A tragédia do Haiti desta semana deixa-nos surpreendidos por dois paradoxos.
O primeiro: o tecnológico.
A notícia do que acontecia chegou ao mundo não porque os profissionais das notícias e as majors da comunicação chegaram - ou estavam - em Port-au-Prince, mas porque as próprias vítimas produziram as notícias usando as tecnologias da mobilidade, do telemóvel à web. Algo a que já começamos a estar habituados (há umas semanas era a revolução iraniana).
As chamadas "redes sociais", por outros designadas por novos media, estiveram, de novo, na ribalta - a par da tragédia foram elas próprias noticia. A cara de Carel Pedre de blusa azul, o radialista haitiano, contando em directo no twitter o que ocorria, as mensagens de vida para os familiares distantes ou procurando desaparecidos ao minuto no twitter, e as primeiras imagens de choque (sem os filtros habituais dos media), em directo, no facebook, ficarão na galeria dos acontecimentos deste ano.
Ao mesmo tempo, a coragem, a resiliência, a teimosia, a persistência de um povo apenas com mãos e ferramentas domésticas tentando tirar sobreviventes dos escombros. Tecnologia primitiva com uma enorme dose de desenrascanço, salvando vidas. Imagens que não se esquecerão.
O segundo: o geopolítico.
De semi-Estado ou Estado-farsa, ou quase-Estado falhado, a geopolítica escreveu por linhas tortas a real condição do Haiti.
Provavelmente é já, nestas horas, de facto, um protectorado da ONU sob o alto patrocínio, ou vigilância, das tres grandes potências com interesses geo-estratégicos na região: Estados Unidos, Brasil e França. Os espaços geográficos, mesmo pequenos e devastados, têm horror ao vazio geopolítico. O posicionamento por esta troika era imperativo - antes que outros chegassem ou os bandos tomassem conta das ruas. Uma Conferência está prevista para Março. A seguir.