As acusações e sucessivas irritações do PS com a oposição e o Presidente não fazem qualquer sentido. O PS foi o partido mais votado, mas não teve maioria. Compete-lhe, pois, governar levando em conta os resultados eleitorais. Ou seja, tem de governar construindo maiorias para cada assunto, ou fazendo um acordo para todos os assuntos.
É difícil, mas não é impossível nem inédito. Dá trabalho, mas os melhores políticos vêem-se nas horas difíceis e o país não aguenta uma crise política e novas eleições, como alguns sectores socialistas, aparentemente com o beneplácito do primeiro-ministro, parecem pretender.
Este jogo irresponsável, em que sectores da oposição colaboram também activamente, deve ser invertido. A mensagem de Cavaco Silva, aquando da promulgação do adiamento do Código Contributivo, deve ser levada em conta. Na verdade, no debate do OE muito pode ser ajustado e debatido - o aumento das receitas do Estado, se necessário for, e também, como seria virtuoso, a diminuição das despesas deste. E, uma vez que o PSD confirme os sinais já dados em como viabilizará as contas do Estado, ficará o PS sem quaisquer pretextos para invocar um cenário de crise.
O PS deve assegurar o Governo por quatro anos. Se o não consegue fazer com esta liderança, pode fazê-lo, certamente com outra. Afinal, a ideia é servir o país e não jogar com o eleitorado e com o país com o único objectivo de manter no poder quem assim não consegue Governar.
Quem te viu...
José Eduardo Moniz esteve na ERC e disse de sua justiça sobre as intervenções do Governo na TVI.
Para nós, a liberdade de expressão é um bem máximo, seja quem for que a defenda. Saúdam-se pois os esforços de Moniz. Mas, para quem anda há muito nestas lides, e recorda o seu passado na RTP, pode dar-lhe súbita vontade de citar uma canção de Chico Buarque: "Quem não o conhece, não pode mais ver para crer; quem jamais o esquece, não pode reconhecer".
O bom e o mau vento
A partir da 12ª badalada de hoje, a TVE deixa de transmitir anúncios, devido à nova lei sobre financiamento das estações de rádio e TV públicas espanholas.
Em Portugal, além das grandes dotações ao serviço público, mantém-se a concorrência comercial com os privados. Assim se vê que nem tudo o que vem de Espanha serve para o nosso Governo que distingue o bom vento do que lhe interessa do mau, que não lhe convém...
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009