Uma semana bastou para se perceber uma evidência. Na política é importante negociar. E quando há uma maioria relativa, a questão não é importante, é vital. Compreendo que José Sócrates e o PS se tenham esquecido disso. E compreendo que a oposição já estivesse desabituada de fazer propostas razoáveis. O que não compreendo é que tenham precisado de três meses (as eleições foram a 27 de Setembro) para perceber o óbvio.
Felizmente há alguns sinais de mudança. São visíveis no Orçamento do Estado, na Educação e até no casamento gay. O Orçamento tem concentrado as atenções e o casamento as distracções. Mas, desculpem, considero o acordo assinado na Educação mais significativo.
O acordo é um alívio para todos. Um alívio para o PS, que conduziu o processo de forma desastrosa durante quatro anos. Um alívio para os sindicatos, que tiveram na teimosia de Maria de Lurdes Rodrigues a melhor ajuda da sua vida, e que não podiam esticar mais a corda. Um alívio para os professores, para os alunos e para a Escola em geral. E um alívio para o país. Talvez agora se possa falar um pouco sobre um sistema onde pouco se ensina e quase nada se aprende, de programas que pouco contribuem para que os alunos tenham uma ideia (e algum gosto, já agora) sobre o país onde vivem, a língua que falam e o mundo onde circulam. Falar de educação, em vez de carreiras e progressões.
No meio disto, Isabel Alçada mostrou ter uma capacidade política e habilidade táctica que ninguém lhe conhecia. Quando, na véspera da reunião decisiva, a ministra revelou cirurgicamente que 83% dos professores eram avaliados com Bom (!), a posição dos sindicatos ficou muito mais fraca. O ministério tinha esse número há muito tempo mas só o divulgou, pela voz da ministra, na véspera da maratona negocial. Saiu-se bem.
No caso, importa pouco fazer as contas aos vencedores e vencidos. Tal como no Orçamento do Estado. O PS não pode aproveitar a inevitabilidade de o PSD viabilizar o documento para fazer o que lhe apetece. Tem que se sentar à mesa, abrir mão de algumas coisas, aceitar outras, e admitir que os outros partidos conseguem ter boas propostas. Foi isso que o Presidente disse na mensagem de Ano Novo e é assim que se governa num país normal.
Foi, aliás, um acordo que fez o PS aprovar já o casamento gay (que defendo). Quando rejeitou a proposta do Bloco em 2008, Sócrates comprometeu-se com Louçã a resolver o assunto no início da legislatura seguinte. Não se entenderam na adopção, mas o Bloco aceitou votar a proposta do PS para a viabilizar.
Ricardo Costa
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010