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Eles não se importavam com ninguém

Só o sexo atenta contra o nosso pudor. Triste país.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:01 Sábado, 26 de dezembro de 2009

"Até chamei a minha mulher para ver e da janela da minha casa assistia-se a tudo". O tudo a que se assistia era um casal de jovens dentro de um carro namorando com muita intensidade. "Eles não se largavam. A rapariga estava sem camisola e o rapaz estava com as calças para baixo. Eu e outras pessoas passámos junto ao carro, mas eles não se importavam com ninguém", explica o mesmo mirador, definido pelo "Diário de Notícias" do passado dia 10 de Dezembro como morador. Não foi por falta de esforço deste voyeur convicto que os namorados se mantiveram embrenhados um no outro, fora do mundo: o homem viu da janela, chamou a sua Maria para que partilhasse a entusiasmante visão - na esperança de que ela aprendesse alguma coisa? - , depois desceu à rua, rondou o carro, e nada. "Quem foi passando na rua ficou 'escandalizado' com o que viu, sobretudo por ser ainda de manhã, e chamaram a Polícia Municipal. A patrulha chegou ao local ainda a tempo de apanhar os jovens em flagrante delito", conclui o "DN". A notícia tem por título 'Casal apanhado a fazer sexo oral', e surge devidamente ilustrada com a fotografia de uma rua desabrida e a legenda "Foi neste local de Paredes que os jovens se entregaram ao sexo". Lembrei-me de um poema de Daniel Filipe que lia, relia e sublinhava nos meus tempos de liceu, sobre um homem e uma mulher que "inventaram o amor com carácter de urgência" e foram perseguidos por isso mesmo. Estes jovens vão responder em tribunal pelo crime de atentado ao pudor. Sobretudo por "ser ainda de manhã"? Se tivessem guardado os seus ardores para o cair da noite, seria o 'atentado' menos grave?

A expressão "moradores escandalizados" é várias vezes repetida ao longo da notícia. A mim, escandaliza-me a existência da notícia. Ou melhor: escandaliza-me que o centro da notícia seja o 'escândalo' declarado pelos moradores e não o 'escândalo' da condenação judicial dos jovens. Quantas pessoas fazem sexo dentro de automóveis - por não poderem fazê-lo em casa dos pais, por não terem dinheiro ou coragem para alugar um quarto de hotel ou porque, simplesmente, começam a beijar-se e não conseguem parar de se entregar um ao outro? Que mal vem daí ao mundo? O desejo, os beijos, os abraços, fazem mal a quem? Os 'moradores escandalizados' reagiriam do mesmo modo se vissem, dentro ou fora de um carro, um adulto espancar uma criança, um homem espancar uma mulher (ou vice-versa, mas é menos frequente) ou um grupo de jovens humilhar outro? Estas coisas acontecem diariamente e não vêm nos jornais, nem são alvo de processo judicial. Imagino a reacção dos pais da rapariga, lá em Paredes, a este processo. Imagino os castigos a que será submetida, já fora da alçada do flagrante delito.

Enquanto escrevo estas linhas passa num canal de televisão uma das muitas obras-primas de Clint Eastwood, "A Troca", filme inspirado na história verdadeira de uma mulher a quem desapareceu o filho e que a polícia interna num manicómio depois de lhe ter devolvido um rapazinho que não era o seu e arquivado o processo. Durante séculos as mulheres que se rebelavam contra as autoridades foram fechadas em hospícios, sujeitas a choques eléctricos - para as libertar da 'histeria' própria do seu sexo - e anuladas como seres humanos. Ainda acontece, em mais lugares do que supomos. A penalização doméstica e social da rapariga apanhada neste 'flagrante delito' será equivalente à do rapaz?
Entretanto, como é que eu faço para conseguir que a Polícia Municipal resolva os atentados ao pudor que me preocupam e escandalizam?

Escandaliza-me o desespero das pequenas empresas que chegam ao fim do ano sem conseguir pagar os salários aos seus funcionários porque os senhores que mandam ainda não tiveram tempo, dois meses depois das eleições, de delegar competências e fazer com que as contas dos serviços prestados sejam pagas. Escandaliza-me que os compromissos assumidos por um candidato político sejam esquecidos ou negados assim que toma o poder. Escandaliza-me o dinheiro público atirado à rua em festanças inconsequentes, em vez de investido nos instrumentos e símbolos maiores de educação e promoção do país. Estes flagrantes delitos que ocorrem à vista desarmada e à luz fria do sol de Dezembro, não escandalizam ninguém? Não interessam os jornais?

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009


 

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"Só o sexo atenta contra o nosso pudor."
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 0:49 | Sábado, 26 de dezembro de 2009

Nem mais! Os meus sinceros parabéns pela prosa.

Seria interessante realizar-se a experiência social de simular várias situações num contexto semelhante, para verificar depois quantas delas e quais suscitariam uma reacção, fosse ela positiva, neutra ou negativa, por parte do público envolvente.

Estou certo que o número de pessoas incomodadas com um acto sexual praticado dentro de um carro seria muito superior ao das pessoas que mexeriam um dedo para reagir a um pai que espancasse um filho.

Até não me custa acreditar que se sentissem muito mais incomodados com uma cena de sexo do que com uma cena de consumo de drogas duras.

Nem tão pouco me surpreenderia que as pessoas ficassem indiferentes perante um acto de racismo, mas ficassem profundamente incomodadas se vissem um casal inter-racial aos beijos dentro de um carro.

Influências de certas instituições arcaicas, anacrónicas, obsoletas e ridículas que passam a vida a pregar coisas sobre o bem e sobre o mal e em relação às quais não faltam moralistas dispostos a subscrever todas as parvoíces que têm a sua origem ali.
 
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Eles não se importavam com ninguém
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 14:34 | Sábado, 26 de dezembro de 2009
Na verdade uma coisa que devia ser natural, transformou-se ou transformaram-na num acto repressivo. Até parece que todos não somos fruto dele e ainda há quem queira acreditar que continuamos a vir de Paris no bico de uma cegonha. Somos seres inteligentes na verdade e por isso acabamos por dominar os outros animais. No entanto também não deixamos de ser o animal mais complicado que se arrasta ao cimo da Terra. Fazer amor devia ser tão natural na mente das pessoas como comer ou beber, pois fazem parte do assegurar da continuidade da vida. Dou os parabéns pela maneira como a autora do texto pega no tema. Na verdade preocupamo-nos com as trivialidades e esquecemos o que na verdade nos devia interessar. Mudar a cabeça das pessoas é das coisas mais difíceis que há. São precisas gerações e isso foi o maior legado que o Salazar nos deixou. A economia pode ser resolvida num curto espaço, mudar usos e costumes depois de enraízados é uma tarefa árdua. Faz bem em puxar as orelhas ao culpado que em vez de se preocupar com os entretantos tem a obrigação de já ter passado aos finalmentos. Se a canção é uma arma a pena não deixa de ser uma bomba e é obrigação de quem a tem saber utilizá-la.
 
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Badalhocos
NãoHáInocentes (seguir utilizador), 2 pontos , 23:05 | Sábado, 26 de dezembro de 2009
Deixem-se lá de tretas. Aqui o rapaz e a rapariga do artigo são uns grandes badalhocos ou muito bêbados ou muito drogados para não terem vergonha na cara. Eu também fui jovem, eu também namorei, eu também andei em muito acto sexual próprio ou impróprio em carros, lugares públicos e semi-públicos. E nunca fui para um bairro residencial, de manhã, escandalizar as avózinhas. Essa acção é própria de um badalhoco e uma badalhoca sem vergonha na cara, da mesma massa dos jovens idiotas que se sentam nas escadas do prédio e não deixam passar ninguém, que se juntam aos montes nos cinemas, a entornar pipocas e a fazer barulho e que, um pouco avulsamente e um pouco por todo o lado, andam a chatear toda a gente. Nem toda a gente tem a "abertura" ou, simplesmente, a "indiferença" para aturar actos que devem ser privados em público. Provavelmente o tom do artigo seria diverso se se tratasse dum vagabundo que defecasse em plena rua, em hora de ponta... Fornicar num carro à vista de todos é a mesmíssima coisa.
George Bernard Shaw, um dos mais inspirados escritores anglo-saxónicos de todos os tempos e certamente um homem bastante avançado para o seu tempo, certa vez, em resposta à pergunta porque razão não escrevia um conto pornográfico, disse que não o fazia por vergonha que a mãe o lesse. Com esta historieta quero dizer que muitas vezes não fazemos coisas por termos vergonha delas. Não as fazemos por termos vergonha pelos outros. A isso chama-se respeito ou, como dizia minha mãe, decência!
 
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    A MANIA    Ver comentário
Desencanto (seguir utilizador), 1 ponto , 6:08 | Segunda feira, 28 de dezembro de 2009
    A MANIA    Ver comentário
NãoHáInocentes (seguir utilizador), 2 pontos , 15:20 | Segunda feira, 28 de dezembro de 2009
sou a rosa e não me deixam espreitar
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 23:41 | Segunda feira, 28 de dezembro de 2009
sou mesmo parva é que só depois de ler o artigo da dona inês é que percebi o porquê do meu patrão passar horas à janela e quando pergunto a fingir de simpática então a ver lua heín e responde-me logo com o shiiiiú e pergunto só para não me ficar está alguém a dormir e aí volta-se aponta o dedo e entre dentes como um urso no cio interrompido naquela coisa e ouço vaiiijáprácoziiinha e vou porque a vida está difícil e patrões que paguem não há muitos mas e agora percebo que quando ele se encontra de manhã com o vizinho de cima e cruzam olhares e até cheguei a pensar noutra coisa quando falam rapidamente entre eles e viu aquele de ontem e vi que grande merdas e sim é verdade depois admiram-se de levar com um grande par e tem razão nem chegou a desligar o carro e é das drogas e aí encontram-se com o do segundo andar todo chateado e pois não vi nada a patroa obrigou-me a ir para a cama e também não perdeu nada e talvez o desta noite vá até à sobremesa e despedem-se portanto a dona inês pode dizer a essas pessoas de que não digo o sexo para não me chamarem careta e atrasada que podem vir para a frente do meu prédio porque aqui são todos vuáiares e até fazem um favor à minha patroa pois como ela diz talvez desperte a libo liba libi raios ma partam que nunca consigo dizer mas pronto aquilo que a patroa se queixa que falta sempre e pronto penso que perceberam
 
 
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    Re: sou a rosa e não me deixam espreitar    Ver comentário
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 14:21 | Terça feira, 29 de dezembro de 2009
O amor não escolher hora nem lugar...
MiStEr_QuIm (seguir utilizador), 1 ponto , 0:25 | Sábado, 26 de dezembro de 2009
O amor não escolhe hora nem lugar. É tão bom deixarmos nos levar pelos sentimentos e pelo momento.
Não vejo mal nenhum em ter relações sexuais dentro do carro. Claro que convém ser um bocado discretos fazendo isso num sitio discreto de preferência, mas é tão bom cometer umas pequenas "loucuras" de vez em quando ^^
 
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levar a mal...
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 15:39 | Sábado, 26 de dezembro de 2009
Pois é, o problema foi que o ´flagrante delito` apanhou dois jovens de sexos diferentes. Se fossem do mesmo sexo ninguém lá ia, não fosse o governo levar a mal...
 
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crónica de costumes
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 16:00 | Sábado, 26 de dezembro de 2009
Só ando aqui a cismar (eu sei que não vem ao caso), quem é que, nos casórios dos (das) homossexuais, leva a grinalda... Bem, o arroz, levam os dois, ou as duas, com ele.
Parece que os mestres de cerimónia já estão a tirar cursos de reciclagem por causa da boda.
O casamento pela Igreja vem a caminho... Mais uns tombitos e o Papa amansa. E se não manda-se uma delegação de políticos portugueses ao Vaticano para lhe explicar bem o assunto da maridança.
Sobre a adopção, o assunto que está da berra, não me pronunciarei neste momemto. Vamos por fases para não cansar o cérebro de Sua Exa ... Que já sabemos que não promulga...

(A articulista que me perdoe estar fora do mote, mas eu sei que é especialista destas matérias. Quiça os meus impropérios a inspirem para outra crónica de costumes.)
 
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Eu também já namorei e casei vezes muitas;e nunca
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 1:45 | Domingo, 27 de dezembro de 2009
Eu também já namorei e casei vezes muitas;e nunca fiz uma figuraça dessas..É de lamentar;ainda os jovens não respeitarem as leis;e as pessoas mais velhas..É uma situação;em que cada vez mais se assiste;nestas nvas juventudes;em que acham que tudo podem..É verdade como aqui dizem alguns comentaristas;mas a continuar assim o mundo;o fim dos tempos está para breve..aé lá.. cumpts..kantiflas.
 
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Sitio mais recatado
nao tento (seguir utilizador), 1 ponto , 12:20 | Domingo, 27 de dezembro de 2009
Será que este casal, estava tão desejoso que não teve tempo para escolher um sitio mais recatado?
As pessoas não são iguais, eu também já fiz sexo num carro, mas escolhi um local onde julgo não tinha observadores.
 
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caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 17:21 | Domingo, 27 de dezembro de 2009
Na minha modesta opinião voçê está avancada demais para a época em que estamos, concordo que o amor não escolhe hora nem sítio, mas haja decência pois não somos como os cães nessa matéria, mas realmente acho que voçê quiz dar uma grande bronca em alguem que todos nós conheçemos.
Parabens.
 
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Pois, pois...
Utente (seguir utilizador), 1 ponto , 18:14 | Domingo, 27 de dezembro de 2009
É claro que o facto noticiado é tão impróprio como baixar as calças e urinar na valeta de uma rua movimentada (para não dizer que é mais). Deixemo-nos de infantis e descabidos armanços de tolerância. Fez muito bem quem reprovou a cena. Só mostra maturidade.
Como bem diz a cronista, melhor fôra que "o dinheiro público atirado à rua em festanças inconsequentes", fosse investido nos instrumentos e símbolos maiores de educação". Por exemplo, na educação cívica dos jovens que não têm famíliares que o façam, como, possivelmente é o caso.
 
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