O que têm em comum os resultados de grandes empresas portuguesas não-financeiras, como a EDP, PT, Jerónimo Martins, Efacec, Cimpor?
Quase todos mostram que a maior parte dos seus proventos já vêm dos mercados externos. Isso é bom ou mau? Depende. Numa primeira leitura é obviamente positivo. Quer dizer que as empresas portuguesas conseguiram expandir-se e que o seu processo de internacionalização tem corrido bem. Tornaram-se empresas, se não globais, pelo menos multinacionais. E não apenas por causa dos mercados onde estão presentes. Também os seus colaboradores passaram a ser oriundos de várias nações. Isso torna-as mais talentosas, mais fortes internamente, mais capazes de responder aos desafios da globalização e às ameaças da concorrência, mais inovadoras, mais cosmopolitas, mais capazes de aproveitar as oportunidades.
Há, no entanto, um lado menos positivo desta evolução. E isso tem que ver com o facto desta expansão externa das empresas portuguesas se dever também, em parte, à estagnação desde há uma década do mercado interno, com a economia nacional a registar crescimentos tristemente anémicos. Foram obrigadas a procurar externamente aquilo que não encontram no mercado interno.
Mas isso tem consequências, a principal das quais é traduzida no escassear de oportunidades de emprego para os jovens licenciados portugueses. Com efeito, as referidas empresas são dos maiores empregadores nacionais. Se crescem sobretudo nos mercados externos, é lá que recrutarão colaboradores locais para apoiar essa expansão. A emigração é então o caminho que resta a quem se preparou arduamente para um emprego tecnicamente exigente e não encontra trabalho em Portugal compatível com o esforço que desenvolveu. E assim cerca de 30 mil cidadãos deixam anualmente Portugal em busca de oportunidades que não encontram no seu próprio país.
Retenho duas frases publicadas no Expresso da semana passada. Uma de António Barreto: "O facto de haver hoje uma emigração quase tão significativa como há 40 anos é dos factos mais reveladores da fragilidade da economia e da sociedade". Outra de Ilídio Pinho: "A continuar assim, não há orçamento que resista e acabaremos por ser fabricantes de criados e de criadas para a Europa e para o mundo". Estas afirmações sintetizam o ponto em que nos encontramos. Apesar do muito que progredimos desde 1974, a década de 2000 foi duplamente perdida: internamente e na comparação com os outros Estados da União Europeia.
Chegados aqui, contudo, só restam dois caminhos: ou baixamos os braços e cada um procura resolver os seus problemas; ou vamos à luta e tentamos ultrapassar colectivamente a situação em que nos encontramos. Por mim, escolho a segunda opção. Não só por mim. Também por todos os que lutaram para que este país fosse e se mantivesse independente desde 1143. E também pela responsabilidade que temos para com as novas gerações de lhes deixar um país melhor, mais moderno e competitivo do que aquele que encontrámos. Mas esta segunda via implica a consciência de que: 1) temos vivido acima das nossas possibilidades; 2) todos temos de fazer sacrifícios para ultrapassar a situação. Sem a aguda consciência destas duas variáveis, o melhor mesmo é emigrar.
A segunda morte de Abel
O Tribunal de Comércio anulou a multa de €38 milhões que a Autoridade da Concorrência aplicou à PT em 2007, por abuso de posição dominante, recusando o acesso à rede de condutas no subsolo aos concorrentes TVtel e Cabovisão, que tinham denunciado o caso em 2003 e 2004. A PT nem sequer chegou a provisionar esta multa, por entender que nunca teria de a pagar. E fez o mesmo em relação à multa seguinte de €45 milhões que lhe foi aplicada pela AdC pelas mesmas razões.
Convém recordar que tudo isto aconteceu tendo como pano de fundo a OPA da Sonaecom sobre a PT, no qual o presidente da AdC, Abel Mateus, deixou que passasse a imagem que estava a favor do ofertante e contra o incumbente.
Pelo resultado, bem se pode concluir que não é bom tomar decisões regulatórias com base em ódios pessoais. Mas isso também não dá toda a razão à PT. Vários dos seus concorrentes têm abandonado o mercado. Por mérito da PT, certamente. Mas com certeza também pelo seu peso esmagador no mercado português - e eventualmente por alguma complacência dos reguladores em áreas onde deviam ser mais incisivos. Até porque não é crível que todos os concorrentes da PT sejam muito maus.
O combate de Sena da Silva
Pedro Sena da Silva trava há largos meses um combate solitário. O presidente da Autosil é um entusiasta dos veículos eléctricos (VE) mas lembra, com grande razão e maior bom senso, que não será de um dia para o outro que as pessoas deitam para a sucata os sete milhões de veículos convencionais (VC) que existem em Portugal. No país existem núcleos em empresas e universidades que estão avançados nesta investigação. Mas apesar dos seus insistentes apelos junto dos grupos parlamentares para que no Orçamento do Estado a conversão de VE tivesse, no mínimo, os mesmos apoios que as vendas de VC novos, não obteve qualquer resultado. Entretanto, nos Estados Unidos, os US Postal Service vão converter 20.000 carrinhas de distribuição postal em veículos eléctricos. Parafraseando uma campanha publicitária, e nós a vê-las passar: as oportunidades.
O economista discreto
Se fosse norte-americano, José Félix Ribeiro faria conferências pagas a peso de ouro. Mas é português, imensamente discreto e trabalha para o Estado. Melhor para nós, que temos a oportunidade de desfrutar das suas excelentes análises sem pagar nada por isso. Na mais recente publicação do Ministério do Ambiente, Economia e Território, sob o título "Portugal 2025 - Que Funções no Espaço Europeu?", Félix Ribeiro faz uma interessante análise sobre as vagas de investimento que definiram ao longo dos anos o conjunto das nossas actividades exportadoras, onde salienta, por exemplo, que "a abertura a Espanha não se traduziu em nenhuma transformação na composição da oferta externa de Portugal por via de investimento espanhol. Pelo contrário, este concentrou-se em sectores mais 'abrigados' da economia, reproduzindo o padrão de crescimento e internacionalização da economia espanhola".
Para o futuro, traça quatro cenários para Portugal: o primeiro é o da República Dominicana/Porto Rico, o segundo o da costa de Espanha, o terceiro o da Florida e o quarto o da Flandres. Vale a pena ler. E perceber que Félix Ribeiro só apresenta os cenários. Fazê-los acontecer depende da vontade, esclarecimento e persistência dos agentes políticos e económicos.
A Galp é a próxima Cimpor
Em 31 de Dezembro deste ano termina o prazo de impedimento de Américo Amorim vender a participação que detém na Galp. Não quer dizer que o faça, claro. Mas passa a ter as mãos livres para fazer o que quiser com as acções da petrolífera nacional. Acontece que a participação do empresário está na Amorim Energia, uma parceria entre Américo Amorim, Sonangol e Isabel dos Santos. Aparentemente, a amizade com os sócios angolanos já conheceu melhores dias, de tal modo que a Sonangol, pela voz do seu presidente, já fez saber que quer ter uma participação directa na Galp e não por interposta parceria. Depois há os brasileiros da Petrobras, que também estão interessados. E os italianos da ENI terão igualmente uma palavra a dizer. Ora, se olharmos para o que se tem passado na Cimpor, é de recear que aconteça o mesmo à Galp: uma luta entre investidores estrangeiros pelo seu controlo, acabando esta por deixar de ser uma companhia portuguesa. Há alguém que possa travar este destino?
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Mário de Sá-Carneiro, Um Pouco Mais de Sol
Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Março de 2010