Li com misto de surpresa e indignação a entrevista que Pedro Passos Coelho deu ao Expresso na semana passada. Se dúvidas havia, já não há: o seu discurso e as suas acções são a expressão cristalina do populismo.
Passos Coelho é uma espécie de rei pop da política. O rei que muito provavelmente irá ser o próximo líder do PSD e que, tal como os anteriores primeiros-ministros, pode vir a ocupar o lugar sem percebermos como lá chegou.
Fica bem lançar livros intitulados "Mudar", cópia do slogan que elegeu Barack Obama, e dizer que não se inspirou nisso. Foi só uma coincidência ele e Obama pensarem exactamente a mesma coisa!
É bonito dizer que se corta nos salários dos políticos para dar o exemplo. Seria cem vezes mais importante defender o aumento do salários dos políticos - para atrair os melhores -, acompanhado de uma reforma do sistema eleitoral. E ainda dá o exemplo da Irlanda, que de facto cortou nos salários dos políticos. Dos políticos e de todos os funcionários públicos...
Grande defensor da privatização da Caixa Geral de Depósitos, aproveitou agora para dizer que nos dias de hoje, afinal, já não vendia a Caixa. E a culpa é dos privados que pelo facto de estarem sem dinheiro dá jeito ter um "instrumento do Estado como é a CGD", com um mandato "claro e puramente financeiro". Alto! É que se a Caixa estivesse mandatada para uma actuação puramente financeira nem teria entrado em alguns negócios por serem efectivamente... maus negócios. E de que interessa entrar num negócio para o salvar ou ajudar e depois não poder ter qualquer interferência na gestão? Isso, sim, seria um disparate mil vezes maior do que foi a nacionalização do BPN.
E se, no passado, Passos Coelho já tivesse vendido a Caixa? O que fazia agora perante esta crise económica e financeira?
É muito fácil para quem está fora do poder e nunca por lá passou mandar umas larachas que até caem bem na maioria da população. Difícil é criar um sistema de co-pagamentos na saúde e congelar a despesa social quando o desemprego não pára de aumentar.
Fácil para Passos Coelho é chumbar este Orçamento porque "daí não vem mal nenhum ao mundo". Ao mundo de certeza que não, mas a Portugal sim. Mas ter a capacidade de perceber isso é o que distingue quem tem sentido de Estado de quem ainda não tem. Ainda... pois optimista como sou acredito que o 'Coelho pop' um dia ainda sairá da toca e perceberá que o melhor é ser Passos Coelho.
Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010