Um cidadão de Odivelas, vereador, foi apanhado com a boca na botija. Pior. Com a boca no descartável do alcoolímetro. Circulava na auto-estrada A9, Loures, com uma taxa de alcoolemia "acima do permitido por lei". Na hora em que ninguém desconfia. Cinco e meia da madrugada. Despistou-se. E, segundo a GNR, injuriou e agrediu a patrulha.
O cidadão andava ao serviço da autarquia sozinho. Mas garante que ele é que foi o agredido. Vá lá saber-se quem estendeu primeiro a mão e levantou a voz. O vereador ficou com termo de identidade e residência. Já não há cidadãos anónimos neste país.
A GNR vai comemorar um século. Mesmo após a extinção da sua Brigada de Trânsito, continua armada em desmancha-prazeres. E, armada, não está treinada para evitar arrufos com cidadãos automobilistas em serviço.
O cidadão pediu a contraprova do teste de alcoolemia, com recolha de sangue. No que respeita à estrada, é melhor andar em contraprova do que em contra-mão.
Mas ninguém, em questões de boa cidadania, pode dizer 'desta água não beberei'. Ainda que a água seja apenas para destemperar um bom malte para ajudar digestão difícil. Venha quem atire a primeira pedra de gelo.
Um eleito não tem horário. E muito menos quando tem o pelouro do tráfego. As estradas, que diabo, não fecham à meia-noite. Um vereador, no exercício das suas competências, pode muito bem ir testar a segurança dos rails de protecção da auto-estrada ao romper da bela aurora. Ninguém deve apontar o dedo à conduta, nem à condução, de um eleito do poder local fora de horas.
Mas a actividade política tem de ser nobre. Tem, também, de o parecer. O vereador deveria esclarecer o incidente. Descartada a possibilidade de ter ingerido chá verde, se não era whisky e era conhaque, que o admita. Somos cidadãos e humanos. Todos temos as nossas securas.
Embora ainda não esteja devidamente legislada, existe uma praxis edificante de troca de impropérios avulsos na sede da Democracia. Uma deputada chamar "palhaço" a um colega, ou um ministro espetar os cornos como numa faena, já é absolutamente natural no Parlamento.
Nesta linha, que parece tender para linhagem, as novas gerações têm de continuar a aprender a olhar, com a devida falta de respeito, também para um eleito local hidratado, como o vereador de Odivelas.
Os estudantes, que treinam com muita proficiência as boas práticas da dessedentação, nomeadamente nas queimas das fitas, irão ser os futuros eleitos da Democracia. Precisarão de ser compreendidos no futuro, como o são agora nas modalidades de shot, fino ou caipirinha. E, se o Parlamento ainda não pratica estas, ou outras, modalidades, pode ter chegado a altura de fazer um aggiornamento líquido. A política não deve ser uma seca.