A minha família é alentejana. Isto quer dizer que eu sou meio pagão. Um bárbaro, melhor dizendo. Eu andava em pelota pelos matos do bairro em vez de ir à catequese com o resto dos galegos (para um alentejano, a Galiza começa ali em Alcobaça). Enquanto a malta aprendia a rezar, aqui o adãozinho pagão lá ia fazendo genocídios na maçã alheia. É por isso que parte de mim fica contentinha ao ver o triunfo desse culto pagão chamado 'ambientalismo'. Meus amigos, sei do que falo: o ambientalismo é uma crendice retropagã. É um regresso ao passado feito de trevas e florestas célticas. É o regresso do culto da natureza, com duendes no lugar de anjos, com sexo no lugar do confessionário, com lendas nórdicas no lugar da "Bíblia", com a mãe terra no lugar de Cristo. Irmãos pagãos, estamos vingados.
Não, não estou a gozar. O ambientalismo é mesmo uma religião oficial, e até já tem personalidade jurídica. Há dias, um juiz inglês considerou que a crença ambientalista merece tanta consideração como qualquer outra crença religiosa. É oficial, portanto. Meus amigos, é aqui que o alarme dispara. É aqui que a minha outra parte (a parte boa) começa a ficar de pé atrás com a loucura 'verde'. Esta crendice é pagã no aspecto, mas é monoteísta na substância. Aliás, o ambientalismo tem muitas parecenças com o cristianismo. Para começar, também é milenarista; para acabar, também tem a mania de mexer no nosso prato. Na Quaresma, dizem os antigos, não se podia comer carne. Agora, os 'verdes' dizem que não podemos comer carne, porque os explosivos gases das vaquinhas fazem mal aos ursinhos do Pólo Norte. Se a Greenpeace mandasse, meus amigos, viveríamos numa gigantesca Quaresma de doze meses. Não contente com o ataque ao bife, o ambientalismo também embirrou com o peixe grelhado. O cristianismo era agnóstico em relação à sardinha, mas o ambientalismo não é. Nada de sardinha, dizem. E nada de bacalhau. Neste estranho mundo das Greenpeace e das Quercus, estamos condenados a uma dieta de duendes: bagas e frutos.
As exigências gastronómicas da agenda 'verde' reflectem a demência intelectual que se apossou da Europa. Na cimeira de Copenhaga, os delegados europeus afirmaram que, no fundo, as fábricas não passam de câmaras de gás, e que o C02 está a criar um campo de concentração à escala global (ofereço de borla esta metáfora à Quercus). Ora, não é aceitável que se tomem decisões políticas com base em crenças monoteístas. Devemos desconfiar sempre das intenções dos monoteístas, venham elas com anjos ou duendes, venham elas com freiras ou com a Quercus.
Pombal
O livro "D. José" (Círculo de Leitores) é essencial para compreendermos o perfil político que Portugal ainda apresenta em 2010. A história é sempre melhor do que a ideologia na hora de analisarmos o país. Nuno Gonçalo Monteiro descreve aqui a forma como o 'valido' de D. José, um tal de marquês de Pombal, mudou para sempre a relação entre o Estado e a sociedade. Foi com Pombal que o Estado começou a colonizar a sociedade.
Foi com Pombal que a ideia de limitar o poder do 'primeiro-ministro' passou a ser ilegítima. Em 2010, ainda vivemos nesse equívoco institucional.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009