampler)

Ora viva José,
Depois de uns dias de mau tempo, com o vento tornar a visibilidade tão baixa que não era possível aterrar aqui qualquer avião, chegou finalmente, ontem, o primeiro avião oficial de passageiros do Verão. Vieram 16 dos membros da equipa de Verão da Base do Pólo Sul e foram-se embora 3 da equipa de Inverno. O que significa que a nossa pequena comunidade do Inverno começa a desfazer-se.
O estado de espírito era óptimo na Estação Amundsen-Scott quando o avião aterrou. Muita gente saiu para saudar a chegada do avião e para se despedir dos nossos três camaradas que se foram embora. O tempo começou a piorar quando o avião aterrou, mas eles conseguiram levantar sem problemas.
Sabes qual é uma das melhores coisas ao chegar aqui ao Pólo Sul um novo avião? "Fresquinhos"! Por aqui, chamamos "fresquinhos" à fruta e aos vegetais frescos.
A nossa pequena estufa foi importante a fornecer verduras - como alface, pepinos e pimentos - mas o pessoal que chegou agora trouxe ovos (coisa que não temos desde Abril!), bananas, kiwis, ameixas e nectarinas.
Umhhh!, que delícia. A primeira coisa que comi foi uma banana e pareceu-me a melhor que comi em toda a minha vida. Estávamos todos muito excitados por termos novamente fruta. E termos tido hoje ovos frescos ao pequeno almoço, em vez dos ovos processados de pacote, foi uma maravilha.
A única coisa de que agora sinto realmente falta é leite fresco. Mas mesmo no Verão aqui no Pólo Sul não há leite fresco, só em pó. Tenho de esperar até chegar à Nova Zelândia para beber novamente leite fresco!
E por aí por Portugal, já está a ficar frio ou o Inverno aí é relativamente ameno?
Fica bem e até breve.
Um beijo
Emily

Membros da equipa de Inverno da Base do Pólo Sul saíram para saudar o primeiro avião (cortesia Emily Wampler)
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Blogue Emily presa no gelo

No Pólo Sul, os bons ficam melhores e os maus ficam piores

José Cardoso (www.expresso.pt)
10:00 Sexta feira, 16 de outubro de 2009

Quando o isolamento da comunidade do Pólo Sul está a chegar ao fim, Emily desenterra da memória uma frase pronunciada em 1930 pelo explorador Norman Vaughn. Clique para visitar mais textos no blogue Emily presa no gelo

Darren, técnico da central da água, surge em traje de herói no aniversário de Emily, no dia 16 de Abril
Darren, técnico da central da água, surge em traje de herói no aniversário de Emily, no dia 16 de Abril
Viva, cara Emily,
Como estás?
Enquanto não chega o primeiro avião de que vocês estão realmente à espera (já que os dois que aí aterraram há três dias, na quarta-feira dia 14, só aí pararam para reabastecer), que novas me dás daí da Base Amundsen-Scott? O pessoal está todo animado?
Beijo
José

Olá José,
Estamos todos muito animados, sobretudo agora, que começamos a ver gente nova com a chegada dos primeiros aviões desde Fevereiro.
Neste longo Inverno que agora está a acabar, a maior parte das pessoas daqui da Base do Pólo Sul esforçaram-se muito por manter uma atitude positiva. Teria sido um Inverno muito mais longo se toda a gente fosse negativa o tempo todo. Portanto...tentámos manter-nos animados e bem dispostos! Mas claro que não deixamos de ser humanos, o que significa que de vez em quando surgiu uma ou outra questiúncula, e qualquer um de nós podia ter um dia "não".
Mas a nossa comunidade é solidária e tentamos ajudar-nos uns aos outros. Há uma citação de que gosto muito, que o explorador da Antárctida Norman Vaughn fez em 1930: "Quando 42 homens vivem numa zona isolada na escuridão total durante meio ano é que se vê a sua têmpera, é que o verdadeiro carácter emerge, é que temos menos controlo sobre a nossa maneira de ser. Um local como este torna os homens bons ainda melhores e os homens maus ainda piores".
Isto ainda é verdade hoje em dia mas, felizmente, foram sobretudo homens (e mulhertes!) bons que tivémos aqui no Pólo Sul neste Inverno.
Um beijo e até breve
Emily

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Blogue: No Pólo Sul, caíram duas mulheres do céu

José Cardoso (www.expresso.pt)
17:17 Quarta feira, 14 de outubro de 2009

Após quase nove meses de isolamento total, os 43 habitantes da Base do Pólo Sul receberam ontem os primeiros visitantes. Mas ainda não são as pessoas que eles mais desejam ver... Clique para visitar mais textos no blogue Emily presa no gelo

O avião Basler a reabastecer na «bomba de gasolina» do Pólo Sul antes de seguir viagem para a Base McMurdo

Olá José, como estás?
Desta vez demorei um bocado, mas houve um atraso nos primeiros aviões, por causa do tempo na Estação Rothera (a base britânica na Península da Antárctida).
Andámos a ultimar as coisas, nomeadamente a colocar as bandeiras que servem para marcar a pista de aterragem. As bandeirolas estão postas em estacas de bambu, que temos de esperar bem fundo no gelo. Lá andámos nós no nosso veículo de lagartas LMC a pô-las novamente, depois de as termos retirado no início do Inverno para não se rasgarem.
Foi engraçado, porque a pista está a cerca de 3 kms da nossa Base do Pólo Sul. Foi a maior distância a que fui desde que cá cheguei, em Fevereiro. O planalto polar é tão plano e tão vazio que nos sentimos tão pequeninos...
Bom, mas voltando aos aviões: foi ontem, dia 13, que aqui aterraram à tardinha no Pólo Sul os primeiros dois aviões, da companhia Kenn Borek Air, uma empresa canadiana.
O primeiro era um Basler. Aterrou, meteu 3500 litros de combustível e partiu imediatamente para a Estação McMurdo. Daqui da Base Amundsen-Scott até à Base McMurdo são cerca de 1300 kms. O Basler leva cerca de 5 horas a fazer a viagem e o Otter cerca de 6.
O segundo avião aterrou uns 20 minutos depois. Era um Twin Otter. Meteu 2700 litros de combustível mas, quando tentou levantar, teve problemas mecânicos. Acabámos por ter de o levar para o "estacionamento Otter", onde temos ferramentas e dispositivos eléctricos que podem ser ligados ao avião para o aquecer. Os pilotos e mecânicos ficaram cá na noite passada e hoje já estão a trabalhar novamente no avião. Felizmente, vão conseguir resolver o problema rapidamente. É que temos uma tempestade prevista para a zona, o vento já começou a soprar...
Tem sido muito interessante ver as reacções das pessoas aos recém-chegados. No jantar de ontem, quando os dois pilotos - duas mulheres! - e o mecânico de bordo entraram na sala de jantar, houve reacções muito diferentes.
Alguns foram muito calorosos e foram logo apresentar-se. Outros ficaram a olhar, os cantos,para os recém-chegados. Outros ignoraram-nos completamente. Alguns dos nossos homens mais "machões" sentaram-se logo ao pé das duas mulheres-piloto. Foi muito engraçado vê-los a disputar as novas atenções femininas...Acho que para alguns homens da Amundsen-Scott o Inverno foi muito longo...
Cá por mim, foi uma agitação ver chegar os aviões. Ficámos um passo mais perto de termos a equipa de Verão que nos vem revezar.
O primeiro avião que vem cá à base do Pólo Sul com passageiros e carga deve chegar amanhã. Mas se o aparelho Otter ainda estiver avariado, este primeiro voo terá de ser adiado. E, é claro, se o vento se agravar os voos serão novamente adiados.
Mas não há problema. Sei que já faltam poucas semanas para o fim - e estou muito excitada por voltar de novo ao mundo da comida fresca, das árvores e dos animais...
Um beijo e até breve
Emily

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No Pólo Sul, a bomba de gasolina já está a postos

José Cardoso (www.expresso.pt)
4:46 Sexta feira, 9 de outubro de 2009

A pista e a "estação de serviço" para reabastecer o primeiro avião a ir ao Pólo Sul nos últimos nove meses já estão prontos. E alguns edifícios que estavam congelados já foram aquecidos para receber a equipa de Verã. Clique para visitar mais textos no blogue Emily presa no gelo

Um dos edifícios da “estação de serviço”, que esteve guardado durante o Inverno, é empurrado por um bulldozer para o local onde vai ficar no Verão

Ora viva mais uma vez, cara Emily,
Então como vão os preparativos aí no Pólo Sul para receberem os primeiros visitantes em 9 meses? Tudo a postos para ver as primeiras caras novas desde Fevereiro?
Um beijo
José

Olá José
Pois é, temos estado todos muito ocupados a preparar a Base Amundsen-Scott para receber os novos ocupantes, a equipa que cá vai ficar no Verão. Em princípio, o primeiro avião chega na segunda-feira.
Estamos a aquecer alguns dos edifícios que estiveram desocupados e que deixámos congelar no Inverno e a escavar, num monte de sítios, o gelo que nestes meses foi deslizando e se foi amontoando onde não devia.
Para que os aviões possam cá vir temos de arranjar primeiro uma pista onde eles possam aterrar com os seus esquis (e não com rodas, como acontece nas pistas normais) e montar uma "bomba de gasolina" no meio do gelo, para que eles possam reabastecer.
Como no Verão passado trabalhei como operadora de reabastecimento de combustível na Base McMurdo, ofereci-me para chefiar a "operação estação de serviço".
Já temos todos os edifícios montados (estas construções estão assentes em esquis, para as podermos deslocar e arrecadar durante o Inverno). Já só me falta ligar algumas válvulas e tubagens que vão dos depósitos de combustível até ao edifício da bombagem, e do edifício de bombagem para o bocal do depósito do avião.
E pronto, por hoje é só,
Diverte-te por aí em Portugal
Um beijo e até à próxima
Emily

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No Pólo Sul, uma prova de triatlo sem sair do mesmo sítio

6:33 Terça feira, 6 de outubro de 2009

Enquanto preparam a logística para receber o primeiro avião a ir ao Pólo Sul desde Fevereiro, os habitantes da base Amundsen-Scott lá se divertem como podem no dia de folg. Clique para visitar mais textos no blogue Emily presa no gelo

Olá amiga Emily,
Por aqui não há grandes novidades -- a não ser que criámos um canal Life & Style no sítio do Expresso na Internet, no qual vamos pondo quer artigos que saiam ou tenham saído na revista em papel (de Moda, Tendências, Design, Comportamentos, Família, Ócio, etc) quer outros artigos e/ou imagens que são feitos propositadamente só para o on-line do Expresso.
Pelo que tens razão: também por aqui tem havido bastante trabalho. Mas o esforço compensa: a página Life & Style já está no ar e está a ter um grande êxito.
E tu por aí, no Pólo Sul, o que tens feito? Como foi o teu fim-de-semana?
Um beijo
José
Olá José,
Nós por aqui, no Pólo Sul, continuamos com a azáfama para ter as coisas prontas para a chegada do primeiro avião.
No dia de descanso, domingo, fizemos um campeonato de triatlo. É claro que, como aqui na Amundsen-Scott, não podemos nadar, não fizemos a parte da natação. Em vez de nadar, usámos a máquina de remo. Fizémos 15 minutos de remo, depois 10 minutos de ciclismo (também no ginásio, em bicicleta estática, claro) e depois 25 minutos de atletismo, correndo para lá e para cá pelas salas e corredores da estação Elevada. Ganhava quem percorresse a maior distância.
Tínhamos três categorias: masculino, feminino e equipas.
Eu ganhei a prova feminina! Mas tenho de te confessar que só houve duas participantes...Foi muito engraçado, com toda a gente a puxar uns pelos outros.
Ah, importante: estabelecemos alguns recordes do Pólo Sul: O Sean Gordon fez mais de 10 kms de bicicleta em apenas 10 minutos, o Brian Vanden Bosch remou quase 4 kms em 15 minutos e o Lance Roth correu 5 kms em 25 minutos.
A esta altitude, mais de 3 mil metros, não me digas que não são boas marcas...
Bom, e agora é tempo de voltar ao trabalho.
Fica bem
Um beijo
Emily

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