Hoje o Presidente da República, numa das suas aulas sobre os preceitos constitucionais, muito interessantes, nomeadamente pelas interpretações peculiares, deu a entender que não considerava que as instituições democráticas estavam a funcionar de modo irregular. Retiramos daqui que para o Presidente da República, a utilização do poder do Estado para se controlar os media é um modo regular de se exercer a função de governar. Nunca tinha visto alguém afirmá-lo de um modo tão directo, pelo menos.
Além das doutrinações presidenciais, temos o desfile interminável de notáveis que se "apresentam" na Assembleia da República para serem "ouvidos" pelos deputados e, claro, pelo povo soberano. A lista é interminável e as conclusões nulas. Espectáculo, meus senhores, espectáculo. Pretexto simples para se fazer mais má política.
Todos, claro, vemos a brincadeira ao longe, já sem possível reacção. Pesam-nos os braços moles e, com eles caídos, enterrados no sofá ou durante o café, assistimos a tudo como se não fosse connosco. Instituições, diz-se. Representatividade, que é melhor. E enquanto os "representantes" e as "instituições" afagam os genitais numa complacência que estremece, receosos daquilo que volta quando vai, vemos a democracia, já sem maiúscula, desvanecer-se. No fim de tudo, quando o pântano se tornar cratera, dancemos. Enchamos a cratera de delírio bamboleante e dancemos sobre os restos que restarem. Poucas alternativas teremos.