A Galeria Saatchi fica num dos extremos de King's Road, em Londres. Charles Saatchi, o guru da publicidade e o responsável parcial pelo sucesso do thatcherismo, é um dos formidáveis coleccionadores de arte contemporânea e um homem que faz descer e subir o preço de um artista pelo simples acto da compra e da venda. Esta galeria, um museu privado que ocupa um dos espaços nobres da cidade, tornou-se obrigatória para quem quer conhecer o que andam jovens artistas a fazer por aí. Depois da China e do Médio Oriente, Saatchi interessa-se pela Índia, e a exposição "The Empire Strikes Back" ("O Império Ataca de Novo", uma paródia à "Guerra das Estrelas") é uma revelação de como no mundo actual a arte é a mais inteligente e original interpelação aos poderes instituídos e à irónica indiferença em que apodrecemos.
Não prescindindo da literatura, e muito menos da narrativa, da inclusão de um testemunho, uma história, uma alegoria ou fábula, a arte contemporânea, nos seus diversos suportes e materiais, diz-nos o que esta exposição de jovens artistas indianos e paquistaneses (alguns nascidos ou educados na América e Inglaterra) nos diz: estamos fartos. Estamos fartos das vossas mentiras. Não estamos mortos. Esta arte é uma forma de exílio. De rejeição.
É uma verdade que só pode ser enunciada por um jovem, antes de a resignação, o conformismo ou o sucesso tomarem conta da mão e da cabeça e reduzirem o artista a uma peça da engrenagem. O que, excepto em casos especiais como o de Bacon, acontece sempre. O artista passa a bibelô. Antes de os tornar bibelôs, Saatchi gosta de os descobrir e coleccionar.
A arte contemporânea fere a nossa sensibilidade de um modo mais inteligente e imediato do que a literatura, que anda às voltas com o seu umbigo. Diz-nos o que as novas gerações pensam, mais do que as bichas para comprar um iPod. Diz-nos o que sentem. Saio da Saatchi e vejo que todo o bairro se alindou, com pequenas lojas e esplanadas e uma relva fresca e miudagem a passear. A nova moda na Califórnia e em Nova Iorque são as barracas gastronómicas na rua, e muitos jovens que não têm dinheiro para montar um restaurante usam uma carrinha para mostrar a arte e ganhar uns cobres. É o espírito empreendedor no seu esplendor. Sem subsídio, sem patrocínio, lá estão eles a vender sanduíches e pratos de qualidade, confeccionados em casa ou na carrinha. Nada a ver com fast food ou rulotes de bifanas falidas. É comida boa, a bom preço. Os jovens arranjam sempre modo de pensarem pela sua cabeça, sabem que a crise financeira e o falhanço da política os obriga a sobreviver.
Vejo letras familiares numa das barraquinhas gastronómicas. Leitão assado. Leitão assado em inglês. E um nome português: Rainha Santa. A língua é o reconhecimento imediato, a identidade partilhada. São portugueses. Tugas. Nada mais tuga do que leitão assado e a sua sandes. Aqui estão, aqui estamos, como sempre estivemos em toda a parte. A barraquinha, uma tenda, é simples e elegante, como a paisagem que a rodeia.
Já aqui escrevi sobre vários emigrantes portugueses no Reino Unido. Todos jovens e todos filhos de uma classe média que trabalhou toda a vida e não tem ilusões sobre o mercado de emprego e a mobilidade social. Aperta-se, fulaniza-se e reserva-se para os afilhados e filiados do poder político ou económico. Os do costume. O administradorzinho ao serviço tem uma bela vida aos 30 anos. Estes empreendedores emigrantes trabalham numa livraria, numa florista, numa plataforma de petróleo do Mar do Norte, num cabeleireiro, num grande armazém, numa galeria, num escritório, na cozinha de um restaurante, etc. Empregos modestos para jovens com ambições e cabeça. Estudam e trabalham. Querem ser escritores, realizadores de cinema, actores, artistas plásticos, cozinheiros, inventores, costureiros, designers, empresários. Milionários. Vencedores. Dizem a mesma coisa, aquilo lá não dá, não sobrou nada. Não há futuro. E os políticos não prestam. Aqui também não prestam, mas isso não incomoda. É mais largo, é mais livre, há menos regras. Aprende-se mais.
Raparam tudo. É o que eles querem dizer. A minha geração, que não tinha 20 anos no 25 de Abril, falhou a geração futura. Não toda. A que tem pais abastados e inseridos no sistema está bem. Estuda fora, tem um emprego na volta. A mais pobre sabe que tem de emigrar ou render-se à pobreza e à humilhação. A do meio, a que tem grandes ambições e não usa influências na capital, emigra. Recitam o 'Adeus Português' e despedem-se da grilheta de um regime onde a pata lhes apodreceria. A garra. Esta gente tem garra. Os descendentes do povo que inventou um império. E a sandes de leitão.
Texto publicado na edição da Única de 20 de Fevereiro de 2010