Não é difícil perceber o que passa pela cabeça dos apoiantes de Pedro Passos Coelho: tal como José Eduardo Bettencourt disse há tempos que quer implementar no Sporting um modelo de gestão inspirado no F.C. do Porto, os apoiantes de Pedro Passos Coelho querem implementar no PSD um modelo de gestão inspirado no PS. Passos assenta que nem uma luva: vazio ideológico, discurso "ao centro", telegenia q.b., uma licenciatura tardia, uma adolescência
revista e anotada pelos criadores. O objectivo é o de emular as "qualidades" que levaram à maioria absoluta de José Sócrates. Porque os apoiantes de Pedro Passos Coelho defendem um sistema político apoiado na subalternização das ideias face às pessoas: "isto" é tudo a mesma coisa (PS e PSD), é só uma questão de mudar as caras. Não sabemos se eles pensam exactamente deste modo, ou se só estão a dar corpo a uma condescendência eleitoralista. Seja como for, é grave. Não só não conseguimos identificar em Pedro Passos Coelho uma ideia nestes últimos 30 anos (o Vasco Campilho quer convencer-nos
de que propor o adiamento da votação do PEC é um "desafio", quando o PEC nem deveria ir à Assembleia), como é evidente que a estratégia é profundamente errada. É errada para o país (o país não precisa de um clone em saldos de José Sócrates), como é errada para o PSD (os eleitores não vão querer um clone em saldos de José Sócrates.) Contudo, nem tudo é desgraça: o grande mérito de Passos Coelho foi convencer o PSD que vai levar o PSD ao poder (como aquele senhor que tratou Santana por tu), e o PSD, sendo um "partido de poder", ficou com os olhos a brilhar.
No meio desta triste história, está o risco de se deixar passar em branco o raro talento de Paulo Rangel. Paulo Rangel não é apenas o anti-Passos que a comunicação social quer fazer dele: Paulo Rangel representa a proposta mais interessante que apareceu no PSD em muitos anos, sobretudo porque fará a tão necessitada clarificação ideológica. Com ele, o PSD voltará a desenhar linha divisória que Sócrates esborratou e reporá a dialética política nos níveis mínimos aceitáveis. Rangel mostrará ao país que há um outro caminho que não o do centrão "das empresas" (Passos está sempre a dizer que andou "pelas empresas", o que não deixa de ser sintomático) e do cinzentismo ideológico. Claro, é uma aposta mais arriscada, menos conservadora: os sectores do PSD que acham que o objectivo do PSD é chegar ao poder estão desconfiados. But then again, são sectores do PSD que acham que o objectivo do PSD é chegar ao poder. E se isso acontecer com Passos Coelho, may god help us all.