- Como é tradicional, o Primeiro-Ministro falou aos portugueses no dia de Natal. A mensagem suscita três (breves) comentários. A saber:
1) Na forma, admito que Sócrates esteve bem - o que prova que os únicos que trabalham bem no Governo são os spin doctors, os assessores políticos do Primeiro-Ministro. Uma comunicação incisiva, rápida, direta. Sem se prolongar excessivamente e dinâmico - essencial para se captar a atenção do espetador na sociedade imediatista em que vivemos. Nota muito curiosa: Sócrates nunca se referiu ao Governo, mas sim - sempre! - a nós, portugueses. Por exemplo, não disse "o governo será capaz...", mas "nós, os portugueses, seremos capazes...". E esta alteração semântica tem uma intenção política clara: reforçar a ideia de que não é o Governo que quer tomar as medidas difíceis - antes é o interessa nacional, a realidade que as impõe, afastando, assim, qualquer responsabilidade do executivo. Mais: ao referir-se a "nós, os portugueses...", Sócrates dá uma imagem (falsa!) de partilha de sacrifícios por igual e pretende passar uma imagem de força - isto é, de que os portugueses estão com o Governo PS, não havendo um caminho alternativo. Bem pensado pelos spin doctors - a propaganda de André Figueiredo, Rui Paulo Figueiredo e outros continua a funcionar com profissionalismo;
2) No conteúdo, a mensagem foi paupérrima. Não acrescentou rigorosamente nada - a única frase a reter é uma declaração de intenção de Sócrates: não vai desistir, não obstante as adversidades. Sim, e qual é a novidade? Já todos sabemos que Sócrates é um obstinado e agarrado ao poder e que, pelo seu pé, nunca sairá. Dará luta até ao fim. O que mais surpreende (ou devo dizer choca?) é o Primeiro-Ministro que está a destruir o estado social, que depois de tanta teimosia, aceita rever a legislação laboral a mando de Bruxelas, apresenta como grande vitória o aumento do salário mínimo para 500 euros em 2011! Que grande vitória da concertação social - diz Sócrates! Que grande descaramento e desonestidade intelectual - digo eu! É que o Governo só vai aumentar 10 euros, fixando como meta (como meta!) o aumento para 500 euros em Outubro! Para o final do próximo ano! Dir-me-ão: o governo está muito optimista quanto às previsões para o próximo ano. Não brinquem connosco! Como pode estar o Governo optimista quando ele próprio não acredita na eficácia das medidas de austeridade que já tornou públicas? E que, por conseguinte, teve de apresentar em Bruxelas um plano B que nenhum português conhece? Se não fosse tão triste, até me ria com a desonestidade de Sócrates...
3) Querem a prova de que Sócrates vive no seu mundo particular, que só existe mesmo na cabeça dele? Então, aqui vai: passei a madrugada do meu dia de Natal a comparar o discurso de Natal do PM de 2009 com o de ontem. Conclusão: são praticamente iguais. É impressionante! Em 2009, Sócrates afirmou: " 2009 ficou marcado pela maior crise económica e financeira mundial, sentida em Portugal, como em todos os países". Em 2010, a crise continua a ser exclusivamente internacional - e o Governo, coitadinho, é a vítima...não há responsabilidade nenhuma do governo nacional, claro! Em 2009, Sócrates falava da vitória da qualificação dos portugueses com as Novas Oportunidades; em 2010, Sócrates fala do relatório PISA e a vitória do seu governo na educação. Em 2009, Sócrates defendia a solidariedade entre os portugueses, indicando como medidas virtuosas do governo o aumento das bolsas de estudo, o aumento das pensões mais baixas e da protecção no desemprego; em 2010, Sócrates volta a dar grande destaque à solidariedade, apontando como exemplo o pífio aumento do salário mínimo e -imagine-se! - o acordo com as instituições de solidariedade social, em que, só por acaso, o governo lhes reduz o apoio devido... Ah! Igualmente, só por acaso, passado um ano, as grandes bandeiras do governo (bolsas de estudo, aumento das pensões) foram tiradas ou largamente reduzidas...Pormenores! Em 2009, Sócrates terminou a mensagem dizendo que 2010 seria o ano da recuperação para o nosso país e que tinha a certeza de que iríamos vencer as dificuldades do novo ano...não preciso de contar o que verdadeiramente se passou este ano, pois não? Minha preocupação: Sócrates terminou a mensagem deste ano a dizer exatamente o mesmo! Mau presságio? É que Sócrates, aparentemente, continua a acreditar nos portugueses; os portugueses é que já não acreditam em Sócrates. Por razões mais do que legítimas.
Em conclusão, ainda com espírito natalício, deixo-vos aqui as pérolas da mensagem de Natal de Sócrates de 2009 - frases que irão fazer parte do anedotário político brevemente:
" Precisamos de continuar o investimento público, das infra-estruturas, dos transportes, das telecomunicações e apoiar as pequenas e médias empresas" - Afinal, 2010 trouxe aumento de impostos, aumento do défice, necessidade de cortar o investimento público...Eis a marca Governo Sócrates!
" A intervenção do Estado no momento certo foi decisiva para estabilizar o mercado financeiro, apoiar as famílias, apoiar as empresas, estimular a economia" - Claro! Salvou-se em 2009...para as matar em 2010!" Agora, andamos a pagar a fatura do problema que se agravou em 2009 e da incompetência do Governo na gestão do processo BPN e na execução orçamental...Eis a Marca Governo Sócrates!
O que nos reservará a marca Governo Sócrates para o próximo ano? Que medo!!!