Um mês e um dia. Foi o tempo necessário para o Governo averbar a primeira derrota em toda a linha no Parlamento. Passavam poucos minutos da uma da tarde de ontem quando os votos da oposição enterraram por um ano a entrada em vigor o Código Contributivo. Esta foi a votação que mais atenções congregou, pelo simbolismo, importância e dúvidas que o novo Código carregava às costas. Mas no meio da confusão foram aprovadas muitas outras coisas.
Os indícios são assustadores: a oposição aprovou na quinta e sexta-feira medidas "anticrise" (belo nome) que podem ter um impacto complicado nas contas do Estado. E já anunciou publicamente um número de medidas com consequências directas bem mais complexas. Assim, de uma assentada.
Não ponho em causa a justiça das medidas apresentadas e admito que muitas possam ter um impacto directo no combate à crise e na recuperação da economia. Mas aquilo que se pede à oposição e ao Governo é um pouco de responsabilidade. E já agora, que não brinquem com o que resta do nosso dinheiro.
Neste momento não deve haver um único português que ainda acredite que não vai pagar mais impostos daqui por um ano ou dois. As contas do Estado estão de rastos e o país é um arremedo de qualquer coisa que não chega a ser um país. Não existe a menor esperança ou optimismo. E a verdade é que não há razões para haver.
Entre a forma irresponsável como o Governo nos apresenta linhas de TGV ou auto-estradas e a ligeireza com que a oposição aprova leis com impacto orçamental, venha o diabo e escolha. É verdade que estivemos seis meses em campanha, mas era bom que a longa festa acabasse.
Não se pede unanimidade aos partidos da oposição e ao Governo. As diferenças políticas são fundamentais. Mas pede-se responsabilidade, só isso. É bom que todos compreendam que o país vive num estado catastrófico, numa crise internacional sem fim à vista e com o Dubai a dar uma ajudinha à festa.
P.S. - Para quem ainda tinha dúvidas, já se viu que a nossa Justiça está para Portugal como alguns satélites russos perdidos no espaço estão para a pátria-mãe. A Justiça é, de facto, portuguesa e parece que se rege pelas nossas leis. Mas vive literalmente em órbita e noutro mundo. Por vezes faz umas tangentes à realidade, mas volta, rapidamente, à sua incompreensível órbita, que ninguém comanda, que ninguém compreende e que não a leva a lugar nenhum. Os portugueses têm razão para ter medo da Justiça. É natural ter-se medo daquilo que não se compreende.
Ricardo Costa
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009