23/02/2012 atualizado às 1:43
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Distopia 'lesboeta'

Henrique Raposo
8:00 Terça feira, 21 de abril de 2009

O 'caso Freeport' tem revelado a típica incapacidade portuguesa para lidar com escândalos. Como veremos de seguida, esta incapacidade tem duas faces.

Em primeiro lugar, os portugueses falam dos escândalos nacionais como se Portugal fosse o único país do mundo com corruptos. A pátria adora falar assim: "isto cá é uma vergonha; se fosse lá fora eles iam ver como era!". Este "lá fora" é uma entidade mítica, uma entidade civilizada que aparece em oposição ao incivilizado "cá dentro". Na mente portuguesa, o mundo divide-se assim em duas esferas: Nós, as bestas lusitanas versus eles, os estrangeiros perfeitos. Muitos povos são excepcionalistas. Os americanos, por exemplo, acham que o seu "cá dentro" vai salvar o "lá fora". Para os franceses, o "lá fora" é um sítio obscuro à espera de ver a luz francesa. Portugal é o absoluto contrário desta inclinação. Os portugueses, se quisermos, têm um excepcionalismo invertido: para o português, Portugal é a única distopia corrupta do mundo, e os restantes países são altivos Camelots. Esta forma de pensar é um sinal de provincianismo; um provincianismo megalómano, para sermos exactos. Este ódio lançado sobre si mesmo revela que Portugal tem um ego megalómano, embora virado do avesso. Até apetece dizer que os portugueses fizeram os Descobrimentos, porque, tendo a sua própria terra como distopia, só lhes restava elevar o resto do mundo à condição de utopia.

Em segundo lugar, os portugueses têm uma incapacidade congénita para mudar as regras institucionais no sentido de tornar a corrupção mais difícil. Há escândalos na Suécia, Inglaterra, Japão, EUA, França, etc. Uma sociedade sem escândalos não é uma sociedade livre. A inexistência de escândalos é uma marca das ditaduras, onde tudo é encoberto em nome do bom nome dos líderes. Mais: nas outras democracias, também existem pressões políticas sobre a justiça. Nenhuma democracia é habitada por anjos despressurizados. Portanto, a especificidade portuguesa não é a suposta predisposição natural para a corrupção, mas sim a fraqueza institucional da III República. Nos EUA, há corruptos e pressões, e, por isso, um juiz do Supremo Tribunal não pode transferir-se para o poder executivo. Em Portugal, há corruptos e pressões, mas um juiz do Tribunal Constitucional (TC) pode ingressar no Governo.

Nas últimas semanas, ninguém falou do 'caso Rui Pereira'. Ninguém deu destaque ao facto de um ministro ser um ex-juiz do TC. Ora, quando observamos um país onde um juiz passa a ministro perante a passividade geral, então, podemos dizer que esse país acha 'normal' a existência de pressões políticas sobre a justiça. Meus caros, pressão política sobre procuradores é brincadeirinha quando comparada com o salto de um juiz para o Governo. E o mais grave disto tudo nem sequer é o percurso ilegítimo de Rui Pereira; o dado realmente desesperante é o desinteresse do país perante esse percurso. Então os meus caros amigos não dizem nada sobre o 'caso Rui Pereira', e depois acham estranho a promiscuidade entre partidos e justiça? Não estou - atenção - a ligar Rui Pereira ao imbróglio Freeport. Estou apenas a dizer que uma cultura política, a nossa, que não reage ao 'caso Rui Pereira' é uma cultura que propicia a promiscuidade entre partidos e justiça. Não estou a acusar Rui Pereira. Estou a criticar a cultura política de 'Lesboa'.

Henrique Raposo

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Coitado
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 10:01 | Terça feira, 21 de abril de 2009
Eu tenho pena deste homem, coitado. Ele bem se esganiça mas não tem credibilidade para ser levado a sério e, apenas, desperta comiseração. Então se os juizes até para o futebol vão, não podem ir para o Governo? Eu até acho bem que eles não vão para mais lado nenhum senão para a magistratura mas, que diabo, aqui, a regra, sempre foi eles fazerem o que querem! Antes e depois da Democracia sempre ocuparam todos os lugares e mais alguns!
O que devia ser questionado é o Tribunal Constitucional em si, essa aberração! Isso é que é um escândalo! Porque é que o autor não fala disso? Não o incomoda que a maioria dos juizes seja escolhida pelos principais partidos? Que raio de juizes são estes que se prestam a ir para um cargo de juiz, nomeados, escolhidos, pelos partidos? E depois, quando votam, vemos quase sempre os alinhamentos politicos de cada um. Isto é que é Justiça? Isto é que é isenção? Isto é que é independência? Alguém espera independência de um juiz do Tribunal Constitucional, por sinal o mais alto Tribunal da Nação?
Agora este vem com queixinhas que o Juiz foi para Ministro?????? Daaaaaaaa....
 
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david77 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:10 | Terça feira, 21 de abril de 2009
    Re: Coitado    Ver comentário
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 12:29 | Terça feira, 21 de abril de 2009
    Re: Coitado    Ver comentário
david77 (seguir utilizador), 1 ponto , 14:25 | Terça feira, 21 de abril de 2009
    Re: Coitado    Ver comentário
cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 14:56 | Terça feira, 21 de abril de 2009
    Re: Coitado    Ver comentário
david77 (seguir utilizador), 1 ponto , 9:57 | Quarta feira, 22 de abril de 2009
Discordância total
George Rupp (seguir utilizador), 1 ponto , 11:09 | Terça feira, 21 de abril de 2009
Sr. Henrique Raposo, tal como o comentador anterior ("cjours") discordo em absoluto da segunda parte do seu artigo. Qual é o problema de um Juíz do Tribunal Constitucional passar a Ministro? O caminho inverso seria muito mais duvidoso. O António Vitorino também passou do TC para o Governo e não veio nenhum mal ao mundo por isso, até foi um bom Ministro. Por isso, faça o favor de explicar quais são os impedimentos político-éticos na sua opinião.
 
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DESTOPIA DO MACHO DA RAPOSA
riaformosa (seguir utilizador), 1 ponto , 0:20 | Segunda feira, 27 de abril de 2009
Muita ética,verdades a metro com muita filosofia.
  Ande por onde andar,parta de onde partir,por vezes de muito longe,...rodeio aqui,zig-zag acolá,vai sempre parar ao mesmo lugar do custume.
    Parece um 45 rotações riscado,se não lhe retiram a agulha de cima pode romper,mas também pode ser recrutado para os telejornais das Sextas da TVI.
  Há quem sofra do "Sindroma da Mordaça",Este está envenenado com "Freeport".
 
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Ó MEu não de esqueças dos outros, tá?
violinonotelhado (seguir utilizador), 1 ponto , 8:33 | Sábado, 16 de maio de 2009
O articulista que mete cada palavra dificil só para nos atrapalhar, não deveria olvidar-se de mencionar tambem o Juiz de seu nome Negrão que a troco de um prato de lentilhas tambem se baldou para as hostes do PSD. É independente. Talvez, mas se não aceitásse ser incluido numa lista partidária ficaria mais isento e afinal a Justiça está tão carente de Juizes no seu metier que não deveria dispensar seus colaboradores para ir embelezar o ramalhete de deputados. Vous avez compris, mon frére ?
 
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