Rodrigo Nazaré, ontem, no quarto que partilhava com Wellington, ainda internado em estado grave no Hospital de S. José
Jorge Simão
Pouco tempo antes de sair do BES de Campolide com uma pistola apontada à cabeça de um refém, Wellington Nazaré fez um último telefonema: "Ligou às nove e meia e disse-me que preferia morrer a entregar-se à polícia", contou ao Expresso Rodrigo Nazaré, primo do assaltante baleado na cara e internado em estado grave no Hospital de São José, em Lisboa.
Rodrigo Nazaré estava em casa quando recebeu a chamada. "Não sabia o que se estava a passar. Atendi sem saber quem era, porque ele ligou-me de um número que não era o habitual". Rodrigo tentou fazê-lo desistir do assalto. "Pedi-lhe para se entregar, mas ele estava muito nervoso. Só dizia eu suicido-me, eu suicido-me". Wellington fez um último pedido: "Liga para a minha mãe e diz que estou trabalhando muito e que está tudo bem". O telefonema ainda não foi feito.
Rodrigo dirigiu-se de imediato para Campolide. Apresentou-se à polícia como familiar de um dos assaltantes, contando o telefonema que teve com o primo. Terá sido este dado que levou a polícia a acreditar que os assaltantes não queriam, definitivamente, negociar. Rodrigo regressou a casa com inspectores da Polícia Judiciária, dando o consentimento para uma busca domiciliária. A PJ revirou a minúscula casa partilhada pelos dois primos, mas só levou documentos de Wellington. O outro assaltante, Nilson Souza, morava em frente. Aí, a polícia encontrou dez mil euros em dinheiro, perucas e braçadeiras de plástico, iguais às que foram usadas durante o assalto para algemar os reféns. Há suspeitas, ainda por confirmar, de que este não era o primeiro assalto da dupla.
Foi durante a diligência que Rodrigo soube da notícia: Wellington e Nilson decidiram sair do banco usando dois reféns como escudos humanos. A polícia foi obrigada a abrir fogo. Nilson morreu imediatamente, Wellington escapou com vida.
Rodrigo Nazaré, 21 anos, garante que "nunca, nunca" ouviu Wellington a planear um assalto a um banco, ou qualquer golpe do género. Nem ele, nem Nilson Souza, "O meu primo tinha uma vida tranquila. Ganhava 1200 euros por mês, o que dava para viver aqui e mandar dinheiro para a mãe no Brasil".
Os dois primos partilham uma habitação modesta no centro de Lisboa. Rodrigo trabalha na construção civil, Wellington começou como recepcionista na pensão Mar dos Açores. "Era um funcionário exemplar, cumpridor. Estou chocada e não quero prestar mais declarações", diz Ondina, proprietária da residencial.
Wellington e Nilson não têm em cadastro em Portugal, mas de acordo com uma fonte policial, "os dois já estavam referenciados por pequenos delitos, mas nada de semelhante a isto".
Assalto impossível
Comida, bebidas e um carro para fugir com o dinheiro entretanto roubado. Foram estas as exigências dos assaltantes durante as oito horas de negociação com a polícia. "Tinham dinheiro e queriam consumar o assalto, não aceitam desistir e ameaçaram executar os reféns", diz uma fonte policial que esteve no teatro das operações. "Não estavam virados para se renderem. Preferiam suicidar-se", diz outra fonte.
Nilson e Wellington nunca cederam aos pedidos da polícia e nem sequer aceitaram entregar qualquer um dos seis sequestrados que estavam no banco. Os quatro reféns que saíram a meio da tarde, conseguiram fugir quando a polícia respondeu ao alarme do banco. "Os assaltantes fugiram para dentro do balcão com a gerente e um funcionário". Quando saíram para a rua iam com as mãos atadas com braçadeiras de plástico.
O Expresso sabe que, ao longo do dia, só um dos brasileiros falou por telefone com a equipa de negociadores. O outro manteve-se incontactável. "Exigiram um carro para poderem sair de Campolide. Percebemos, pelo tipo de conversa, que eram amadores", conta outro responsável da PSP.
Ainda assim, o assalto foi planeado, uma vez que levaram algemas de plástico e duas armas de fogo, uma 7,65 mm - calibre de guerra e uma 6,35mm ilegal. Os dois não tinham autorização de residência.
Quando saíram para a rua com a arma apontada à nuca e ao pescoço dos dois reféns, os assaltantes assinaram a sentença de morte. A ordem para "neutralizar" os suspeitos partiu do comandante da PSP de Lisboa, Jorge Barreira, que coordenou a investigação no local. O primeiro tiro matou Nilson Souza, atingido no pescoço. O segundo falhou e a bala ficou alojada no balcão da agência. Wellington foi atingido escassos segundos depois, ao terceiro tiro, supostamente disparado pelos operacionais do GOE que entraram no banco. Não largou a arma e não teve tempo para disparar.
A noite tornou a vida um pouco mais difícil aos quatro "snipers" do GOE que estavam a uma distância entre 30 a 150 metros dos alvos. Dois deles estavam escondidos em cima do muro em frente à dependência bancária. Os outros dois, foram para o telhado da churrascaria Valenciana e de um prédio amarelo na Rua de Campolide. As armas usadas foram HK-PSG2 e Mousers de calibre 7.62. Wellington vai sobreviver para ser julgado.
Wellington deverá sobreviver
Não corre perigo de vida o homem, de 23 anos, baleado pela PSP na sequência do assalto ao BES, em Lisboa. A vítima "foi atingida por uma bala que perfurou o crânio e a face, mas não foi atingido nenhum órgão vital ou uma grande veia", disse ao 'Expresso' o especialista em Medicina Interna Lopes Martins, responsável pela Urgência do Hospital de São José no momento da hospitalização do sequestrador Wellington, ontem ao início da madrugada.
Pelas palavras do internista, deduz-se que a trajectória da bala foi quase milagrosa. "Não atingiu o cérebro nem a coluna vertebral." Sobre as restantes lesões, a avaliação só será possível nas próximas 48 a 72 horas, "quando o edema começar a desaparecer". Contudo, "no trajecto de bala, é possível que os nervos da face tenham sido atingidos", admite Lopes Martins.
Wellington apresenta dois orifícios de bala, um na nuca e o outro num dos lados do nariz, mas os médicos não sabem, para já, determinar qual foi o ponto de entrada e de saída da munição. A tomografia axial (TAC) realizada não permitiu, até agora, tirar conclusões taxativas sobre a possibilidade de existirem fragmentos da bala junto ao pescoço. O sequestrador tem outras feridas, menos graves.
"A face e o pescoço apresentavam ainda outras lesões, devidas a estilhaços". Pensa-se que os golpes terão sido provocados quando a vítima caiu para trás após o impacto da bala, partindo um dos vidros da montra do BES. Foi também nesse momento que o refém sofreu escoriações ligeiras - o assaltante usou um dos braços para manter a vítima presa pelo pescoço, arrastando-a.
O refém foi assistido no Hospital de São José e teve alta imediata. À hora de fecho desta edição, o sequestrador continuava internado no Serviço de Cuidados Intensivos, com prognóstico reservado. O 'Expresso' soube ainda que a hospitalização de Wellington no São José foi totalmente aleatória.
Quando a equipa do INEM iniciou os contactos para decidir para onde iria transferir a vítima, estabilizada no local do disparo, nenhum hospital da capital tinha um ventilador disponível. Sabendo disso, o São José aceitou receber o sequestrador, improvisando uma solução. Os médicos decidiram usar um dos aparelhos de respiração assistida disponíveis na Urgência destinados a situações pouco demoradas - que não era o caso - e esperar que um ventilador adequado ficasse livre. E ficou. Vera Lúcia Arreigoso
Wellington Rodrigues Nazaré
Segundo pessoas que lhe são próximas, nada fazia prever que este cidadão brasileiro se envolvesse num assalto a um banco. Aos 23 anos, Wellington chegou a Portugal há pouco mais de um ano. Vivia com o primo numa pequena casa arrendada no centro de Lisboa. Começou por trabalhar numa residencial, no turno da noite: entrava às 23h e saía às sete da manhã. "Um funcionário exemplar", garantiu ao 'Expresso', Ondina, a dona da residencial Mar dos Açores. Há poucos meses, começou a trabalhar numa empresa de mudanças. Queria ganhar mais dinheiro, de forma a conseguir enviar mais para o Brasil, para Minas Gerais, onde estão os pais e duas irmãs. O pai tentou convencê-lo a regressar ao Brasil, mas Wellington sentia-se bem em Portugal.
Nilson Souza
Sabe-se que chegou a Portugal há pouco tempo. Vivia num pequeno anexo, que foi alvo de uma busca, em frente à casa de Wellington e de Rodrigo com outro cidadão brasileiro. Os quatro formavam uma pequena comunidade brasileira que partilhava o espaço de várias casas geminadas com portugueses. Até ajudavam os moradores mais velhos a carregar as bilhas de gás. De acordo com informações recolhidas pelo 'Expresso', Nilson Souza, 35 anos, seria o mentor do assalto e quem terá arrastado Wellington com uma eventual promessa de dinheiro fácil. Nas imagens televisivas, Nilson assume sempre uma posição de liderança. Até à hora de fecho, não foi possível apurar se Nilson tinha algum emprego.
O CÉREBRO DA OPERAÇÃO
Jorge Barreira, 54 anos, número um do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP (e o mais novo superintendente da Polícia) deu a ordem aos "snipers" para 'neutralizar' os dois assaltantes. O 'Marmitas', como é conhecido, tirou o Curso de Infantaria da Academia Militar e participou na Missão de Paz na Bósnia. Foi comandante em Viseu, Aveiro, Faro, Madeira e Porto. Em Maio de 2007, na cerimónia de boas-vindas no Comando de Lisboa, causou polémica: no discurso, frisou que os subordinados deviam estar contentes pelo facto "do salário cair na conta bancária, no dia 21 de cada mês". Mostrou ainda desagrado com várias "situações de mau fardamento". O caso causou mal-estar interno, mas está sanado. O estilo frontal deste lisboeta é muitas vezes mal interpretado.
Nota da Direcção
A operação de resgate dos reféns foi rapidamente elogiada pela generalidade dos observadores e o ministro da Administração Interna apressou-se a enaltecer a coragem da polícia. Muito provavelmente, há raazão para aplausos. Mas para que não restem dúvidas de que a PSP negociou como podia e actuou como devia, era bom que fosse aberto um inquérito, por impopular que seja. Afinal, houve um morto.
Texto publicado na edição impressa do Expresso que está hoje nas bancas.